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quarta-feira, novembro 24, 2010

"Há racismo explícito nas obras de Lobato", opina educadora

Ana Cláudia Barros

Autora de A discriminação do negro no livro didático e Desconstruindo a discriminação racial do negro no livro didático - este último, será lançado na sexta-feira (26), durante o I Fórum Internacional de Educação, Diversidade e Identitidade, em Salvador (BA), a professora Ana Célia da Silva, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), considera acertada a avaliação do Conselho Nacional de Educação (CNE) em relação à obra Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato.

Ana Célia apoia o polêmico parecer, que sugeriu restrições ao livro em escolas públicas, sob a alegação de racismo, mas foi devolvido pelo Ministério da Educação "a fim de verificar se há pontos que possam ter sido eventualmente mal interpretados quando de sua primeira publicação", conforme nota do conselho.

De acordo com a doutora em Educação, há "traços racistas explícitos" não só em Caçadas de Pedrinho, como em outras obras de Lobato.

- Se você analisar as obras de Monteiro Lobato - e eu li todos os livros dele quando era criança e adorei -, vai identificar traços racistas explícitos. No meu livro (A discriminação do negro no livro didático), tem uma página que mostra uma ilustração da Anastácia associada ao porco Rabicó. De perfil, o rosto é igual. A partir da representação que ele faz da Anastácia, enquanto ingênua, ignorante, supersticiosa, tudo de desumano que existe, os ilustradores a desenham parecida com macaco e com porco.

Ana Célia, que será uma das palestrantes do Fórum internacional, reconhece a importância de Lobato para a literatura brasileira, mas defende intervenções no sentido de suprimir ou alterar os trechos que, segundo ela, depreciam os negros.

"O que se deve fazer não é retirar a obra, que é preciosa, mas desconstruir o racismo contido nela". Para a especialista em Educação, o parecer do CNE é "legítimo, acadêmico e pautado em critérios de verdade".

Confira a entrevista.

Terra Magazine - O que você achou do parecer do CNE? A senhora identifica racismo em Caçadas de Pedrinho?

Ana Célia Silva - Se você analisar as obras de Monteiro Lobato - e eu li todos os livros dele quando era criança e adorei -, vai identificar traços racistas explícitos. Eu tenho um livro chamado A discriminação do negro no livro didático, mostrando que os ilustradores, a partir da representação escrita que o autor faz, representam os personagens. No meu livro, tem uma página que mostra uma ilustração da Anástácia associada ao porco Rabicó. De perfil, o rosto é igual.

A partir da representação que ele faz da Anastácia, enquanto ingênua, ignorante, supersticiosa, tudo de desumano que existe, os ilustradores a desenham parecida com macaco e com porco. Eu apresento isso no meu livro, que foi publicado em 1995.

Não se pode dizer que ele (Monteiro Lobato) seja racista, mas o contexto da época... Até hoje, somos em grande parte desumanizados. Você vê como a polícia trata uma pessoa de pele clara e de pele negra? O negro é "mau, incapaz, ruim, vamos matar".

A questão do contexto em que Lobato escreveu a obra é um dos argumentos utilizados para justificar a forma como ele se refere aos persoangens...

É, ele escreveu baseado no senso-comum da época, que vigora até hoje.

Então, a senhora acha que esse tipo de pensamento ainda é vigente?

É vigente e muito mais forte hoje. Sou professora titular da universidade e várias vezes vivenciei racismo explícito dentro da instituição. Tudo pautado na representação, no estereótipo de incapaz, de mau, de feio, de sujo. Por que esse estereótipo continua vigorando? Por casa da mídia, dos livros didáticos que perpetuam esse estereótipo.

Para a senhora, então, a obra de Lobato, de certa forma, ajuda a perpetuar esses estereótipos negativos em relação aos negros?

A obra dele é muito interessante, mas tem contexto racista explícito. Esse livro que a doutora Nilma Lino (conselheira que redigiu o parecer sobre Caçadas de Pedrinho) analisou, ave Maria, você viu como descreve Anastácia? Só não vê quem não quer.

