sábado, outubro 09, 2010

Roubando uma ideia - ou “A perdição da semana”

Este post nasce de uma ideia assumidamente roubada, mas evoco em minha defesa o fato de que esperei bastante para ver se o verdadeiro dono ia usar antes de catar pra mim. No ano passado, a editora do Segundo Caderno, Cláudia Laitano, também conhecida como “a chefe”, lembrou em seu blog o título de um dos romances mais conhecidos de Antônio Carlos Resende: Magra, mas não Muito, as Pernas Sólidas, Morena, como um título que já encerra em si a descrição de uma mulher por quem o narrador se encanta – e, no caso desse livro em particular, se perde. Vocês podem ler o post completo aqui. Cláudia comentava ali o quanto a fascinavam as descrições feitas na literatura por personagens homens para as mulheres com as quais estão obcecados. A Cláudia também sapecou uma descrição de Capitu aos olhos do Bentinho apaixonado e prometeu dar seguimento à série.

Como já passou mais de um ano e o projeto lá no Agora Eu Era ficou só nesse primeiro post, assumo eu a incumbência por aqui, declinando uma vez por semana belas e fascinantes descrições de mulheres magnéticas, exuberantes, misteriosas, por vezes lascivas, mas sempre um ímã para a perdição de um pobre homem menos esperto do que se considera, como os casos dos livros que virão por aí no futuro. Fica o convite a vocês que apontem suas próprias descrições para a seção “Perdição da Semana”.

Como a Cláudia inaugurou o projeto há um ano com Machado de Assis, aqui eu teria que encontrar alguém de igual calibre. E coincidentemente me veio o candidato ideal enquanto folheava a nova edição de O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges, pela Companhia das Letras, para um comentário que queria fazer - e ao qual devo voltar em texto futuro. O segundo conto do livro, Ulrica, é, segundo o próprio Borges, o único exemplo de tratamento do tema amoroso em sua prosa (tema que, não obstante, era comum em sua poesia). Em um congresso na cidade inglesa de York, o intelectual colombiano Javier Otárola encontra a norueguesa Ulrica e vive com ela um romance breve porém intenso que conjuga o fascínio físico com o intelectual. Um caso que o marca profundamente, uma vez que ele narra a história de algum ponto no futuro. E é assim que Javier descreve Ulrica em seu relato, equilibrando a erudição e a paixão - e não escapando, mesmo em se tratando de Borges, de uma generalização que a mim me pareceu ingênua, vocês vão notar qual:

“Foi então que olhei para ela. Uma linha de William Blake fala de moças de suave prata ou de furioso ouro, mas em Ulrica estavam o ouro e a suavidade. Era leve e alta, de traços afilados e olhos cinza. Menos que seu rosto me impressionou seu ar de tranquilo mistério. Sorria com facilidade e o sorriso parecia distanciá-la. Vestia-se de preto, o que é raro nas terras do Norte, que procuram alegrar com cores o ambiente apagado. Falava um inglês nítido e acentuava levemente os erres. Não sou observador; essas coisas fui descobrindo pouco a pouco.“

Ulrica, de Jorge Luis Borges. em O Livro de Areia (Companhia das Letras, 2009, p.18)

por Carlos André Moreira
Nova descrição na semana que vem.

 
FONTE: Zero Hora

http://wp.clicrbs.com.br/

FOTO: watch the sun set

By: Stanislav Volgushev
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