segunda-feira, outubro 18, 2010

Contra o excesso do verbo

Máquina do tempo. Javier, no gabinete de trabalho: 'Há minutos que duram a vida inteira e minha nostalgia pessoal não tem nada a ver com isso', afirma, em sintonia com o seu cronômetro antiproustiano
O premiado escritor Javier Marías, de quem está saindo no Brasil Veneno, Sombra e Adeus, explica a razão de sua resistência ao avanço da sociedade digital, que ''coloca em risco a liberdade individual''

02 de outubro de 2010 / 0h 00

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo

Décimo romance de Javier Marías, considerado pela crítica o maior escritor espanhol vivo, Veneno, Sombra e Adeus, último livro da trilogia Seu Rosto Amanhã, é um thriller, classificado por resenhistas como "metafísico" - por falta de adjetivo melhor. A trilogia completa, disponível no Brasil em volumes separados, foi publicada na Espanha, em 2009, num único volume com quase 1.600 páginas. Seu epílogo é tanto uma obra de espionagem - sobre um ex-professor de Oxford que entra para o Serviço Secreto britânico para estudar o rosto das pessoas - como um ensaio filosófico sobre a traição e a nefasta interferência do Estado na vida dos indivíduos. Sobre ele, Javier Marías, da Real Academia Espanhola e filho do filósofo Julián Marías (1914-2005), falou ao Sabático por fax. Mantendo cautelosa distância do computador e do celular, Marías ainda escreve à máquina e revisa o texto com riscos, sublinhando frases para reforçar palavras ou expressões.

Nascido em 1951, Marías acabou de completar 59 anos no dia 20. Aos 23 anos já estava às voltas com uma tradução de Thomas Hardy e, aos 27, assumiu a tarefa de traduzir para o espanhol a obra mais famosa de seu escritor inglês favorito, Laurence Sterne, A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy (1713-1768). Desde então, já traduziu inúmeras obras-primas de Conrad, Faulkner e Nabokov, ganhando um prêmio pela versão de Sterne. Seus livros foram igualmente premiados na Espanha e fora dela (França, Itália, Irlanda). Em sua entrevista ao Sabático, Javier Marías assume que a construção do volume final da trilogia Seu Rosto Amanhã deve muito a Sterne.

"Sterne confessou ter aprendido muito com Cervantes e, assim, minha trilogia, em certo sentido, talvez seja mais cervantina que joyciana", diz Marías sobre uma possível referência a Ulysses no segundo livro da trilogia, por causa do tempo em que se passa a história - uma só noite. Avesso ao realismo literário, ele diz que não gosta de Ulysses, a "coroação do realismo, mais que um romance vanguardista". Marías prefere Os Sertões, de Euclides da Cunha, nascido como uma série de reportagens sobre Canudos para o Estado. "É um dos melhores livros que li, muito superior a Ulysses".

Não que Marías tenha sido seduzido pelo realismo de Euclides. Seu modo de narrar a campanha de Canudos, garante, importa mais. Aliás, o foco do terceiro volume da trilogia é mais a narração como forma de ficção. Inventa-se uma história um tanto absurda sobre um ex-professor com talento de James Bond (mencionando, inclusive, seu criador, Ian Fleming) e o leitor fica confuso sem saber se está diante de uma história real - em que apenas os nomes são fictícios - ou se lê uma obra de ficção tão boa que a realidade não importa mais. "Seria inexato dizer que Seu Rosto Amanhã é um romance de ação só por se passar num período de tempo tão curto", diz ele. "Às vezes resumimos vários anos em um momento, numa conversa, mas o tempo verdadeiro e significativo é o que me interessa." Em outras palavras, Marías inventa um tempo "que na vida real não tem tempo de existir". Em sua literatura, o tempo cronológico não existe. "Há minutos que duram uma vida inteira e minha nostalgia pessoal não tem nada a ver com isso", observa, assumindo seu cronômetro antiproustiano.

Marías não vive do passado, apesar de não usar computador ou celular. O fato é que desconfia do excesso de informação. "É algo inegável que os Estados utilizam a tecnologia para controlar, vigiar e acumular dados sobre os cidadãos, para mim uma catástrofe", observa, defendendo que "os seres humanos devem poder ocultar partes de si mesmos, devem ter segredos, subtrair-se do olho insaciável do Estado". As democracias, conclui, estão cada vez mais parecidas com Estados totalitários, disfarçando-se de protetoras dos cidadãos que, ingenuamente, aceitam essa "intrusão abusiva" do Estado. Na conclusão de sua trilogia, o professor/agente secreto se dá conta tardiamente do mal que causou a milhares de pessoas ao assumir o papel de colaborador secreto do Estado. "Creio que há razões de sobra para ser pessimista ao ver como a tecnologia se aperfeiçoa para enxergar através das paredes das casas."

Outro aspecto abordado no livro é a tendência irresistível de trair o próximo. "Bem, não creio que o pobre Caim, já tão distante no tempo, tenha algo a ver com isso, embora a traição haja existido sempre, mas, independentemente de ser ou não religioso, até pouco tempo atrás as pessoas tinham claro o que não se devia fazer - e isso inclui delinquentes e criminosos." Agora, comenta Marías, "parece que a fronteira entre o que se pode ou não fazer é cada vez menos nítida". O escritor refere-se a pessoas que denunciam colegas de trabalho "e esse tipo de coisas", o que teria uma relação com o que disse anteriormente, ou seja, que "as pessoas aceitam cada vez mais serem vigiadas e controladas, ainda que seja porque desse modo estarão vigiando e controlando também os outros".

No romance que está escrevendo - e espera terminar "em um par de meses" -, Marías revela que segue o caminho inverso de Seu Rosto Amanhã. Não vai tratar da dimensão "pública" ou "política" que existe na trilogia. "Ainda não estou seguro do que venho fazendo, pois nunca sei bem o que escrevi até terminar e fazer uma releitura dos meus romances, que para mim são seres muito vivos e sujeitos a mudanças enquanto os escrevo, talvez para compensar sua imobilidade até o fim dos tempos."

Marías admite não ter pudor em misturar personagens fictícios - caso de Turpa, de Seu Rosto Amanhã - e pessoas reais como sir Peter Russell, professor de Oxford, e o próprio pai, Julián Marias. "Mas nunca me atreveria a escrever filosofia", acrescenta. "O que há em meus romances é um pensar sobre a literatura, ou melhor, pensar literariamente o mundo, o que se pratica pouco nos últimos tempos, de modo geral, embora tenha ilustres precedentes: Shakespeare, Proust, Montaigne."

FONTE: Estadão
http://www.estadao.com.br/

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