Lobato é irrefutavelmente um grande nome da literatura infantil brasileira. Qual seria, na avaliação da senhora, a solução?

Na sexta-feira, participo de um colóquio internacional aqui, na Bahia, onde lanço o meu segundo livro que se chama Desconstruindo a discriminação do negro no livro didático. O que se deve fazer não é retirar a obra, que é preciosa, mas desconstruir o racismo contido nela.

Como seria efetivamente essa desconstrução?

Por exemplo: "Tive um dia negro". Substitui por tive um dia ruim. Não é fácil? Ruim não é sinônimo de negro, mas as pessoas acham. Outra: "Neguinho pegou". É o estereótipo negativo de ladrão. O que se deve fazer, como doutora Nilma disse, é analisar o conteúdo, revisar a obra e retirar o estereótipo racista, porque a obra tem que ser mantida. É muito preciosa.

A senhora quer dizer que se deve suprimir os termos que seriam racistas?

Ou suprime ou reconstrói.

A senhora fala em reformular o texto?

Tem que retirar o estereótipo. A Anastácia não era ingênua, não era burra.

Então, a senhora sugere a modificação do texto?

Desde 1995, nós estivemos no Ministério da Educação e solicitamos que, quando se fizesse revisão de livros, fizesse revisões pautadas em estereótipos diferentes. Não só em relação ao negro, como à origem, à mulher. Mas eles não atenderam. Continuam dizendo que o livro é ótimo. Você abre e tem lá mulher como doméstica, seja preta ou branca... A verdade é que não querem retirar os estereótipos. Querem que eles se mantenham.

Livros com conteúdos racistas concorrem para quê? O resultado do preconceito contido nos livros é causar, cada vez mais, a baixa autoestima da população negra. Por que as pessoas querem ser brancas? Se você pegar a literatura e colocar todos os brancos como sujos, feios e incapazes, uma criança branca vai querer ser branca? Não vai. Ele quer ser o que é bom.

O parecer do CNE é legítimo, acadêmico e pautado em critérios de verdade. O trabalho da doutora Nilma é um trabalho científico de alto renome. Não é por acaso que ela está no Conselho Nacional de Educação. Ela diz apenas o que eu já disse desde... Fúlvia Rosemberg, da Carlos Chagas. Foi ela que começou o trabalho de denúncia da discriminação dos negros nos livros didáticos. Foi com ela que aprendi, uma mulher branca e judia. Quem me mostrou como o livro é racista foi a mulher negra.

FONTE: Terra Magazine

http://terramagazine.terra.com.br/

quarta-feira, novembro 17, 2010

Monteiro Lobato, racismo e CNE

Coluna do Leitor
17 de novembro de 2010 às 11:22h

Por Cesar Augusto Baldi*

Nilma Lino Gomes não é uma “sicofanta”, uma “destas burocratas de Brasília” ou uma “doidona”, como foi classificada por alguns dos maiores jornais do País. Trata-se de uma pedagoga, com mestrado em Educação (UFMG), doutorado em Antropologia Social (USP) e pós-doutora pela Universidade de Coimbra. Uma das grandes pesquisadoras, no Brasil, sobre a discussão racial na educação. E foi classificada desta forma “elegante” (seria uma censura às suas posições?), em decorrência do Parecer CNE/CE nº 15/2010.[1]

De acordo com a grande imprensa, o Conselho Nacional de Educação teria incorrido em censura, pretendendo banir o livro de Monteiro Lobato ( “Caçadas de Pedrinho”), por entender inadequado o conteúdo da obra, por seu cunho racista.

Mas o que diz, realmente, o parecer tão combatido?

Primeiro, que recebeu uma denúncia e ouviu a opinião de todos os setores educacionais envolvidos, além da Ouvidoria da SEPPIR (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial).

Segundo, que o MEC tem que respeitar os parâmetros para escolha de livros que ele mesmo determinou. E um deles é evitar livros que disseminem preconceitos e estereótipos.

