
Meu eu bipolar
Domingos de Souza Nogueira Neto*
Meu nome é Domingos, sou advogado e fui informado pela minha psiquiatra que tenho uma doença chamada transtorno bipolar. Nada que tenha aparecido só agora.
A bipolaridade conhecida há mais tempo pelo nome meio fúnebre de psicose maníaco-depressiva me acompanha desde a infância.
É longo o rol de sintomas e pouco importante para o propósito destas linhas. Mas, em síntese – e no meu caso – se dá por crises de euforia, manias por coisas e temas, alternadas com crises de fúria inexplicáveis, desproporcionais e lágrimas, injustificadas, que freqüentemente me puseram ridículo em uma sociedade tão desatenta às desigualdades.
Nada obstante vou indo. Jamais, em toda a minha vida, consegui assistir a uma aula inteira, vagueei estes períodos ao léu, e não saberia dizer por onde. Presente, mas ausente voltei a tempo de ouvir deboches, e de aprender, o suficiente para me formar advogado.
Tenho que dizer que sou um bom advogado, mas que no período incógnito da doença, cheguei a pensar que era ótimo. Escrevi dois livros, que tratam de questões "quase jurídicas" que me afligiam na época, mas que apresentam – no que não foi dito – os traços fortes da companheira bipolaridade.
Tive uma grande família, uma mãe, que se fosse personagens de “romances de literatura noir” poderia ser chamada “A Dama Bipolar”, exemplar perfeito da nossa espécie. Um pai bom e amoroso, que magoei até o limite em que poderia magoar um pai, sem ouvir nada em revide, que não palavras de afeto e encorajamento. E um irmão, imagem viva do meu pai morto, que não precisa de desculpas para me perdoar por tudo.
Hoje, questionado por uma Dirigente Sindical no meu local de trabalho - especificamente sobre um lapso de memória causado por aspectos da bipolaridade - (que não chegaram a prejudicar ninguém, felizmente), ouvi uma expressão no sentido de que: “Eu não deveria me esconder atrás de minha bipolaridade”. Não sei porque. Pode ser da doença, pode ser que não, aquilo me causou uma dor aguda, destas que sobem fininhas pela coluna, até chegarem nos olhos onde provocam uma lágrima inoportuna.
Eu me orgulho quando vejo os deficientes competindo. A superação tremenda da dor, do preconceito e da infelicidade na qual nós teimamos em considera-los, nada obstante os lugares que alcançam e a prova de que podem.
Penso nos negros que espancamos tanto, ali, altivamente, cobrando as nossas dívidas. E existem as dívidas!
Lembro-me das mulheres, das quais abusamos por séculos a fio, desafiando a existência de uma masculinidade que não se iluda pela necessidade da sujeição.
Maior do que tudo isto! O “fórum antimanicomial”, que com guerreiros loucos e enlouquecedores, rompem com o dogma cartesiano e bradam: “eu não penso, mas existo”. Trazendo o que todos devíamos saber, que há a diferença, mas não justificativa para a exclusão.
Sobre a bipolaridade que posso dizer. É um transtorno. Não sei hoje o que teria feito sem ela, por que nunca vivi sem ela, mas talvez logo mais, medicado, possa vir a dizer alguma coisa neste sentido.
Sei que magoei um número enorme de pessoas, e daria qualquer coisa para poder desfazer isto.
Sei também que fui pisado e repisado por pessoas que me achavam esquisito, que me ridicularizavam, aos gritos, e que queria apagar isto também.
Vou além. Se houvesse uma dose de lítio que me pudesse fazer esquecer, algumas lembranças que me assombram, a tomaria tranqüilo. E que eu compreendo hoje os que seguiram para a morte para esquecer esta dor.
Sobre "esconder-me por traz disto". Desculpe-me companheira. Entendo o seu ponto, mas não tenho onde me esconder.
(*) O Autor é advogado de grupos sociais e populares, concentrando suas atividades no movimento sindical, escreveu os livros “Servidor Público, Neoliberalismo e Estado Democrático de Direito” e “O Sindicato Metamórfico”. PS: Fica entre nós.
