quinta-feira, maio 25, 2006

O gato de Guima por por Flávio Viegas Amoreira





"...A tarefa do poeta é dar à luz o poema num estado tão ileso quanto possível; se o poema estiver vivo, fica igualmente ansioso de livrar-se do poeta e grita para ser desatado de suas memórias e associações privadas, de seu desejo de auto-expressão, e de todos os outros cordões umbilicais e tubos de alimentação de seu ego. ..." Northrop Frye in Cronocópios
27/4/2006 16:17:00O

gato de Guima

Por Flávio Viegas Amoreira

“Pierre Ennui, era filho do cônsul nessa galheta concavada do Oceano: o porto era puro vinagre, ferruginoso: olhando um passo descortinava do seu edifício sobreondas imensitude que parecia levar até Estrasburgo sem escalas. Tornou à Renânia: escreve-mos um livro de e-mails, isso é carta, minhas afeições são impressas na pasta meus documentos arial black e gozam da perenitude dum site, esse diário que vai além dos blogs. Sites são horas, blogs segundam. Te digo hoje Pierre: lembra quando pensavas que o felpudo gato de Guimarães Rosa soprava-lhe neologismos caídos da mais pura metafísica? Aquele homem de borboleta alí acariciando todas as letras alfabéticas e o gato à fiar conjecturas sobre suas propriedades rumorejantes. Meu gato são os contos do velho Guima, por eles assalto os significados que refestelam-se em outro patamar de minha prateleira. Meu sertão é o Mar donde espreito veredas; sabe assim Pierre, teu Ennui traduz-se angústia, tédio da inenpresença. Dou-te sentencioso Pascal e volta-meia responde-me Montaigne: gosto de ti feito Burrinho Pêdres. Tuda intitulação merece a fantasia existente dum dia: nesse que te escrevo: roletes, cavilhas, caxinguelês do banhado, o roçado aqui mede-se em milhas do manguezal às lingadas de sacarias de costas estivadoras. Bandeiras líberas são estandartes dos marinheiros em comitiva outros-mundos rocinados. Ouvi o pianista Michael Kieran Harvey, no quarto sou cosmopolita feito a beirada que diviso daquela ilha equidistante leito donde o farol da Moela sinaliza. O Farol remete à terra firme, flutua no próprio sem sentido navegante. Pois entre um cargueiro e outro veleiro remeto aquela vez vímos ‘’Liliom’’ de Fritz Lang. Morar no porto pousando entre a memória e os lugares que assentam tempos aprisionáveis.

Tenho um olho no gato de Guima, o palavrio e outro no peixe: retiro-lhe as escamas da discórdia e entrego armadura que compõe ele peixe embaralhado. Aos 40 anos já perfilamos nossa linha de fantasmas sobre horizonte, o futuro já entoa espantamentos: toda alma penada libertina se insinua eivada de maus humores canhestra sobre nossas pequenezas de costumes que iludem verdades. Habituamos a farsa se não deparamos o sonho em sua plenitude. Limitamo-nos despudorados: não pressentir a Eternidade é uma vergonha da sensibilidade. Os anjos nos assaltam menos que os fantasmas por temer nosso vício de tangências: com esses dialogamos entre arroubos e hesitações; visionários seremos então brevemente se passarmos os fantasmas nas asas de anjos que voam em cardumes assim surfando: é crítico o estado das ondas que badalaram no remeto. A sílaba morre uma vez em mim, só em mim: essa literatura é suicídio gentil, sacrifício generoso de milhares que falham no atento zumbido: a consciência é só aparência dum enxame de cognoscências. Sei que nesse quarto andar estou altura da palmeira, as rochas se desgastam para os lados da península e uma praia milésima engatinha para novos paquidermes evolutivos.

Um só fantasma basta por ser privilégio da maturidade, alguns outros sobrevivem por teima da fortuna de nossa juventude. Crescemos naquela pandemia quando pretendia ler Guimarães Rosa contigo: o desenlace ofereceu-me uma legião de espectros que rotulo postumamente na escritura. Refiro-me já ao rock progressivo, um carece técno de óculos esferográficos: Richie Hawtin dialogado em Mozart. Toda arte dialoga, a literatura nos fala desse diálogo, ela é louca que fala primeiro sozinho, precisa-se ao dizer. Obtive técnicas, um metaesquema quadriculado em guache por Hélio Oiticica: dou ares à realidade presentificada e ouço o juízo desses fantasmas como quem tem santinhos da guarda na carteira.

Meu conto chamar-se-ia Samuel Rawett: ter lido ‘’Guinguinho’’ me desabriu, nos revela-mos aos poucos com mais inteireza para quem amamos; nessa cruzada de cavalgadura da brigada ligeira dito ‘’ tempo atual’’ espanta desinteresse pela forma das coisas: todos correm atrás da brevidade que dão nome estranhíssimo significado; nada presta além dessa hora onde tiro a casca e guardo-a zelosamente través a polpa que inda ressente-se da antiga tessitura. Pierre Ennui: nada vai além da hora do seu cansaço: nunca canso de ti e dessa prosódia refestelada. Os fantasmas não nos visitarão posto que os anjos digitam as normas dessas linhas. Volto ler ‘’Sagarana’’, o mestre viveu por aí nesse Hamburgo donde podes vir me visitar navegando maquinalmente.

Contos são sem matemática: escreve os teus sem operação de soma. O gato azul transmigrou para ornamento etrusco: assopra magicalidades noutra supercorda. É um barato atordoante enviar-te um arremedo do Universo: tudo aqui é o que esperamos dessa nada qualificado. Vou dar corda no relógio: recomendo acerte o fuso. Treina terminologia nossa íntima: escreve quando der nos nervos. Abraço, teu Frederico Paciência. O conto é o caso nosso.”

Flávio Viegas Amoreira é poeta e contista.

Nenhum comentário:

Postar um comentário