Terceiro, que as políticas públicas– seja no ensino superior, seja na educação básica- devem formar professores capazes de “lidar pedagogicamente e criticamente com o tipo de situação narrada pelo requerente, a saber, obras consideradas clássicas presentes na biblioteca das escolas que apresentem estereótipos raciais”. O parecer, inclusive, cita bibliografia no sentido da necessidade de escolas e políticas públicas lidarem com narrativas, ilustrações e personagens que reforçam “lugares de subalternização do negro”. Não se esqueça, inclusive, que um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil é promover o bem de todos, “sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” ( art. 3º, IV, CF).

Quarto, que na hipótese de obras selecionadas apresentarem estereótipos, deveria a editora responsável pela publicação inserir no texto de apresentação uma nota explicativa e de esclarecimentos “sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura”. Observe-se que o livro “Caçadas de Pedrinho”, objeto do parecer, já continha informação de que a aventura narrada ocorreu em tempo “em que os animais silvestres ainda não estavam protegidos pelo IBAMA” e “nem a onça pintada era uma espécie ameaçada de extinção”. Aliás, um procedimento instituído pelo parecer nº 03/2004 e Resolução CNE nº 01/2004. Haveria algum problema, neste caso, de explicitar a questão relacionada ao racismo, se houve tamanha preocupação, pela editora, com a questão ambiental?

Quinto, que a Secretaria de Educação do Distrito Federal orientasse as escolas sobre implementação de diretrizes curriculares para educação de relações étnico-raciais e práticas pedagógicas voltadas para a diversidade étnico-racial decorrentes. Em suma: que a legislação vigente sobre ensino de história e cultura afro-brasileira e africana fosse tomada em conta como eixo transversal. E cumprida.

Sexto, que as ações fossem realizadas em conjunto com o corpo docente e a comunidade escolar, dentro, portanto, de um incremento de participação e de discussão da própria temática de diretrizes curriculares.

Sétimo, que a literatura não está fora dos “conflitos, das tensões e das hierarquias sociais e raciais nas quais o trato à diversidade se realiza”.

As críticas ao parecer vieram fundamentalmente centradas nos seguintes pontos: a) Monteiro Lobato teria sido quase proibido e não se estaria livre de um processo de censura e de expurgo de livros por parte de um tribunal literário; b) o autor não teria se afastado da mentalidade que “predominava na elite de seu tempo”; c) banir autores somente seria admitido em “casos claros de repugnante racismo”(Lya Luft); d) a medida estaria em desacordo com “nossa maneira de convivência entre as etnias”; e) Tia Nastácia encarna a “divindade criadora”, projetando a “igualdade do ser humano a partir da consciência de sua cor” e que “se há quem se refira a ela como ex-escrava e negra é porque essa era a cor dela e essa era a realidade dos afro-descendentes no Brasil dessa época”(Academia Brasileira de Letras); f) tal iniciativa decorre do multiculturalismo “que reivindica a intervenção do Estado para autonomizar culturas, como se fossem minorias oprimidas em pé de guerra com a sociedade nacional”, uma “imitação servil dos Estados Unidos, país por séculos institucionalmente racista” (Aldo Rebelo).

Os argumentos dizem mais sobre o que ocultam do que, efetivamente, sobre o próprio parecer e suas conclusões.

Primeiro, porque reforçam a ideia de “harmonia social” e “democracia racial”, bem como a alegada inexistência de legislação racialista, ignorando o debate que tem sido feito desde a década de 1970 que denuncia as desigualdades de cunho racial no Brasil.[2]

