sábado, abril 26, 2008

Quando as águas banham as letras

Quando as águas banham as letras
Marcelo Libânio - Colunista do Portal Uai
As comemorações que se seguiram nos quatro cantos do Planeta por ocasião do Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, enfocavam a importância e os principais usos dos recursos hídricos. Comumente reporta-se aos sete usos principais e à qualidade aos mesmos associada: abastecimento, recreação e paisagismo, navegação, irrigação, piscicultura, geração de energia e diluição de despejos. Ao refletir sobre o assunto aflorou-me a constatação de um dos seus usos que não tem sido objeto de discussões, mesas-redondas ou eventos de naturezas várias. Trata-se dos momentos em que a pena de alguns escritores pousou sobre as águas. Sem pretender realizar amplo levantamento acerca desta interface, seguem nas próximas linhas os registros que me parecem os mais belos.Inicialmente, não há como escapar de Heráclito de Éfeso (470 d.C): Um homem nunca se banha duas vezes no mesmo rio. Porque o homem nunca é o mesmo. E nunca é o mesmo rio. A beleza das frases abarca com rara felicidade as mudanças das características das águas naturais, tanto pelas ações humanas – tão incipientes naqueles tempos remotos! -, quanto pelos efeitos sazonais. Desta forma, por exemplo, é natural que cresçam a concentração de partículas no período chuvoso e a transparência das águas no período de estiagem.
A segunda menção recai para o maior poeta da língua portuguesa, Fernando Pessoa (1888). Entre as várias alusões às águas, o poeta pela pena do heterônimo Alberto Caeiro no Guardador de Rebanhos sobrepõe o ribeirão da sua infância na África do Sul em relação ao Tejo: (...) E por isso, porque pertence a menos gente, é mais livre e maior o rio da minha aldeia. Os versos enaltecem esta intrínseca relação decorrente do fato dos primeiros assentamentos humanos estabelecerem-se às margens dos corpos d’água, estes por vezes emprestando-lhes o próprio nome.
A obra de Guimarães Rosa (1908) oferece-nos várias referências aos recursos hídricos, culminando com o mais que belo poema Sono das Águas (publicado no livro Magma em 1936). Todavia, prefiro destacar frase prosaica da personagem central do Grande Sertão: Veredas, Riobaldo, que enuncia: Perto de muita água, tudo é feliz. Além do renovado martírio da seca, muito provavelmente sem o médico de Cordisburgo o saber, esta frase também traduz a prazerosa sensação denominada impulso limnimético, cientificamente comprovada, que acomete o ser humano quando na proximidade de um corpo d’água, mesmo sem qualquer contato com o recurso hídrico.
O memorialista Pedro Nava (1903) banha-se por diversas vezes nas águas das Minas e do Rio de Janeiro ao longo dos seus seis volumes de memórias. Por exemplo, ao descrever os efeitos nefastos das inundações causadas pelo Rio Comprido - curso d’água que corta a capital fluminense -, assinala em seu Baú de Ossos: (...) meu miradouro dos céus, meu miradouro das ruas – um dia foi tragado pelas águas. Choveu chuva forte, chuveirando invariável durante várias horas e o morro de Santos Rodrigues começou a fazer descer amazonas barrentos sobre a Rua Aristides Lobo. A casa levantou ferros, singrou, as águas invadiram o porão não dando tempo para nada e só quando o prédio reatracou no monte Ararat, é que pôde tirar de dentro a lama invasora. A descrição desta enchente caracteriza situação mais que usual de inúmeras cidades nos países tropicais. Menos pelo fato terem sido erigidas na planície de inundação dos cursos d’água – fato igualmente comum na maioria das cidades européias -, mais pela intensidade e regime das precipitações.
Por fim, na obra do moçambicano Mia Couto (1955) as águas assumem papel de relevo. Em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra o autor tece: (...) Lhe fazia falta, sim, o azul. Porque tinha sido a sua primeira cor. Na aldeiazinha onde cresceu, o rio tinha sido o céu da sua infância. No fundo, porém, o azul nunca é uma cor exata. Apenas uma lembrança, em nós, da água que já fomos. Aliada à nítida influência de Guimarães Rosa, por ele reconhecida, o extrato aponta para o fato da cor azul quando emanada do corpo d’água ser a mais facilmente perceptível, por apresentar o menor coeficiente de extinção. E, retornando a Heráclito, evidencia o quão as águas parecem representar as constantes mudanças às quais também estamos sujeitos com o correr dos anos.

Marcelo Libânio é professor Associado do Departamento de Engenharia Hidráulica e Recursos Hídricos da UFMG.

FONTE (image include): UAI - Belo Horizonte,MG,Brazil

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