3/10/2007 00:04:00
Querida ovelha negra
Por André Dick
Depois de Poesia da recusa, de Augusto de Campos, as livrarias brasileiras recebem outro volume de traduções de ótimo nível: Ovelha negra: uma antologia de poesia da Escócia do século XX (Editora Lumme, 132 páginas). Com seleção e tradução feitas pela poeta Virna Teixeira, autora de Visita, Distância e do recente Na estação central (com versões para o português de poemas de Edwin Morgan), trata-se de uma obra importante não só pela apresentação de muitos poetas desconhecidos mas por sua qualidade. Afinal, a poesia escocesa nem de longe é debatida no Brasil. (Devemos, no entanto, levar em conta que num país que ignora seus próprios poetas, seria pedir demais que alguém conhecesse nomes como Norman McCraig, Stewart Conn ou Dilys Rose, para destacar alguns.)
A antologia traz dois nomes razoavelmente conhecidos: Edwin Morgan e Ian Hamilton Finlay (este sobretudo por seu contato com os concretistas e por ter traduzido poemas de Edgard Braga; inclusive Virna sugere uma futura antologia com os trabalhos mais baseados no grupo Noigandres). Ambos são bons poetas, mas me parece que a antologia mostra a competência sobretudo dos outros – quase todos obscuros. A apresentação feita pela tradutora ajuda o leitor a se embrenhar nessa selva nova, mostrando alguns momentos vividos pela poesia escocesa desde o século XX. Do mesmo modo, a pequena biografia que antecede as traduções de cada poeta permite ao leitor buscar as obras originais – nem sempre, é claro, facilmente adquiradas.
A meu ver, assim como Poesia da recusa, Ovelha negra não apresenta um poema sequer que não tenha certo interesse e uma tentativa de alcançar uma linguagem elaborada, que, mesmo com traços do cotidiano, não se entrega à obviedade. São admiráveis poemas como “Perfeito”, no qual a simples observação de um crânio de pombo no campo (“Atrás, nascendo do bico, / Havia cúpulas gêmeas como bolhas de osso fino, / Quase transparentes, onde antes o cérebro / fixava o ângulo das asas”) leva a imagens que lembram um pouco o universo minimalista de David Lynch no cinema. Os poemas de Norman McCraig, igualmente, são ótimos, com seu ambiente típico de Edimburgo, capital escocesa. Veja-se, por exemplo, “Noite de novembro, Edimburgo”, de rara beleza na última estrofe: “O mundo é um urso encolhido no seu antro. / Aconchegado e próximo na noite que ressona. / E do lado de fora como crisântemos / A névoa desdobra seu odor amargo” (perceba-se os ecos de DesDObRA em “oDOR” e “amARGO”).
Por sua vez, Edwin Morgan comparece com seu romantismo moderno e de apelo até certo ponto pop: “Deixe a fumaça deitar no escuro. / Até eu escutar a mesma cinza / suspirar entre as flores de bronze / que respirarei, e muito depois da meia-noite, seu último beijo” (em “Um cigarro”) ou “Quantas vezes eu pensarei em você, até / que nossos passos moribundos esqueçam esta luz, esqueçam / que um dia conhecemos o vale feliz, / ou que um dia eu disse, Nós devemos pular em direção ao sol, / e nós pulamos em direção ao sol” (em “De uma varanda da cidade”).
O poeta George Mackay Brown é outra surpresa. Com poemas metalingüísticos, destaca-se, na minha opinião, o paralelístico “O poeta”, excelente, e “Cemitério”, com sua sintaxe embaralhada: “Uma onda verde repleta de peixe / Arrastada distante / Em vagos cardumes poentes puxados no refluxo além / de carga ou horizonte”. A presença do cotidiano se prenuncia igualmente em Alaistar Reid, com seu diálogos de “Escócia” e o excelente “Curiosidade”, com sua trama verbal que lembra uma coleção de provérbios. Este apelo ao coloquial reforça o caráter pop de Stewart Conn, com seus versos ligeiros, pedestres, urbanos: “Era o padre skatista de Raeburn / um homem de Deus, equilibrado / impecavelmente na margem; / ou seu olhar manso / não mais que um fronte decoroso” (em “Debaixo do gelo”). Os diálogos se sucedem em “Caminhada de outono”, mostrando um passeio pelo campus de uma universidade: “Eu prossigo, meditando a velhice. / As folhas se tornam avermelhadas e douradas”. Outro grande poeta do livro é Douglas Dunn, com poemas que lembram um pouco o universo de William Carlos Williams (aliás, uma presença implícita em muitos poetas da antologia): “Mas como estamos, ou como está essa noite, / Despovoada, silenciosa, e onde estamos vivos / Em um amor doméstico, parecendo sós, / As outras vidas desgastadas de árvores e luz do sol; / Esperando ansiosas por uma visita do gato”. Também marca presença o excelente “Poema de amor”: “Eu habito em você e você em mim, / Somos dois jardins assombrados pelo outro. / Às vezes não consigo encontrar você ali, / Há somente o balanço rangendo, / Logo após sua partida, / Ou seu livro favorito atrás do relógio de sol”.