Alexandre Emboaba da Costa destaca que tais argumentos tendem a: a) apontar a miscigenação como falta de racismo e como fator que influencia as relações sociais, esquecendo a articulação complexa entre classe, gênero, raça, sexualidade e espiritualidade : na “constituição desigual do desenvolvimento e das sociedades da América Latina”; b) divorciar o Brasil dos processos históricos de desenvolvimento global, construindo uma “especificidade histórica” como “algo isolado”, como se não houvesse qualquer inserção num sistema internacional de distribuição desigual de hierarquias; c) supervalorizar a ligação entre miscigenação e igualdade social como se fosse um processo estático, esquecendo tratar-se de “um sistema específico de dominação, com suas maneiras próprias de reproduzir a hierarquia e o poder”. Em suma: “em vez de proteger a miscigenação a qualquer custo”, necessário “examinar como as relações desiguais e hierárquicas foram reproduzidas dentro de um sistema que não visa à separação de raças como na América do Norte, mas uma suposta tendência à integração e à cordialidade.”[3]

Isto fica evidente com os dados constantes do Relatório de Desenvolvimento Humano Brasil- 2005 ( “Racismo, pobreza e violência”), elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento[4] :

“Entre os adultos, a porcentagem de negros com grau universitário observada no Brasil em 2001 (2,5%) foi atingida nos Estados Unidos em 1947- em plena era de segregação, intolerância e violência racial aberta, anterior ao crescimento do movimento por direitos civis e muito antes do surgimento das políticas de ação afirmativa na educação. A proporção dos brancos brasileiros com nível superior em 2001 ( 10,2%) foi alcançada pelos brancos norte-americanos em meados da década de 1960. No caso da África do Sul, em 1995, 2,2% da população negra de 30 a 49 anos de idade era portadora do grau universitário, enquanto no Brasil, no mesmo ano e na mesma faixa etária, esse índice atingia 2,9%. Como o regime do apartheid só terminou em 1994, conclui-se que o sistema universitário desse regime foi capaz de produzir, para a população negra, resultados muito semelhantes aos do sistema educacional supostamente integrado, universalista e racialmente democrático do Brasil”.

Uma pergunta a ser feita seria: não existindo nem a segregação dos EUA nem o apartheid da África do Sul, como foi possível ao Brasil, “democracia racial”, ter reproduzido o mesmo tipo de relações desiguais e hierárquicas?

Segundo, porque, ao discutir se Monteiro Lobato era ou não racista, procuram vincular o racismo ao momento em que o livro foi escrito e não assumir o caráter continuado de subalternização e discriminação de negros.

A inexistência de “raças”, conforme defendida por alguns, não impede – e nunca impediu- a prática do racismo que, conforme a Constituição, é “crime inafiançável e imprescritível” (art. 5º, XLII, CF) e seu repúdio deve reger as relações internacionais brasileiras (art. 4º, VIII, CF). E, portanto, obrigação constitucional, para todos os Poderes de Estado em todas as esferas, de: a) impedir qualquer conduta, prática ou atitude que incentive, prolifere ou constitua racismo; b) tomar todas as medidas cabíveis e possíveis para a erradicação de tal prática.

Imaginar que o racismo seja combatido apenas quando “evidente” ou “caso flagrante” significa partir do pressuposto de que um “tribunal branco” vai estabelecer qual o “sofrimento desnecessário” a partir do qual é possível à vítima da discriminação requerer um tratamento digno. É semelhante à discussão se a pena de morte somente é cruel quando ocorrer por lapidação, mas não por cadeira elétrica ou choque; ou se a tortura é necessária quando o acusado é “reconhecidamente” malvado ou se é imprescindível para obtenção de dados fundamentais ao Estado. Não é preciso lembrar o grau de “coincidência” a ascendência negra e os “autos de resistência”, as averiguações pela polícia e as torturas ou maus tratos em prisões. Justamente porque não se reconhece enquanto racismo é que piadas como a do Danilo Gentilli, do CQC- “King Kong, um macaco que depois que vai para cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?”- passam apenas para uma brincadeira de mau gosto. Afinal, respondeu ele, “não disse a cor do jogador. Disse que a loira saiu com o cara porque era famoso. A cabeça de vocês é que tem preconceito”[5]… Realmente, a associação entre negro, jogador de futebol e macaco é tão incomum que os clubes europeus cujas torcidas simularam sons de macaco para determinados jogadores foram punidos por… racismo. Não é mesmo?