Domingos de Souza Nogueira Neto*
Meu nome é Domingos, sou advogado e fui informado pela minha psiquiatra que tenho uma doença chamada transtorno bipolar. Nada que tenha aparecido só agora.
A bipolaridade conhecida há mais tempo pelo nome meio fúnebre de psicose maníaco-depressiva me acompanha desde a infância.
É longo o rol de sintomas e pouco importante para o propósito destas linhas. Mas, em síntese – e no meu caso – se dá por crises de euforia, manias por coisas e temas, alternadas com crises de fúria inexplicáveis, desproporcionais e lágrimas, injustificadas, que freqüentemente me puseram ridículo em uma sociedade tão desatenta às desigualdades.
Nada obstante vou indo. Jamais, em toda a minha vida, consegui assistir a uma aula inteira, vagueei estes períodos ao léu, e não saberia dizer por onde. Presente, mas ausente voltei a tempo de ouvir deboches, e de aprender, o suficiente para me formar advogado.
Tenho que dizer que sou um bom advogado, mas que no período incógnito da doença, cheguei a pensar que era ótimo. Escrevi dois livros, que tratam de questões "quase jurídicas" que me afligiam na época, mas que apresentam – no que não foi dito – os traços fortes da companheira bipolaridade.
Tive uma grande família, uma mãe, que se fosse personagens de “romances de literatura noir” poderia ser chamada “A Dama Bipolar”, exemplar perfeito da nossa espécie. Um pai bom e amoroso, que magoei até o limite em que poderia magoar um pai, sem ouvir nada em revide, que não palavras de afeto e encorajamento. E um irmão, imagem viva do meu pai morto, que não precisa de desculpas para me perdoar por tudo.
Hoje, questionado por uma Dirigente Sindical no meu local de trabalho - especificamente sobre um lapso de memória causado por aspectos da bipolaridade - (que não chegaram a prejudicar ninguém, felizmente), ouvi uma expressão no sentido de que: “Eu não deveria me esconder atrás de minha bipolaridade”. Não sei porque. Pode ser da doença, pode ser que não, aquilo me causou uma dor aguda, destas que sobem fininhas pela coluna, até chegarem nos olhos onde provocam uma lágrima inoportuna.
Eu me orgulho quando vejo os deficientes competindo. A superação tremenda da dor, do preconceito e da infelicidade na qual nós teimamos em considera-los, nada obstante os lugares que alcançam e a prova de que podem.
Penso nos negros que espancamos tanto, ali, altivamente, cobrando as nossas dívidas. E existem as dívidas!
Lembro-me das mulheres, das quais abusamos por séculos a fio, desafiando a existência de uma masculinidade que não se iluda pela necessidade da sujeição.
Maior do que tudo isto! O “fórum antimanicomial”, que com guerreiros loucos e enlouquecedores, rompem com o dogma cartesiano e bradam: “eu não penso, mas existo”. Trazendo o que todos devíamos saber, que há a diferença, mas não justificativa para a exclusão.
Sobre a bipolaridade que posso dizer. É um transtorno. Não sei hoje o que teria feito sem ela, por que nunca vivi sem ela, mas talvez logo mais, medicado, possa vir a dizer alguma coisa neste sentido.
Sei que magoei um número enorme de pessoas, e daria qualquer coisa para poder desfazer isto.
Sei também que fui pisado e repisado por pessoas que me achavam esquisito, que me ridicularizavam, aos gritos, e que queria apagar isto também.
Vou além. Se houvesse uma dose de lítio que me pudesse fazer esquecer, algumas lembranças que me assombram, a tomaria tranqüilo. E que eu compreendo hoje os que seguiram para a morte para esquecer esta dor.
Sobre "esconder-me por traz disto". Desculpe-me companheira. Entendo o seu ponto, mas não tenho onde me esconder.
(*) O Autor é advogado de grupos sociais e populares, concentrando suas atividades no movimento sindical, escreveu os livros “Servidor Público, Neoliberalismo e Estado Democrático de Direito” e “O Sindicato Metamórfico”. PS: Fica entre nós.
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