segunda-feira, outubro 08, 2007

algo que aprendi ... domingos de souza nogueira neto

algo que aprendi ...
domingos de souza nogueira neto
Descobri há alguns meses, que vivo um tipo de doença (neuro química se não me engano), chamado "transtorno bipolar".
Desde a infância. Crises de choro, violência, apatias e ausências, distúrbios de atenção, psicomotores, etc.. Fui, por assim dizer, um estrangeiro no mundo da infância, e tinha muito medo de todos.
A poesia me fazia dar voltas sem fim, transtornava meus sentimentos, e me provocava dor, euforia, com crises de choro e riso, imaginem...
Diferente, em um mundo perverso com os desiguais, vivia as turras com todos, era uma presença incomoda e apanhava quase que diariamente, sem saber porque.
Era bondoso, como são os poetas, mas viajava entre os extremos dos sentimentos em vertigens, que me enlouqueciam e apavoravam. Tudo, em torno de mim, parecia movediço.
Escrevia devagar, por que cada palavra me remetia para uma nova ausência. Para depois perseguir o atraso trocando letras, palavras, silabas, escrevendo linhas na transversal, como se fosse um disléxico.
Um dia, no Colégio Nossa Senhora da Penha, onde estudava, se iniciou uma atividade de Judô. Me animei no sonho de apanhar menos. Mas não acreditei que meu velho e saudoso pai - que certamente já não sabia o que fazer por mim - fosse permitir o aumento na minha cota de hematomas. Mas ele assentiu.
E foi assim, que dei o primeiro passo para descer do tobogã tremendo da minha alma para percorrer o ju (suavidade) + (caminho). Não tenho dúvida de que este aparente paradoxo salvou minha vida. A arte marcial pacificou a alma possuída pela poesia.
Tive alguns grandes professores em Vila Velha/ES, José de Barros e Adelino; em Ipatinga/MG, Takamatsu, Kanegani, Suigi Suma e Oswaldo Ishikawa; Em Belo Horizonte/MG, Mitsugo Iwafume, Seya Hirashima e Paulo de Souza. E nestas montanhas de Minas um professor que tenho em conta de amigo e irmão Geraldo Brandão de Oliveira.
Hoje com quase 50 (cinquenta) anos, nunca fui um grande atleta. Mas fui forte o bastante para viver sem pânico 40 (quarenta) anos, dos meus quase meio século de existência. E isto, acreditem, foi um grande salto.
Participei de treinos, muito bem algumas vezes, de competições, quase sempre com certa desatenção e apatia. Mas me tornei mais hábil fisicamente, um advogado relativamente capaz, e um ser humano sociável e apto a prover o próprio sustento.
O diagnóstico do transtorno bipolar não me surpreendeu, de certa forma foi agradável saber que meu fantasma tem um nome. E a medicação veio ao tempo em que meu corpo reivindicava um justo descanso. Aliás, as doenças quase sempre são mais problemáticas que os remédios.
Mas, são apenas histórias, às vésperas de um torneio de judô para atletas de meia idade -másters é a nomenclatura mais elegante - perguntei a um colega - grande campeão do passado - se não iria competir. E ele, sem nenhuma afetação, me disse que preferia manter a memória de seus melhores momentos.
A poesia sempre me disse da interpretação, dos diversos sentidos e sentimentos, todos válidos e fecundos. Mas não pude deixar de pensar, que de tudo que aprendi neste longo e suave caminho (judô), o mais importante foi que nenhuma queda seria forte o bastante para me impedir de levantar e continuar seguindo. O medo foi, assim, aliviado de sentido, por certa leveza.
Adversários me deram quedas, mas levantei; a bipolaridade me deu tombos horríveis, me imobilizou e subjugou, muitas vezes, mas levantei.
E hoje volto a poesia de sentimentos poderosos, para apresentá-la aos gentis praticantes de judô, para que se mirem nela, sem medo, e vivam em paz no atordoante redemoinho da alma humana, cientes de que, serão arremessados, mas levantarão.

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