O racismo não “era” uma mentalidade presente apenas naquele tempo, mas uma realidade que permanece na mesma elite que se imagina não preconceituosa e “formadora de opinião.”

Terceiro, porque, em momento algum, os críticos salientam a necessidade de discutir as melhores formas para uma educação que seja crítica, antirracista- e, acrescente-se- “descolonial”. Abdias do Nascimento, em pronunciamento sobre a questão, salientou ser o momento também para discutir-se, em sala de aula, o bullying, “novo nome de uma antiga prática a que gerações de negrinhas e de negrinhos vêm sendo submetidos desde sempre nas escolas brasileiras.”[6]

Quarto, ao salientar-se que a referência a ex-escrava e negra era apenas decorrente do momento histórico, seria interessante imaginar se seria possível Dona Benta ser negra e, ao mesmo tempo, a contadora de histórias europeias e do conhecimento científico dentro da casa, e a tia Nastácia uma senhora branca, empregada doméstica, contadora de casos de folclore. Ou a mesma Dona Benta negra contadora de histórias populares ser tida como detentora de conhecimento científico e uma tia Nastácia branca narrando contos de Grimm ser tida como “contadora” de superstições. Seria possível? A “tia” era subalterna porque negra ou negra porque subalterna? Não se trata somente de luta por justiça social e histórica, mas também por “justiça cognitiva, por um estatuto epistemológico que não subalternize os conhecimentos e práticas negros, indígenas e de comunidades tradicionais.

Quinto, porque o multiculturalismo não é uma cópia servil dos EUA e tampouco uma autonomização de culturas. Exceto para aqueles que entendem que a pluralidade cultural deve ser entendida como ausência de cruzamentos de culturas, de alteração de parâmetros e, fundamentalmente, de interculturalidade. Ou que fazem elogio da miscigenação, que é tanto mais defendida e palatável, quanto mais branca for na essência, e que os elementos indígenas e negros demonstrem a “harmonia” desta “mistura genial”. Como “coadjuvantes”, é claro.

Os distintos movimentos negros e indígenas-talvez não seja do conhecimento destes críticos- desde a década de 1970 não vem defendendo a assimilação nem o aniquilamento das identidades, mas sim um processo de reconhecimento efetivo da diversidade cultural, que, em alguns países, passa pela discussão da plurinacionalidade, do constitucionalismo intercultural e da “descolonização do conhecimento” ( como Equador e Bolívia).

Imaginar uma simples cópia é desconhecer toda esta rica discussão e mesmo a criação de novos conceitos, como “amefricanidade” de Lélia Gonzalez e de “quilombismo” de Abdias do Nascimento, para revigoramento das lutas nacionais por reconhecimento da imensa demodiversidade, sociodiversidade e pluriculturalidade nacional. Por este motivo foram incluídas a proteção das manifestações culturais de indígenas e afro-brasileiros ( art. 215, § 1º, CF), a fixação de datas comemorativas de alta significação de segmentos étnicos nacionais ( art. 215, § 2º, CF) e a proteção dos quilombos ( art. 216, § 5º, CF e art. 68-ADCT). São direitos constitucionalmente reconhecidos depois de muitos anos – e séculos- de lutas. A comemoração do 20 de novembro não é uma reprodução do dia de Martin Luther King, ainda que as energias emancipatórias dos dois movimentos possam ser solidárias.

A luta não é por autonomia de culturas, mas sim contra todas as formas de sexismo, racismo e colonialismo ( tanto interno quanto externo) e por um novo patamar de relação entre igualdade e diferença, em que os conhecimentos e práticas distintos do padrão hegemônico (branco, ocidental, heterossexual, proprietário, adulto) não sejam considerados atrasados, resíduos, improdutivos, ignorantes. É a recuperação de vozes de sofrimento silenciadas, suprimidas, invisibilizadas.

