domingo, julho 09, 2006

Leitura - Adélia Prado


LEITURA

Adélia Prado
Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras.
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.

2 comentários:

  1. Anônimo8:57 PM

    A leitura que o poema se refere seria a leitura de um sonho? Na disciplina de Literatura contemporanea da Lingua Pòrtuguesa falei isso na analise do poema, e a professora achou que eu estava viajando na maionese! O que você acham?

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  2. Concordo. E digo mais, saboreei este poema da mesma forma que me vem ideias acerca da música de titãs (comida); a leitura é uma fome, partimos da necessidade de preenchimento para praticá-la. Infelizmente, muitos de nossos professores acadêmicos, apesar de saber o quão vasto é a palavra, se perdem em cientificismo barato. Você "Anônimo" está no caminho certo, devemos sentir a palavra e deixá-la livre. Abraço!

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