Esse traço de humor – mesclado a uma melancolia amorosa – marcam diversos poetas do livro. Outro elemento é o da distância (palavra cara à produção criativa de Virna Teixeira), presente em “Algo que não me é”, de Liz Lochhead. O poeta Tom Leonard é, por sua vez, o poeta com mais influência da Language Poetry e de poetas como e. e. cummings, Marianne Moore e Sylvia Plath. Vejamos, por exemplo, o elíptico “tocando sua face”: “com aquele / silêncio / / cria / permitindo / / e / confiando / / o permitido; / tudo que / / foi dito / e está dizendo / / esta vez / hálito / / retido / entre nós / / cada vez / familiar / / cada vez / novo”. O poeta Jackie Kay mistura o coloquial – presença de diálogos em seus versos – ao prosaico (a quase narrativa de “Orgulho”), incorrendo na construção bastante estranha, em “Bebê Lázaro”, que lembra Sylvia Plath: “Plantei um arbusto de rosas / Li o livro de Jó / Me amaldiçoei por cavar um buraco para meu bebê / Borrifando cinza da lareira. / / Mais tarde na mesma noite / Ela entrou pela janela / Meu bebê Lázaro / E mamou no meu seio”.
Em matéria de experimentalismo com verso, parece-me que a poeta Dylis Rose é a principal da antologia. Seja na sintaxe contínua de “quionofobia”, seja nas elipses e cortes, com versos para serem lidos em colunas, de “bibliofobia” e “Hipnofobia”, a poeta mostra um domínio de sonoridade e na articulação de imagens ao mesmo tempo estranhas e concretas.
De grande impacto é o romantismo de Richard Price, com seu sentimento de solidão aliado a uma distância amorosa, em “A pesquisa do Big-Bang”, “Atrás de você” e “Eram suas cartas de ontem”, mostrando uma ligação com a obra criativa de Virna: “Eram suas cartas de ontem / flutuando nas profundezas dos anos. / / Era cisne subindo / mas nenhum ser vivo / marcaria um rótulo / nos seus insolentes filhotes”.
Aliás, a antologia Ovelha negra, de modo geral, é, digamos, o próprio auto-retrato da autora/tradutora: uma poesia elaborada, vazada em flashes fotográficos, com referências ao coloquialismo (sem permanecer nos parâmetros, um tanto desgastados, dos que fazem poemas nesse sentido lembrando Manuel Bandeira ou Oswald de Andrade), conhecimento cultural, com referências a lugares, a países, tentando concentrar o máximo no mínimo – sem rotular este trabalho de “minimalista”, que empobrece sua recepção –, todos esses elementos em conjunto com um sentido incômodo de desgaste, de deslocamento, solidão e melancolia numa dose justa, sem aspirar a um tom elevado. Nesses poemas, as mudanças de verso são como mudanças de estações; passa-se do frio para um resquício de sol (mesmo que ainda no inverno), da conversa para o silêncio; de imagens rurais para imagens urbanas, marcando uma espécie de confronto poético mediado pela observação de flores – que trazem um pouco de aroma e colorido a um mundo sombrio, cinzento, apagado, em que o amor é sempre intermediado por meios de cultura. E se caminha: se caminha muito – para algum lugar ou para lugar algum. A tentativa de permanecer acontece em vão – pois todos esses poetas estão sempre de partida, seja para o mundo, seja para a própria casa. Trata-se de um deslocamento que remete a uma tentativa de alcançar a tranqüilidade, num mundo em constante movimento. Como diz Hamilton Finlay, em “Poeta”: “À noite, quando o sono não chega, / Eu conto as ilhas / E suspiro quando venho a Rousay - / Minha querida ovelha negra”.
