quinta-feira, outubro 14, 2010

Prêmio Nobel

Ivone Marques Dias


O Prêmio Nobel, concedido em Estocolmo pelos reis da Suécia a intelectuais dos mais variados campos, teve este ano como vencedor na literatura, o escritor peruano Mario Vargas Lhosa. Desde García Marquez que já abiscoitou este prêmio há vários anos, Lhosa estava numa infindável lista de espera, até porque a política da Academia tinha por predileção ofertar os prêmios a gente menos conservadora. Lhosa, como sabemos, candidatou-se à presidência do Peru, ocasião em que foi derrotado por Fujimori. Depois disso, desencantou-se com política e dedicou-se somente à literatura.

Acompanho a carreira deste escritor desde o tempo em que se traduziu ao português as primeiras obras. Não há como deixar de reverenciar o criador da magistral obra "Pantaleão e as Visitadoras". Tão deslumbrante quanto, impossível não se identificar com "Tia Júlia e o Escrevinhador", uma picante história de seu romance com uma tia boliviana (bem autobiográfico) e as novelas de rádio que encantavam nossas mães enquanto faziam os trabalhos domésticos. Levados pela senda da boa literatura que Lhosa produzia, vieram "Conversa na Catedral", "A Guerra do Fim do Mundo" (sobre Canudos), a "Madrasta", "Cadernos de Dom Rigoberto", "A Casa Verde", "A Festa do Bode", "Peixe Fora D´Agua", "Travessuras da Menina Má" e tantos outros, não necessariamente nesta ordem. Amei Lhosa como a poucos amo. Sonhei com sua obra o mesmo tanto que sonhava com Gabriel García Marquez (os dois, aliás, não se entendiam bem), mas eu os bebia com uma sofreguidão ímpar, sem desprestigiar outros latino-americanos e sem tirar do pódio o meu querido Guimarães Rosa.

Uma das obras mais emblemáticas de Vargas Lhosa é contudo um livro mais ou menos recente. Chama-se "O Paraíso na Outra Esquina", instigante romance em cujos capítulos alterna a história da Anarquista Proudhoniana Flora Tristán, com a história do pintor Gauguin. Flora e Gauguin tinham em comum o fato de serem avó e neto. Ela, uma avó que abandonou os maus tratos do lar para se tornar ativista política. O neto, que talvez nem sequer a tenha conhecido, abandonou próspera carreira de executivo para, depois de uma passagem traumática com Van Gogh no sul da França, partir em direção às ilhas Marquesas.

Flora carrega o mérito de ter esfregado o dedo no nariz de Marx exigindo respeito. Gauguin, por seu lado, rodeado de mulheres bonitas e de uma natureza luxuriante, escreveu um libreto (Antes e Depois) denunciando o sentido anti-antropológico da evangelização nas ilhas. Lhosa debruça-se frente a dois gigantes que buscam o Paraíso na outra esquina. Não deixou ele de mostrar todavia que ambos já possuíam o Paraíso dentro de si. A Lhosa, que venha o Nobel. Merecido. Aplaudido. Sempre, Mario Vargas Lhosa.

Ivone Marques Dias, doutora em História pela USP, colabora

toda quinta-feira com esta coluna.

FONTE: Mogi News
http://www.moginews.com.br/

IMAGEM: wbyeats.wordpress.com

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