sábado, julho 30, 2011

Com o anteparo da memória

Rubem Fonseca reafirma a força e a pulsação de sua narrativa em dois lançamentos

Alcides Villaça - O Estado de S.Paulo

Em tempos de celebração de uma inglória "crise romanesca" e de rejeição a tudo que cheire realismo, Rubem Fonseca continua impávido na arte difícil da narrativa fluente que puxa o leitor pelo ritmo das frases, pela articulação das ações, pelos lances súbitos das personagens. A naturalidade com que isso se dá indica o domínio do autor sobre matrizes criativas: o bom roteirista, que ele também é, sabe o que fazer para manter vivas a pulsação de um texto e a atenção do leitor. Seus críticos sentem como é difícil (parecendo, às vezes, impossível) separar o joio do trigo no conjunto dessa obra, divisar algum critério para propor o que nela seja arte grande ou menor. Seus dois novos livros, Axilas e Outras Histórias Indecorosas (contos) e José (miscelânea autobiográfica), lançados simultaneamente, nos levam uma vez mais a essas discussões.

Os contos de Axilas deixam ver que também a violência, quando repetida, vira farsa e caricatura. Sendo assim, como é que as crueldades reiteradas em extravagantes encenações continuam imantando nosso interesse, nem que seja pelo tempo que dure a viagem de ônibus? E já se terá reconhecido a contento, na ficção de Rubem Fonseca, a singular supremacia da violência do exibicionismo culto sobre a violência exposta dos gestos e dos fatos? Ao apresentar como indecorosas suas histórias de Axilas, o autor nos provoca com um inimaginável decoro, que seria a outra face natural e imediata da barbárie, por exemplo, das mutilações físicas, apontando assim para o que resulta propriamente violento em sua ficção: o parâmetro ostensivo que as alusões mais sofisticadas da arte literária projetam sobre os corpos deformados, grotescos ou mortos. Dito de outro modo: seu modo ficcional promove a passagem fluente da barbárie criminosa para as filigranas sofisticadas do espírito e da cultura, com direito a remissões, citações e apoio no prestígio de incontáveis leituras: Poe, Shakespeare, Whitman, Zweig... Continua, em Axilas, a equiparação entre a precisão da faca, que mutila e mata, e a da palavra, que pontua e define.

Bem por isso, há nesses contos uma caprichosa tendência para valorizar o dicionário (com entrada de verbetes na narrativa), pontuar o peso poético ou antipoético de uma palavra, considerar o prazer do jogo das palavras cruzadas. Esse senso linguístico é também detetivesco e amoroso: o narrador confessa que "a investigação criminal tem que ser, portanto, socrática", e que no fundo, no fundo, ele "queria escrever livros de poesia". Quem já leu seus primeiros livros de contos não esquecerá que o peso do poético e do patético se insinua por exemplo, entre boxeadores e halterofilistas. Nos contos de Axilas, o assassínio corretivo de quem já fora um "bebezinho lindo", a sangrenta tortura de pés nos sapatos em que não cabem, a amputação do dedo mínimo como prova de amor dão notícias das selvagerias do mundo, que se naturalizam na narração. Parece que o autor está nos lembrando que, na história da humanidade, cada época ou cada situação encontram sua própria forma de naturalizar e representar a violência.

Em José, Rubem Fonseca compôs o livro que quis (os primeiros capítulos circularam em site do autor), sem se importar com gênero ou unidade interna: ameaça a ficção, encaminha depoimentos autobiográficos, vira crônica sociológica, dedica um capítulo completo à história do carnaval carioca e conclui, sugestivamente, que "a maior de todas as criações humanas é a cidade". O narrador desses textos surge como quem aqui e ali toma depoimentos do veterano autor José Rubem Fonseca, que se ampara na memória, que investiga a memória, que conceitua a memória: "A memória trai a todos, é uma aliada do esquecimento, é uma aliada da morte" (citando Brodsky). A violência sai de cena (pasmemos) para dar lugar a uma difusa poesia que recupera nostalgicamente a rica história da sua família, os prazeres da cidade antiga e mais inocente ("praia das Virtudes", "águas não poluídas da Baía de Guanabara"), do cinema, da literatura desde sempre devorada e exercitada. Há, aqui e ali, claras referências aos procedimentos do autor Rubem Fonseca ("A melhor inspiração do escritor é sempre encontrada nos livros") e um paralelismo com Isaac Singer: "Ao escrever sua autobiografia, parou nos trinta anos. José resolveu parar um pouco mais cedo". E é pena que tenha parado, porque o leitor talvez quisesse mais: em José, a arte caprichosa do escritor surge livre de ressentimentos vingativos ou induções ao choque; desliza tanto na superfície como em águas mais calorosas da memória, ainda que ele acredite que "a história verdadeira da vida de uma pessoa jamais poderá ser escrita". História verdadeira? O escritor prende nosso interesse com as verdades que sabe e quer produzir. A novidade de José é que, desta vez, a figura mesma do autor está muito próxima de nós, quase afastando o narrador com o cotovelo para refletir no espelho sua mais viva e pessoal imagem.

ALCIDES VILLAÇA É PROFESSOR DE LITERATURA BRASILEIRA NA USP 

FONTE: http://www.estadao.com.br/
IMAGEM: http://www.opperaa.com/

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