terça-feira, novembro 06, 2007

“Sei que o judo vai andar comigo até não poder mais”

“Sei que o judo vai andar comigo até não poder mais”
Entrevista a Ana Hormigo
Povo da Beira (PB): Veio recentemente a público a sua vontade de deixar a Academia de Judo de Castelo Branco. Em que contexto surge esta decisão?
Ana Hormigo (AH): Isto não vem de agora, já vem de há muito tempo. Há muito tempo que eu andava descontente. Decidi pôr um termo, porque acho que não estava a ser apoiada. O que eu faço é judo, mas eu não sou apoiada como deve de ser no tapete. Eu não posso treinar sozinha, preciso de alguém para treinar comigo e há aspectos técnicos do judo que têm de ser melhorados e não havia uma preocupação. Além disso, se é o Abel [Louro] que treina comigo, seria muito injusta se não o pusesse como treinador, porque é ele que me tem apoiado e agora ainda vou precisar de mais apoio. É ele que está comigo, que sofre comigo, que corre comigo, que chora comigo. Tem toda a lógica ser ele o meu treinador. É só pôr por escrito o que já acontece na prática.
PB: A falta de apoio que refere alguma vez se reflectiu no seu desempenho?
AH: Não, isso não. O trabalho é feito e eu tenho-me esforçado. De qualquer forma, não é o Jorge [Fernandes] que me acompanha lá fora. Eu cá em Portugal ainda não fiz nenhuma competição e sempre que vou ao estrangeiro sou acompanhada pelo treinador da Selecção. Passo muito tempo a treinar com a Selecção. Refiro-me a apoios aqui em Castelo Branco. Como passo muito tempo com a Selecção, parece que quando chego cá as pessoas pensam “a Ana está a ser acompanhada pela Selecção e então não precisamos de fazer nenhum trabalho específico com ela”. Já tinha falado muitas vezes com o Jorge e disse-lhe que não me sentia bem, porque ele não treina comigo. Então eu simplifiquei as coisas. Se é o Abel que está a treinar comigo, é o Abel que vai ficar meu treinador. Isto foi o que se passou. O Jorge ficou muito ofendido por eu ter saído, mas ele já sabia como eram as coisas. Eu não treino só uma vez por semana. Quando estou em Castelo Branco tenho de treinar duas e três vezes por dia e a pessoa que me acompanhava é o meu namorado e é ele que está comigo no tapete às sete da manhã. É ele que faz judo comigo e não é fácil treinar com ele quando ele tem o dobro do meu peso. É disso que eu me queixo. Eu não preciso que me apoiem quando estou em grande e tenho vontade de treinar. Eu preciso que me apoiem é quando estou lá em baixo, quando não tenho vontade de treinar. É aqui que eu falo de falta de apoio, porque não tenho dúvidas que na Academia tinha grandes condições em termos de instalações. Tinha musculação, mas é judo que eu faço. Nunca vi alguém ser do atletismo e nadar mais. Ou um nadador fazer mais bicicleta. Às vezes, fazia muita musculação e o judo perdia-se e eu preciso de fazer um trabalho específico do judo e este trabalho tem de se fazer de manhã. Às vezes é difícil para as pessoas perceberem. O judo envolve muitos desportos, mas é nisso que eu tenho de ser melhor. Na Selecção, há um trabalho planeado e eu não tenho que me preocupar com nada. Em Castelo Branco, tenho que me preocupar com tudo. Eu sou atleta e é o treinador que tem de me orientar.
PB: Em que ponto está a situação? Já foi tudo oficializado?
AH: Isto é muito complicado. Quando mudei de treinador eu podia continuar no Clube, mas sabia que não iria funcionar. Então, decidi mudar. Vou continuar a representar a Região, mas mudo de clube. O problema é que nós não podemos andar assim a saltar de clube. Isto é muito giro, mas no futebol. Ou seja, se nós representarmos a nível nacional o clube, temos de ficar sedeados nesse ano civil. Neste aspecto, a lei não está bem muito estruturada. A nível nacional ainda não representei o clube, mas a nível internacional já fiz muitas provas. Este é um caso omisso. Não sabem se eu posso representar outro clube se já fui à Selecção, porque à Selecção vou por Portugal e não pelo Clube, mas vou porque tenho clube. Fiz a carta a dizer que queria mudar. Se não conseguir, mudo em Janeiro, mas a minha vontade era mudar já, porque em Novembro vamos ter o Campeonato Nacional e eu preferia representar outro clube.
PB: Há já algum clube em vista?
AH: Eu e o Abel vamos abrir uma escolinha de judo. Em Castelo Branco, há uma grande lacuna, porque escola de judo para adultos só há na Academia. Eu poderia inscrever-me num colégio. E depois faço judo com os pequeninos? Como já somos treinadores desde 1998, quase há 10 anos, queremos formar um clube, com uma escolinha para os pequenos, mas também para formar adultos. Eu não quero roubar alunos a ninguém. Eu não chamei ninguém, mas vou fazer uma escolinha e nada me impede de convidar pessoas para treinarem comigo. Agora fiz o pedido para me inscrever pelo Alcains, porque damos aulas lá, mas em Janeiro quero representar a escola, que queremos abrir o mais rapidamente possível, na zona da Carapalha.