Em 2006, uma campanha publicitária destacava: “levamos nosso afilhado de três anos numa festa e uma criança, da mesma idade, disse pra ele: minha mãe detesta gente preta e eu também.”. O mote da campanha era então- tanto quanto hoje- muito atual: “Onde você guarda o seu racismo? Não guarde, jogue fora!”[7]

Em momentos como este, é que se percebe o quanto é institucionalizado o racismo que sequer se vê como discriminação e que permite a manutenção de um processo contínuo de inferiorização de negros e indígenas. A luta contra os racismos é um ritual doloroso: é como colocar a mão em vespeiro ou formigueiro. Mas ela tem que começar a ser realizada. E se não for sequer em escolas e universidades, vai ser onde?

*César Augusto Baldi, mestre em Direito ( ULBRA/RS), doutorando Universidad Pablo Olavide ( Espanha), servidor do TRF-4ª Região desde 1989, é organizador do livro “Direitos humanos na sociedade cosmopolita” ( Ed. Renovar, 2004).

[1] Disponível no site: http://blog.centrodestudos.com.br/2010/11/03/cacadas-de-pedrinho-e-o-cne/

[2] HASENBALG, Carlos. Discriminação e desigualdades raciais no Brasil. Belo Horizonte: UFMG, 2005; SILVA, Nelson do Valle. Extensão e natureza das desigualdades raciais no Brasil. IN: LYNN, Huntley & GUIMARÃES, Antônio Sérgio Alfredo ( org). Tirando a máscara: ensaios sobre o racismo no Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 2000, p. 33-51.

[3] COSTA, Alexandre Emboaba. Mobilizando a ancestralidade afro-brasileira para a transformação das relações sociais e o desenvolvimento global. Disponível em: http://www.orunmila.org.br/blog/?p=167

[4] Disponível no site http://www.pnud.org.br/rdh

[5] Disponível em: http://www.mulheresreais.blog.br/?p=416

[6] Disponível em: xa.yimg.com/kq/…/11_08_ABDIAS_PARECER+15_2010_CNE.doc.pdf

[7] www.dialogoscontraoracismo.org.br

FONTE: Monteiro Lobato, racismo e CNE « CartaCapital

de Coluna do Leitor


http://www.cartacapital.com.br/
http://www.cartacapital.com.br/politica/monteiro-lobato-racismo-e-cne
IMAGEM: roberto-menezes.blogspot.com

quinta-feira, novembro 11, 2010

Caçadas a Lobato

09/11/2010 - 08:54 - Atualizado em 09/11/2010 - 08:57

O criador do Sítio do Picapau Amarelo pode ser banido das escolas por racismo. Se a moda pega, toda a literatura vai para a lista – desculpe – negra

Prova da evolução da humanidade está no surgimento de leitores que oferecem visões inéditas sobre as obras literárias do passado. A partir dos anos 70, professores e militantes civis americanos começaram o movimento do politicamente correto – e passaram a perseguir obras do passado que não se coadunavam com sua visão boa sobre o mundo. Nos Estados Unidos, a primeira vítima foi Mark Twain, cujo romance juvenil As aventuras de Huckleberry Finn (1884) foi condenado ao banimento das escolas, por conter passagens racistas. Isso porque Huck, o menino branco que protagoniza as peripécias ao longo do imenso rio Mississippi, trata os negros com uma palavra, “nigger”, que hoje soa ofensiva, mas que no século XIX era termo corrente. Os acusadores de Huck desconsideraram a contextualização histórica e acharam por bem e mais confortável tirar o livro do currículo. Não um livro qualquer, mas um dos romances infanto-juvenis representativos do gênero, uma história que traz lições de fraternidade e igualdade racial. Mas a autoridade dos jovens sábios dita que isso não interessa. Twain traz conteúdo racista – e ponto final. Corte a cabeça de Huck!

