terça-feira, agosto 28, 2007

Dies Irae - António José Maldonado


António José Maldonado
Dies Irae

Não me esqueçais
Vós coexistentes insectos
andados objectos da minha alma
chão consultado por muito povo
sala própria de todos os destruídos invernos
Sob o sol entregamos o sangue da erva
Rumor nenhum ultrapassará o fogo a água
demoradas cicatrizes continuarão o assombro da unidade
instruindo os ceifeiros para as espigas da última jornada
Terminada a conjunção do tempo
as primaveras expõem aos ombros sua nudez silenciosa
Amanhã beberemos paciência
amanhã será o homem encontrado no seu osso
sua face arredondada pelas marés
seu dedo dócil - a medo pintado - sem título
e Tu - Senhor! - desocupado de passado e de futuro
cercado de altura e provérbios.
Do livro "Limite Cultivado" - Ulmeiro, Lisboa, 1984

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