Por André Dick
Depois de Poesia da recusa, de Augusto de Campos, as livrarias brasileiras recebem outro volume de traduções de ótimo nível: Ovelha negra: uma antologia de poesia da Escócia do século XX (Editora Lumme, 132 páginas). Com seleção e tradução feitas pela poeta Virna Teixeira, autora de Visita, Distância e do recente Na estação central (com versões para o português de poemas de Edwin Morgan), trata-se de uma obra importante não só pela apresentação de muitos poetas desconhecidos mas por sua qualidade. Afinal, a poesia escocesa nem de longe é debatida no Brasil. (Devemos, no entanto, levar em conta que num país que ignora seus próprios poetas, seria pedir demais que alguém conhecesse nomes como Norman McCraig, Stewart Conn ou Dilys Rose, para destacar alguns.)
A antologia traz dois nomes razoavelmente conhecidos: Edwin Morgan e Ian Hamilton Finlay (este sobretudo por seu contato com os concretistas e por ter traduzido poemas de Edgard Braga; inclusive Virna sugere uma futura antologia com os trabalhos mais baseados no grupo Noigandres). Ambos são bons poetas, mas me parece que a antologia mostra a competência sobretudo dos outros – quase todos obscuros. A apresentação feita pela tradutora ajuda o leitor a se embrenhar nessa selva nova, mostrando alguns momentos vividos pela poesia escocesa desde o século XX. Do mesmo modo, a pequena biografia que antecede as traduções de cada poeta permite ao leitor buscar as obras originais – nem sempre, é claro, facilmente adquiradas.
A meu ver, assim como Poesia da recusa, Ovelha negra não apresenta um poema sequer que não tenha certo interesse e uma tentativa de alcançar uma linguagem elaborada, que, mesmo com traços do cotidiano, não se entrega à obviedade. São admiráveis poemas como “Perfeito”, no qual a simples observação de um crânio de pombo no campo (“Atrás, nascendo do bico, / Havia cúpulas gêmeas como bolhas de osso fino, / Quase transparentes, onde antes o cérebro / fixava o ângulo das asas”) leva a imagens que lembram um pouco o universo minimalista de David Lynch no cinema. Os poemas de Norman McCraig, igualmente, são ótimos, com seu ambiente típico de Edimburgo, capital escocesa. Veja-se, por exemplo, “Noite de novembro, Edimburgo”, de rara beleza na última estrofe: “O mundo é um urso encolhido no seu antro. / Aconchegado e próximo na noite que ressona. / E do lado de fora como crisântemos / A névoa desdobra seu odor amargo” (perceba-se os ecos de DesDObRA em “oDOR” e “amARGO”).
Por sua vez, Edwin Morgan comparece com seu romantismo moderno e de apelo até certo ponto pop: “Deixe a fumaça deitar no escuro. / Até eu escutar a mesma cinza / suspirar entre as flores de bronze / que respirarei, e muito depois da meia-noite, seu último beijo” (em “Um cigarro”) ou “Quantas vezes eu pensarei em você, até / que nossos passos moribundos esqueçam esta luz, esqueçam / que um dia conhecemos o vale feliz, / ou que um dia eu disse, Nós devemos pular em direção ao sol, / e nós pulamos em direção ao sol” (em “De uma varanda da cidade”).
O poeta George Mackay Brown é outra surpresa. Com poemas metalingüísticos, destaca-se, na minha opinião, o paralelístico “O poeta”, excelente, e “Cemitério”, com sua sintaxe embaralhada: “Uma onda verde repleta de peixe / Arrastada distante / Em vagos cardumes poentes puxados no refluxo além / de carga ou horizonte”. A presença do cotidiano se prenuncia igualmente em Alaistar Reid, com seu diálogos de “Escócia” e o excelente “Curiosidade”, com sua trama verbal que lembra uma coleção de provérbios. Este apelo ao coloquial reforça o caráter pop de Stewart Conn, com seus versos ligeiros, pedestres, urbanos: “Era o padre skatista de Raeburn / um homem de Deus, equilibrado / impecavelmente na margem; / ou seu olhar manso / não mais que um fronte decoroso” (em “Debaixo do gelo”). Os diálogos se sucedem em “Caminhada de outono”, mostrando um passeio pelo campus de uma universidade: “Eu prossigo, meditando a velhice. / As folhas se tornam avermelhadas e douradas”. Outro grande poeta do livro é Douglas Dunn, com poemas que lembram um pouco o universo de William Carlos Williams (aliás, uma presença implícita em muitos poetas da antologia): “Mas como estamos, ou como está essa noite, / Despovoada, silenciosa, e onde estamos vivos / Em um amor doméstico, parecendo sós, / As outras vidas desgastadas de árvores e luz do sol; / Esperando ansiosas por uma visita do gato”. Também marca presença o excelente “Poema de amor”: “Eu habito em você e você em mim, / Somos dois jardins assombrados pelo outro. / Às vezes não consigo encontrar você ali, / Há somente o balanço rangendo, / Logo após sua partida, / Ou seu livro favorito atrás do relógio de sol”.
