quinta-feira, novembro 11, 2010

Os novos rumos da sexualidade feminina

Escolha: Jovens buscam a felicidade e satisfação através de relacionamentos com pessoas do mesmo sexo
Publicado em 25/9/2010, às 17h19
Última atualização em 25/9/2010, às 17h19

Júlio Black

Volta Redonda

Bob Dylan, há mais de 40 anos, vaticinou: "the times they are a-changin'" (os tempos estão mudando). E é o que temos notado de forma vertiginosa nos últimos anos, com a avalanche de informações do mundo pós-moderno, que derruba barreiras comunicacionais, sociais, econômicas, transnacionais e - mesmo que ainda silenciosamente - sexuais.

Essa nova "revolução sexual" vem provocando uma mudança de comportamento ainda mais sensível entre os jovens que, além de descobrir a sexualidade de forma ainda mais precoce, aproveitam para experimentar novas experiências. E as mulheres, em particular, não têm medo de namorar ou "ficar" com outras garotas.

O começo, porém, nem sempre é fácil, como explica J. (que preferiu não se identificar), de 19 anos. Desde cedo ela olhava para as meninas de forma diferente, mas só teve coragem de "ficar" com uma há cerca de dois anos.

- Eu tinha medo muito medo de que isso fosse errado, que me julgassem por aquilo, pelo preconceito das pessoas e, principalmente, de que forma minha família iria encarar isso - disse J., que já conhecia uma amiga que se relacionava com outras jovens, e com quem teve um relacionamento que durou seis meses.

Atualmente, ela vê com naturalidade o fato de namorar homens e mulheres, às vezes simultaneamente.

- Eu gosto dos dois (homens e mulheres) de maneiras diferentes. Nós, mulheres, somos mais carinhosas, cuidadosas, sabemos nos entregar mais a uma paixão, até mesmo no sexo. Nós nos empenhamos em satisfazer não apenas a nós, mas os parceiros e parceiras. Os homens costumam ser brutos, pensando apenas no próprio prazer - criticou.

Descoberta através do coração

E foi uma paixão que fez Laís, que preferiu não revelar a idade, descobrir o desejo por outras meninas.

- Descobri esse desejo aos 15 anos, quando me apaixonei por minha melhor amiga. Eu nunca tinha me preocupado em gostar de alguém, era a mesma época em que comecei a "ficar" com meninos, então tentei fugir disso - explicou, confessando que não era fácil. - Essa minha amiga já era lésbica, mas agia como "se não quisesse ser" e fazia de tudo para que eu não fosse. A gente chegou a brigar porque ela sabia dos meus sentimentos, e eu falava que não. Jurei para mim mesma que não ficaria com nenhuma menina só para "provar" que não gostava.

O relacionamento com a amiga pode não ter ido adiante, mas não demorou para Laís conhecer outras jovens - entre elas a atual namorada, com quem está há um ano e meio. O grande problema, geralmente, é a reação da família.

- Todos sabem na minha família, mas ninguém comenta. É como se fosse um assunto fantasma. Quando contei, minha mãe me mandou para a psicóloga, o que acabou sendo ótimo. Tanto eu quanto ela (a psicóloga) sabíamos que não ia mudar nada. Ir até lá me aliviava. Um dia, minha mãe foi comigo à consulta e deixei claro que não ia mudar, que era assim, e depois disso ela não me ignorou mais, só prefere não tocar no assunto - comentou Laís, que revelou que a reação da família da namorada foi mais complicada, com ela chegando a fugir de casa em uma oportunidade.

- Eu acho que as pessoas mais velhas têm mais dificuldade para aceitar isso. E nossas famílias são do interior, se preocupam com o que os outros vão pensar - acredita.

J. confirma que, para as famílias, é muito complicado entender a situação.

- Sofri um pouco no início, mas minha família me respeita do jeito que sou. Sei que é complicado para um pai que sempre sonhou com o futuro da filha quando ela chega e fala "essa é minha namorada". É um choque - confessou.