PB: Um dos seus objectivos para os próximos tempos é a participação nos Jogos Olímpicos. Como está a correr a preparação e o apuramento?
AH: A preparação está a decorrer há muito tempo, desde 2004. O apuramento começou em Maio passado, com o Campeonato da Europa, altura em que começou a angariação de pontos para os Jogos Olímpicos, e vai terminar com o Campeonato da Europa de 2008, em Lisboa. Ainda há muitas provas. Neste momento, estou em terceiro do ranking. Está bem encaminhado, mas sei que vai ser muito, muito difícil. Ainda há muitos pontos. As pessoas às vezes pensam que está quase e, de facto, se acabasse a qualificação agora, eu estava nos Jogos, mas há muitas provas e as pessoas que estão logo atrás de mim também têm pontos e às vezes basta uma medalha e passam à minha frente. Vai ser uma luta muito renhida até ao Campeonato da Europa de Lisboa.
PB: Mas tem boas expectativas? Considera que é possível?
AH: Sim. No Campeonato do Mundo íamos todos muito bem preparados. Eu tive a infelicidade de fazer só um combate, mas o treinador na altura disse-me logo que a preparação foi muito boa e que eu estava em muito boa forma e isso tinha que ser aproveitado. Nunca me senti tão bem preparada como nestas provas e foi por isso que os resultados surgiram. Por exemplo, nunca tinha tirado uma medalha num Super A e desta vez consegui. O que para mim foi uma grande alegria. Às vezes as pessoas pensam que eu quero sair da Academia porque estou a ter bons resultados. Os meus resultados foram, sinceramente, uma surpresa para mim, apesar de saber que estava bem preparada, lá fora elas também estão muito bem preparadas, mas a minha decisão de sair já vem de há muito tempo e no Campeonato do Mundo telefonei para Portugal e decidi mudar de treinador.
PB: Em altura de Jogos Olímpicos surgem quase sempre atletas que se queixam de falta de apoios. Já sentiu isso na pele?
AH: Os atletas que vão aos Jogos são abrangidos pelo projecto olímpico e têm uma bolsa olímpica, em que o treinador também recebe. Há realmente alguns gastos. Se tenho de me deslocar a Lisboa aos treinos da Federação, a federação comparticipa- me alguns gastos, mas depois também vou ter de os pagar. Por exemplo, neste momento precisava de fazer umas sessões de fisioterapia e liguei para o Comité Olímpico e a área de Castelo Branco não é abrangida e não é viável ir todos os dias a Lisboa. Estes apoios às vezes falham um bocado, mas de resto não me posso queixar. A autarquia apoia-me e é uma grande ajuda. Com este apoio, consigo compensar quando falto aqui na empresa. Como sou sócia-gerente, não posso simplesmente faltar, tenho de contratar outra pessoa para me substituir. Mas é muito complicado, em geral, estar no Interior, porque às vezes as infraestruturas não são as mais adequadas. Posso usufruir dos espaços camarários por integrar o projecto olímpico, mas há atletas que não têm essas possibilidades.
PB: E em termos de apoio das pessoas de Castelo Branco e da Região?
AH: Eu sei que as pessoas me reconhecem e muitas vezes vêm dar-me os parabéns. Vejo que estão informadas e esse também é um apoio que eu sinto.
PB: O judo já faz parte da sua vida há muito tempo. Como começou tudo?
AH: Comecei quando tinha nove anos. Na altura, o meu irmão já andava no judo e eu andava a saltar por outros desportos. Fui experimentar uma aula e gostei, apesar de ser a única miúda. Mas nessa faixa etária, às vezes as miúdas são mais evoluídas que os rapazes e, então, treinava com eles, e fazia bem, ganhava alguns combates e eu gostava daquilo. Entretanto, comecei a ir a umas provas e como não havia nenhuma menina para eu fazer, punham-me sempre com os meninos e eu fazia e era muito engraçado. Depois, mais tarde, quando começaram a aparecer raparigas eu até achava estranho. Achava que eram sempre muito pieguinhas e punha sempre as meninas a chorar. Foi um desporto que me cativou, pela disciplina. Sempre adorei artes marciais e nunca quis desportos como o ballet. Gostei e fiquei.
PB: E quando percebeu que podia ir mais longe?
AH: Não está estipulada uma idade para se poder chegar à alta competição. O judo pode fazer-se em todas as idades, com o treino adaptado a cada idade. Eu, aos nove anos, comecei a fazer aquilo por gosto. Claro que havia sempre aquelas minicompetições e eu confesso que não gostava. Ficava sempre muito nervosa e ainda hoje fico mais nervosa, principalmente a competir cá do que quando estou no estrangeiro. Eu gostava muito de fazer judo e de brincar com os meus colegas, mas nas competições ficava sempre nervosa. Só depois dos 20 anos, aprendi a controlar um bocadinho mais o stress e este foi o ano em que controlei melhor.