Esse traço de humor – mesclado a uma melancolia amorosa – marcam diversos poetas do livro. Outro elemento é o da distância (palavra cara à produção criativa de Virna Teixeira), presente em “Algo que não me é”, de Liz Lochhead. O poeta Tom Leonard é, por sua vez, o poeta com mais influência da Language Poetry e de poetas como e. e. cummings, Marianne Moore e Sylvia Plath. Vejamos, por exemplo, o elíptico “tocando sua face”: “com aquele / silêncio / / cria / permitindo / / e / confiando / / o permitido; / tudo que / / foi dito / e está dizendo / / esta vez / hálito / / retido / entre nós / / cada vez / familiar / / cada vez / novo”. O poeta Jackie Kay mistura o coloquial – presença de diálogos em seus versos – ao prosaico (a quase narrativa de “Orgulho”), incorrendo na construção bastante estranha, em “Bebê Lázaro”, que lembra Sylvia Plath: “Plantei um arbusto de rosas / Li o livro de Jó / Me amaldiçoei por cavar um buraco para meu bebê / Borrifando cinza da lareira. / / Mais tarde na mesma noite / Ela entrou pela janela / Meu bebê Lázaro / E mamou no meu seio”.
Em matéria de experimentalismo com verso, parece-me que a poeta Dylis Rose é a principal da antologia. Seja na sintaxe contínua de “quionofobia”, seja nas elipses e cortes, com versos para serem lidos em colunas, de “bibliofobia” e “Hipnofobia”, a poeta mostra um domínio de sonoridade e na articulação de imagens ao mesmo tempo estranhas e concretas.
De grande impacto é o romantismo de Richard Price, com seu sentimento de solidão aliado a uma distância amorosa, em “A pesquisa do Big-Bang”, “Atrás de você” e “Eram suas cartas de ontem”, mostrando uma ligação com a obra criativa de Virna: “Eram suas cartas de ontem / flutuando nas profundezas dos anos. / / Era cisne subindo / mas nenhum ser vivo / marcaria um rótulo / nos seus insolentes filhotes”.
Aliás, a antologia Ovelha negra, de modo geral, é, digamos, o próprio auto-retrato da autora/tradutora: uma poesia elaborada, vazada em flashes fotográficos, com referências ao coloquialismo (sem permanecer nos parâmetros, um tanto desgastados, dos que fazem poemas nesse sentido lembrando Manuel Bandeira ou Oswald de Andrade), conhecimento cultural, com referências a lugares, a países, tentando concentrar o máximo no mínimo – sem rotular este trabalho de “minimalista”, que empobrece sua recepção –, todos esses elementos em conjunto com um sentido incômodo de desgaste, de deslocamento, solidão e melancolia numa dose justa, sem aspirar a um tom elevado. Nesses poemas, as mudanças de verso são como mudanças de estações; passa-se do frio para um resquício de sol (mesmo que ainda no inverno), da conversa para o silêncio; de imagens rurais para imagens urbanas, marcando uma espécie de confronto poético mediado pela observação de flores – que trazem um pouco de aroma e colorido a um mundo sombrio, cinzento, apagado, em que o amor é sempre intermediado por meios de cultura. E se caminha: se caminha muito – para algum lugar ou para lugar algum. A tentativa de permanecer acontece em vão – pois todos esses poetas estão sempre de partida, seja para o mundo, seja para a própria casa. Trata-se de um deslocamento que remete a uma tentativa de alcançar a tranqüilidade, num mundo em constante movimento. Como diz Hamilton Finlay, em “Poeta”: “À noite, quando o sono não chega, / Eu conto as ilhas / E suspiro quando venho a Rousay - / Minha querida ovelha negra”.
André Dick, doutor em Literatura Comparada pela UFRGS, é poeta e ensaísta, autor de Grafias (Instituto Estadual do Livro/CORAG) e Papéis de parede (FunalfaFONTE: CRONOPIOS + BITNIKS + TV CRONÓPIOS
Edições/7Letras).
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