No Brasil, onde a “intelligentsia” imita - para não incorrer no “macaqueia”, que almas mais sensíveis podem considerar racista - tudo o que os americanos fazem, o alvo (não confundir com “branco”) é justamente o escritor que traduziu Huckleberry Finn para o português, nos anos 30: José Bento Monteiro Lobato (1882-1948), o fundador da literatura infanto-juvenil brasileira. Lobato se inspirou no ambiente sulista e rural de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, de Mark Twain, para criar, a partir de 1920, as histórias e os personagens do Sítio do Picapau Amarelo: Dona Benta, Tia Nastácia, Narizinho, Pedrinho, Emília, o Visconde de Sabugosa...

Naquele tempo, a sociedade brasileira ainda estava marcada por trezentos anos de escravidão, e a maneira de tratar os descendentes dos escravos hoje soa horrível, mas é preciso entender que não continha uma maldade em si. Eram formas do tempo, que hoje seriam obviamente imperdoáveis. Os livros de Lobato têm sido adotados nas escolas brasileiras desde que começaram a ser publicados, e até agora nenhum leitor havia reclamado do conteúdo das histórias. Pois agora estão querendo cassar as Caçadas de Pedrinho, romance de Lobato lançado 1924 que dá continuidade às aventuras de Narizinho e amigos. Um intelectual luminar que se autodenomina “mestrando” da Universidade de Brasília lavrou uma denúncia junto à Secretaria de Política da Promoção da Igualdade Racial. Nosso sábio acusa o livro de incitar o preconceito contra os negros. Isso porque, em algumas passagens, a cor da pele de Tia Nastácia é tratada de forma pejorativa e até ridicularizada, como o trecho mencionado na brilhante reportagem de Celso Masson, Humberto Maia Junior e Rodrigo Turrer em Época: “Tia Nastácia trepou na árvore que nem macaca de carvão” ou a frase de Dona Benta: “Não vai escapar ninguém – nem Tia Nastácia, que tem carne preta.”

Convenhamos os parágrafos soam abjetos, se descolados do contexto. E aí reside o problema. Tais sequências deveriam ser colocadas em perspectiva com notas de rodapé e atividades de leitura. A questão poderia ser discutida em sala de aula. O professor poderia explicar aos alunos que, nos anos 1920, os afrodescendentes eram tratados desse modo, vício histórico de uma sociedade escravocrata que ainda mantinha os privilégios das oligarquias na República Velha, antes da industrialização e da conscientização da população brasileira em relação aos seus direitos fundamentais. O professor poderia continuar, afirmando que é preciso entender que esse tipo de emprego pejorativo não tira a mensagem humanista e progressista de Monteiro Lobato, ou Mark Twain, ambos ativos na luta contra a opressão dos descendentes de africanos que amargaram a escravidão e suas consequências deletérias para o imaginário social. Não por outro motivo, Lobato traduziu Twain. É inacreditável que Twain tenha sido retirado da estante básica do estudante americano, como me parece uma afronta à inteligência das crianças censurar Monteiro Lobato.

Será que vamos começar a assistir à caça retroativa às bruxas? Não vou ficar parado na praça pública aplaudindo o linchamento público de autores fundamentais na formação do humanismo. Os novos intelectuais praticam sem saber um ato imbecil, porque não só não sabem ler, como não fazem questão disso. São preguiçosos. Desejam a fama instantânea da controvérsia pueril. Tomar como ofensa o que foi escrito sem intenção de ferir, descontextualizar para polemizar, eis os recursos surrados da retórica mais primitiva. A atitude malpensada ajuda apenas a desmoralizar a agenda igualitária fomentada pelo governo e pelas ONGs. Atacar um inocente bem-intencionado e ainda por cima morto e sem condições de se defender é ultrajante. Promover uma caçada a Lobato significa desmoralizar o que a literatura brasileira tem de mais característica. Logo Monteiro Lobato, o polemista incontinente, homem que não fugia ao debate de ideias. Ele denunciou as injustiças nas comunidades rurais cometidas contra os ex-escravos, ele desmascarou os privilégios das oligarquias e atacou a Semana de Arte Moderna de 1922 como um revolucionário antielitista.