PB: Como é que analisa o percurso que fez ao longo de todos estes anos?
AH: Há sempre altos e baixos e para mim o judo é uma ferramenta de equilíbrio. Quando gosto da competição, estou muito motivada, mas quando estou mais em baixo ou quando tenho uma lesão, penso em desistir. Mas, claro, é só um desabafo. Não consigo passar sem o judo e agora, mesmo em período de férias, não consegui não vestir o kimono. Isto é um bichinho que se tem cá dentro e o judo pode levar-se ao longo da vida. Eu tenho a felicidade de passar por todos os momentos, desde a formação à alta competição e mais ano menos ano vou preferir ensinar e passar a informação. Ainda tenho muito para aprender, mas também gosto muito de ensinar. Sei que o judo vai andar comigo até não poder mais.
PB: Qual o momento mais baixo e o momento mais alto da sua carreira?
AH: Posso dizer que agora tem sido o momento mais alto. O meu objectivo é os Jogos Olímpicos e espero que seja aí o meu topo, porque o sonho do judoca é ir aos Jogos e, ainda por cima, é muito, muito difícil, porque, nas raparigas, só vão cinco atletas da Europa, quando há mais de 50 países a competir por um lugar. Neste momento, quando estou, em ano olímpico, em terceiro no ranking, é a altura em que estou no ponto alto. A última medalha que eu tirei foi das que mais felicidade me trouxe. O meu ponto mais baixo, não sei. Felizmente, nunca tive uma lesão grave que me afastasse do judo durante muito tempo. Vou dizer uma altura: é quando estou a perder peso. Penso sempre em desistir do judo, mas depois quando como mudo de ideias.
PB: Além do judo, tem outras actividades, como o CrocoEduca. Como decorre o seu dia-a-dia?
AH: O dia devia ter mais horas. Eu e o Abel somos pessoas muito dinâmicas. Tento estruturar tudo muito bem. Como para a semana já entro na rotina de treino, já nos sentámos para planear a semana. Vai ser muito complicado. Logo às sete da manha, vou fazer judo com o Abel. Durante a manha, como no CrocoEduca as coisas estão mais calmas, trato da papelada e faço preparação física. À tarde, faço treino específico de judo e tem de ser no final do dia, porque o CrocoEduca ocupa-me até às 19 horas. Além disso, tenho um gabinete de Tradução, que é nessa área que tenho formação, que felizmente tem tido muito trabalho e também tenho de orientar isso. Às vezes chego a casa às 10 da noite, mas tenho tempo para tudo. É preciso é saber organizar e compensa.
PB: Esta opção de percurso tornou a sua vida diferente das pessoas que têm a sua idade?
AH: Sim. Primeiro, o facto de começar a ganhar uma bolsa da Federação, fez. me aprender a saber gerir e organizar o dinheiro. Faz-me impressão ver muita gente a depender dos pais. Os meus pais sempre me deram tudo o que foi necessário, mas não andam aí a esbanjar o dinheiro e sei que se quero ter as minhas coisas sou eu que tenho de as conseguir. E sempre me disponibilizei os ajudar. Depois, há o facto de começar a viajar por todo o mundo e a estar fora de casa muito tempo. Senti outras vivências, conhecer outras culturas, imensas pessoas e esta é uma experiência que, infelizmente, nem toda a gente pode ter. Se o judo desse dinheiro, eu não tinha que abrir uma empresa e com a idade que tenho não posso só estar à espera da bolsa, porque se não atinjo os resultados, cortam-me a bolsa. Neste momento, tenho uma casa para pagar e tenho de ter alguma coisa que me suporte. E quando acabar esta altura de competição, quero ver se retomo os estudos, porque não tive oportunidade de tirar a licenciatura, tirei só o bacharelato. E como tenho o gabinete de tradução, gostava de fazer outras formações, mas quero empenharme e estudar a sério.
PB: Como é que se imagina daqui a 10 anos?
AH: Vejo-me sempre ligada ao judo e espero que este projecto da escola se reflicta no futuro. Daqui a 10 anos, vejo-me a dar aulas de judo e a ter muitas crianças para ensinar. O meu objectivo não é a competição, não é formar atletas como eu. Porque a competição exige muito esforço, muito choro e às vezes as pessoas pensam que por ser uma boa atleta, como treinadora vou ter muitos bons atletas. Não. Às vezes um bom atleta não se reflecte num bom treinador, mas com as experiências que tenho vou querer ensinar aos meus alunos tudo o que eu sei e vou querer dar toda a atenção que eu gosto de ter também do treinador. Mas não vou estar a dizer que vou formar só campeões. Quero muita gente a fazer judo. Mas acho que é possível formar atletas em Castelo Branco que vão a altas competições.

Andreia Gonçalves

FONTE: Jornal Regional - Portugal - Porto,Portugal
http://www.jornalregional.com/

FONTE: Jornal Regional - Portugal - Porto,Portugal




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