
24/9/2007 21:14:00
Este rumor de morte
Por Marcelino Freire
Nosso tempo está velho e está doente. Enferrujado e embolorado. Nadamos no mesmo barco. À deriva. Geração sem ação, eu diria. Vendo o mundo ruir. Escapulir. Sei lá.
A poesia de Maurício Duarte dos Santos é isso. Lembrou-me um poema sujo. Ou: um mundo sem fundo. Ou: o fim do caminho. Não sei.
De esperança, só este livro. Finalmente publicado. Para dizer que a poesia não está mesmo morta. Há respiração. Mesmo que a inspiração para a estréia deste poeta seja esta: vazia. Rumor Nenhum. Rumor de morte. Desde a infância, versos entregues à própria sorte. Luminosos, mesmo que obscuros.
Gosto disso: de quem escreve sem delongas. Vai no sentimento. Guia-se pelo que incomoda. Uma dor aguda, a tristeza sem cura. Não está aqui o autor preocupado com a felicidade. Olha pela janela e vê agonizar a cidade. Cinza.
Diz, sem rimas: “A duas quadras do meu trabalho / estendo a nota de um real na mão espalmada / mas o menino continua sem origem / de olhos enterrados no rosto / muito sujo e pequeno demais para a sua idade”.
Viva este jovem artista do apocalipse, seria? Não quero parecer dramático. Mais do que atolados já estamos no buraco negro que cavamos. Dia a dia. O fato é que comemoro, com estranha alegria, a humanidade da poesia de Maurício. Explico: o ouvido que ele tem para a pobreza (tanto dentro como fora de casa) que nos cerca. Escreve sem fricotes e sem balelas. Xô, malabarismos de linguagem, ora essa!
É o que é. Repito: este nosso tempo. “A fruteira vazia / apodrecendo / a casa”. Ou ainda: “O tio com câncer como / um incômodo na mesa”. Que beleza!
Ou, para terminar: “Anunciado o fim da guerra, um festival / de lenços brancos agita-se na pedra do / porto. O navio atraca repleto de sombras: / o coração da mãe cujo filho não veio é / agora uma rocha maior do que o cais”.
Muito bom este rapaz que, certa vez, veio me mostrar os seus escritos. Tímidos e bem proseados. Raros, sobretudo.
Em um mundo cada vez mais pobre e desgraçado, eis o verdadeiro luxo!
Marcelino Freire nasceu em 20 de março de 1967 na cidade de Sertânia, Sertão de Pernambuco. Vive em São Paulo desde 1991. É autor de EraOdito (Aforismos, 2ª edição, 2002), Angu de Sangue (Contos, 2000), BaléRalé (Contos, 2003) publicados pela Ateliê Editorial, e Contos Negreiros (Contos, 2005) pela Record, livro que venceu o prêmio Jabuti. Em 2002, idealizou e editou a Coleção 5 Minutinhos, inaugurando com ela o selo eraOdito editOra. É um dos editores da PS:SP, revista de prosa lançada em maio de 2003, e um dos contistas em destaque nas antologias Geração 90 (2001) e Os Transgressores (2003), publicadas pela Boitempo. Blog: http://www.eraodito.blogspot.com/
Este rumor de morte
Por Marcelino Freire
Nosso tempo está velho e está doente. Enferrujado e embolorado. Nadamos no mesmo barco. À deriva. Geração sem ação, eu diria. Vendo o mundo ruir. Escapulir. Sei lá.
A poesia de Maurício Duarte dos Santos é isso. Lembrou-me um poema sujo. Ou: um mundo sem fundo. Ou: o fim do caminho. Não sei.
De esperança, só este livro. Finalmente publicado. Para dizer que a poesia não está mesmo morta. Há respiração. Mesmo que a inspiração para a estréia deste poeta seja esta: vazia. Rumor Nenhum. Rumor de morte. Desde a infância, versos entregues à própria sorte. Luminosos, mesmo que obscuros.
Gosto disso: de quem escreve sem delongas. Vai no sentimento. Guia-se pelo que incomoda. Uma dor aguda, a tristeza sem cura. Não está aqui o autor preocupado com a felicidade. Olha pela janela e vê agonizar a cidade. Cinza.
Diz, sem rimas: “A duas quadras do meu trabalho / estendo a nota de um real na mão espalmada / mas o menino continua sem origem / de olhos enterrados no rosto / muito sujo e pequeno demais para a sua idade”.
Viva este jovem artista do apocalipse, seria? Não quero parecer dramático. Mais do que atolados já estamos no buraco negro que cavamos. Dia a dia. O fato é que comemoro, com estranha alegria, a humanidade da poesia de Maurício. Explico: o ouvido que ele tem para a pobreza (tanto dentro como fora de casa) que nos cerca. Escreve sem fricotes e sem balelas. Xô, malabarismos de linguagem, ora essa!
É o que é. Repito: este nosso tempo. “A fruteira vazia / apodrecendo / a casa”. Ou ainda: “O tio com câncer como / um incômodo na mesa”. Que beleza!
Ou, para terminar: “Anunciado o fim da guerra, um festival / de lenços brancos agita-se na pedra do / porto. O navio atraca repleto de sombras: / o coração da mãe cujo filho não veio é / agora uma rocha maior do que o cais”.
Muito bom este rapaz que, certa vez, veio me mostrar os seus escritos. Tímidos e bem proseados. Raros, sobretudo.
Em um mundo cada vez mais pobre e desgraçado, eis o verdadeiro luxo!
Marcelino Freire nasceu em 20 de março de 1967 na cidade de Sertânia, Sertão de Pernambuco. Vive em São Paulo desde 1991. É autor de EraOdito (Aforismos, 2ª edição, 2002), Angu de Sangue (Contos, 2000), BaléRalé (Contos, 2003) publicados pela Ateliê Editorial, e Contos Negreiros (Contos, 2005) pela Record, livro que venceu o prêmio Jabuti. Em 2002, idealizou e editou a Coleção 5 Minutinhos, inaugurando com ela o selo eraOdito editOra. É um dos editores da PS:SP, revista de prosa lançada em maio de 2003, e um dos contistas em destaque nas antologias Geração 90 (2001) e Os Transgressores (2003), publicadas pela Boitempo. Blog: http://www.eraodito.blogspot.com/
FONTE: CRONOPIOS + BITNIKS + TV CRONÓPIOS
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