
DAS ANTIGAS
Maria e a poesia
Demitri Túlio
Maria e a poesia
Demitri Túlio
03/11/2007 00:22
SEPARAM-SE JÁ AVÓS E se juntaram. Todo mundo maldou durante um resto de vida. Um dos velhos largados findou logo. Turrão do jeito que era, enfartou e foi fenecendo aos tantinhos. Dando trabalho aos outros. Um dia arroxeou, espumou e morreu de machismo exacerbado. Corno de uma mulher! Ainda mais velha? Rebentou.
O OUTRO PERDEU A VOZ. Remoía e ruminava a estaca que não descia ao estômago. Havia sido governador, senador da República e deputado federal. Era advogado aposentado, um dos que deu pitacos na reforma de 75 do Código Civil. Fincados para as permanências e loas a Clóvis Beviláqua. É... Mesmo que quisesse e tentasse, não conseguia morrer de vexame.
VIVEU AINDA MUITO PARA ouvir, calado, alcovitagens sobre o romance das duas. Pensou em dar cabo a amante da ex-esposa. Ou encomendar uns cabras para se servir dela com força e medonheza. Melhor não. O neto sendo prefeito e a nora senadora, repercutiria horrores. Embolorava-se. Raiva recolhida, três ou quatro vezes ao dia, tinha de ser acudido e corrido às presas à Assistência Municipal.
ENGASGADO COM NADA e uma tosse de guariba que ameaçava abortar o estômago. Cuinchava-se de dar penarosos. Esbugalhava-se, tossia ladrante e piava quase infinito. Cuspia coisa nenhuma, a não ser vergonhas. Menos se esperava, São Braz fazia vomitar lascas de madeira. Devia ser a estaca de jucá que não conseguia ruminar. Desde que as velhas se deram ao desfrute, engasgava-se.
A VERGONHEIRA DO VELHO encontrava guarida na boca dos miúdos. Era comum em qualquer família ter um ou dois diferentes. Criaturas ditas avessas. Homem que não era touro, fêmea que gostava de ferrar gado. Mas logo a esposa? E quase no fim da vida?! Não engolia. Talvez castigo por tantas rameiras e filhos tortos. Tinha afilhado em toda baixa de égua, e nem os mata-burros o impediam de passar com os cascos e colhões.
UMA COISA TAMBÉM a de se dizer. Os homens dessa cidade não cuidavam bem de suas inhas. Lavar-se para servi-los a qualquer hora. Cuidar das crias legítimas e aturar outros paridos e as éguas que os pariram. Não ganhar bons dias, não dormir com boas noites. Nem mimos e nunca ter dado um passeio onde fosse...
DIZ-SE DO AMOR DE UMA MULHER por outra, o semelhante a de uma poesia por sua Maria. De tanto ter com amiga, tardes e tardes de conversas, cheiros de café e pães quentes, apertos de mãos, deu-se o lenir.
FONTE: O POVO Online - CE,Brazil
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