Preconceito ainda presente

Apesar de todas as mudanças, J. sabe que o número de pessoas que não entende (ou aceita) a sua opção de namorar homens e mulheres é enorme.

- Acho que a cabeça das pessoas ainda é muito pequena para algumas coisas. Fico chocada quando tem um casal de namoradinhos se esfregando e estou com minha namorada do lado, e olham mais pra gente do que para eles, que estão quase tirando as roupas ali. Isso é horrível, o preconceito em si fecha a mente das pessoas. Amor é amor de qualquer forma - definiu, lembrando de um caso que a deixou marcada e indignada.

- Eu e uma amiga fomos alugar um apartamento para dividir, e costumávamos "ficar" na época. Quando a dona do imóvel viu que éramos lésbicas, ela não quis mais alugar. Hoje eu não ligo mais para isso, quando me olham diferente e me xingam, sou bem decidida quanto ao que quero e sei que esse é o preço que se paga para ser feliz - definiu.

Sem espaço para modismos

Da mesma que acredita existir uma mudança na mentalidade dos jovens, J. também observa que muitas meninas partem para esse "novo mundo" apenas pelo modismo.

- Acho q a cabeça das pessoas está mudando, sim, mas existem algumas influenciadas por "modinhas". Mas tem gente que realmente gosta, que realmente gosta de ficar com uma garota - disse a jovem, que já passou por essa situação. - Já aconteceu algumas vezes de me procurarem para "ficar", e eu não quis por saber que aquilo era só para se mostrar. Não gosto desse tipo de coisa, eu já sofri preconceito, sei como é triste. Essa cambada só acha legal porque vê como a última moda - criticou.

Mudança como sinal da quebra de tradições

A psicóloga Viviane Andrade Pereira acredita que esse novo posicionamento no comportamento sexual dos jovens - e das mulheres em particular - é reflexo das mudanças vividas nos últimos 50 anos.

- A psicologia não explica isso (a mudança), más é evidente que vivemos uma era de mudanças, de quebra de tradições na escola, na igreja e na família, entre outros. Essas tradições não caíram por terra em definitivo, mas se parecem com mortos-vivos. Os relacionamentos, hoje, se baseiam na questão da liberdade, vemos muitos casamentos terminando também. A própria homossexualidade feminina é uma questão de se aproveitar essa liberdade. Não sei se havia tanto antes, mas hoje é mais aberto. Isso tem muito a ver com a busca da felicidade imediata - acredita.

Segundo a psicóloga, a identidade sexual costuma ser definida aos três anos de idade, mas a curiosidade vem dando o tom dos comportamentos, atualmente.

- Hoje você pode ser tudo: alienado, politizado. É um movimento de experimentação, uma forma de se conhecer mais, uma porta que se abre, ainda mais pela questão das relações afetivas. Muitas reclamam dos homens que não as entendem, que não assumem o relacionamento. Elas buscam alguém que as entendam - explicou.

Para Viviane, o homossexualismo feminino é mais aceito pela sociedade que o masculino, que não veria problemas em duas mulheres se relacionarem e depois entrarem em um envolvimento heterossexual.

- Apesar de ser normal a atração pelo mesmo sexo entre os seres humanos, ainda existe a visão de que a mulher, se experimentar, não deixa de ser mulher. Mesmo assim, muitos pacientes ainda se sentem assustados por se sentirem atraídos pelo mesmo sexo. São questões que perpassam os dois universos - explicou.

Segundo Viviane, a internet proporciona que cada um seja o que gostaria de ser no mundo real, em todos os tipos de relacionamento, promovendo o encontro de interesses em comum. Para os jovens, então, que costumam ficar conectados por horas a fio, essa "moda" seria ainda mais assimilável.

- Na adolescência estamos sempre nos identificando, copiando modelos - explicou.

FONTE: Diário do Vale
http://diariodovale.uol.com.br/
EM: http://diariodovale.uol.com.br/noticias/15,28727,Os-novos-rumos-da-sexualidade-feminina.html

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