26/4/2008
Vale a pena ler de novo: Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade (Itabira, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987) foi um poeta, contista e cronista brasileiro.
Vale a pena ler de novo: Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade (Itabira, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987) foi um poeta, contista e cronista brasileiro.
Nasceu em uma cidade cuja memória viria a permear parte de sua obra. Posteriormente, foi estudar em Belo Horizonte e Nova Friburgo. Formado em farmácia, com Emílio Moura e outros companheiros, fundou "A Revista", para divulgar o modernismo no Brasil. Durante a maior parte da vida foi funcionário público, embora tenha começado a escrever cedo e prosseguido até seu falecimento, que se deu em 1987 no Rio de Janeiro, doze dias após a morte de sua única filha, a escritora Maria Julieta Drummond de Andrade. Além de poesia, produziu livros infantis, contos e crônicas.
O “Vale a pena ler de novo” reapresenta hoje “A Máquina do Mundo”, escolhido como o melhor poema brasileiro de todos os tempos por um grupo de escritores e críticos, a pedido do caderno “Mais” da “Folha de S. Paulo”, edição de 2/1/2000.
Publicado originalmente no livro “Claro Enigma”, o texto foi extraído do livro “Nova Reunião”, José Olympio Editora.
E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino roucos
e misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta, sem emitir um som que fosse impuro nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos. Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos, convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas, assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha, a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo, olha, repara, ausculta: essa riquezas
obrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética, essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.” As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo, e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade: e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa, tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana. Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio, a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra; como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos, passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo, baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho. A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida, se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
A seção Vale a pena ler de novo republica aos sábados textos de qualidade, de interesse ou históricos que foram veiculados pela imprensa. É uma seção dedicada à rica memória do jornalismo. FONTE: Bom Dia Rio Preto - Brazil
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