Assim, denominar esse autor de “racista” é estender a sentença à literatura brasileira como um todo, infantil e adulta. Se a moda pega, não sei o que será de nossos mestres do passado. Antevejo uma plêiade de mestrandos a brandir tacapes e lanças contra as peças de José de Alencar, como a comédia O demônio familiar (1857). Ali, o escravo Pedro justifica seu mau-humor diante da sinhazinha Carlotinha: “

“CARLOTINHA - Por quê? Por causa de Henriqueta?

PEDRO - Sim. Pedro fez história de negro, enganou senhor. Mas hoje mesmo tudo fica direito.”

Não escaparão alguns contos de Machado de Assis, um afrodescendente que, para muitos, gostava de se disfarçar de europeu. Vislumbro um comando de caça a livros incorretos como O mulato (1881), de Aluísio Azevedo – que, em seu tempo, foi abolicionista. Seu livro O cortiço (1890) será banido, porque personagens como a mulher do português João Romão, a negra Bertoleza, é descrita assim: “crioula trintona, escrava de um velho cego residente em Juiz de Fora e amigada com um português”. Os jovens mestrandos caçadores podem sugerir uma pequena alteração na sentença de Azevedo para que o livro continue a ser aplicado nos vestibulares: “Bertoleza, afrodescendente de seus trinta anos, escrava oprimida de um deficiente visual de terceira idade residente em Juiz de Fora e companheira de um cidadão de origem portuguesa”. Não quero nem pensar no que esses professores podem fazer com o romance naturalista O bom-crioulo (1895), de Adolfo Caminha; em termos politicamente corretos, poderíamos resumi-lo assim: conta a história de Amaro, um “afrodescendente” homossexual que sofre perseguição (bullying) na Marinha Brasileira. Não me espantaria se nossos heroicos guerreiros do Correto investirem contra o romance inacabado de Lima Barreto, Clara dos Anjos (1922). O livro por si só é um libelo contra o racismo, mas contém trechos como esse, sobre o abuso que Clara, jovem trabalhadora “afrodescendente”, sofre do “eurodescendente” Cassi: “Agora, é que percebia quem era o tal Cassi. O que os outros diziam dele era a pura verdade. A inocência dela, a sua simplicidade de vida, a sua boa fé, e o seu ardor juvenil tinham-na completamente cegado. Era mesmo o que diziam... Por que a escolhera? Porque era pobre e, além de pobre, mulata.”

Na música popular nem se fala: “Nega fulô”, de Dorival Caymmi, “Negra do cabelo duro”, de David Nasser, “Mulato bamba”, de Noel Rosa, “Negro Dito”, de Itamar Assumpção. Lista infinita.

No que concerne à cultura brasileira, não vai sobrar nada, e assim é mais fácil. No lugar dessas obras que devem ser eliminadas, nada melhor que colocar outras peças literárias, com vocabulário adequado e atitude inofensiva. Como ironizou um pensador em ÉPOCA, só falta transformarem a Emília em uma espécie de Barbie. Clara dos Anjos em uma boneca inofensiva afrodescendente para o público afrodescendente. Não acredito que esta possa ser a nova índole brasileira. A discussão de raça é ela própria racista. Nossa sociedade plural, de mistura étnica, com seu criptorracismo envergonhado, parece estar bem mais avançada que a de outros lugares, como os Estados Unidos, onde o debate racista persiste. Meu temor é que esses educadores da nova geração tentem converter o país em um campo de batalha cultural, dividir a sociedade, infundir o rancor, criar listas... negras (desculpe o termo, caso alguém o considere incorreto). É preciso colocar o assunto em discussão imediatamente. E defender, perdoe-me mais uma vez, brancos de alma negra como Monteiro Lobato.

(Luís Antônio Giron escreve às terças-feiras)

FONTE: http://revistaepoca.globo.com/
em: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI186138-15230,00.html

FOTO: commons.wikimedia.org