
28/8/2007 00:47:00
Cora Coralina
Por Cora Coralina
Grande expressão literária do século passado em Goiás, reconhecida tardiamente, embora desde a sua estréia em um almanaque provinciano tenha inspirado a admiração de contemporâneos mais antenados com o fenômeno literário, Cora Coralina continua vivíssima em tudo aquilo que escreveu e produziu. Em tudo impôs a marca do seu talento.
Tendo vivido numa pobreza imensa, Cora Coralina atribuiu vida eterna a uma gente anônima, marginalizada e sem história, como o agricultor que vive sujeito à vontade do patrão e aos caprichos do tempo; como a mulher do povo, desbocada, proletária e parideira; como a lavadeira do rio Vermelho com o seu cheiro gostoso de água e sabão; como a cabocla velha de mau-olhado, acocorada ao pé do borralho, olhando o fogo; como a mulher cozinheira em sua cozinha bem cacheada de picumã, pisando alho e sal...
Como o próprio Carmo Bernardes, extraordinário escritor telúrico com quem passei uma das horas mais intensas de toda a minha vida, Cora Coralina forjou com sensibilidade e paciência um permanente diálogo com o seu povo e o elevou, através dos seus impressivos escritos, à mais alta potência.
Uma tarde, no terraço da sua casa do Setor Pedro Ludovico, em Goiânia, Carmo Bernardes me disse, sem esconder a satisfação, que Cora havia “bagunçado” a literatura goiana, incluindo em seus escritos os “pobres de Deus”, uma gente estigmatizada pela penúria e a privação. Não seria exagerado dizer que Goiás vive e respira em seus versos repletos de sortilégios baseados na tradição e em um imaginário riquíssimo.
Embora tenha se exprimido majoritariamente em versos, Cora Coralina não gostava de ser incluída entre as poetisas. Talvez temesse ser confundida com aquelas mulheres literatas que lançam suas efusões íntimas sobre o papel, sem nenhum outro compromisso com a estética, a não ser o de promover o sacrifício de árvores. Certamente Cora temia ser confundida com elas e em conseqüência dessa promiscuidade, desvalorizada em sua essência. Preferia explicar o seu livro à sua maneira: “Versos... Não/ Poesia... Não./ Um modo diferente de contar velhas estórias”...
No fim da vida, cercada de glória, Cora Coralina fazia doces para sobreviver. Porém, mais do que a qualquer político ou administrador, deve-lhe Goiás páginas imortais e aquele brilho que não é negociável e que distingue o verdadeiro artista, que não depende dos favores de ninguém e só conta, de fato, com o tempo que redimensiona tudo. Por isso é que se diz que todo grande artista é póstumo.
Franklin Jorge (1952), escritor e jornalista norte-rio-grandense, obteve em 1998, por unanimidade, o Prêmio de Literatura Luís da Câmara Cascudo (Prefeitura de Natal). Fundador da Pinacoteca do Estado e da Oficina de Gravura Rossini Quintas Pérez, dedica-se atualmente a realização de oficinas de jornalismo e literatura para jovens, na capital e no interior do Estado, como voluntário. Vive em Natal, cidade-cenário de sua obra de ficção. FONTE: CRONÓPIOS - Literatura e Arte no Plural+BITNIKS+TV CRONÓPIOS
Por Cora Coralina
Grande expressão literária do século passado em Goiás, reconhecida tardiamente, embora desde a sua estréia em um almanaque provinciano tenha inspirado a admiração de contemporâneos mais antenados com o fenômeno literário, Cora Coralina continua vivíssima em tudo aquilo que escreveu e produziu. Em tudo impôs a marca do seu talento.
Tendo vivido numa pobreza imensa, Cora Coralina atribuiu vida eterna a uma gente anônima, marginalizada e sem história, como o agricultor que vive sujeito à vontade do patrão e aos caprichos do tempo; como a mulher do povo, desbocada, proletária e parideira; como a lavadeira do rio Vermelho com o seu cheiro gostoso de água e sabão; como a cabocla velha de mau-olhado, acocorada ao pé do borralho, olhando o fogo; como a mulher cozinheira em sua cozinha bem cacheada de picumã, pisando alho e sal...
Como o próprio Carmo Bernardes, extraordinário escritor telúrico com quem passei uma das horas mais intensas de toda a minha vida, Cora Coralina forjou com sensibilidade e paciência um permanente diálogo com o seu povo e o elevou, através dos seus impressivos escritos, à mais alta potência.
Uma tarde, no terraço da sua casa do Setor Pedro Ludovico, em Goiânia, Carmo Bernardes me disse, sem esconder a satisfação, que Cora havia “bagunçado” a literatura goiana, incluindo em seus escritos os “pobres de Deus”, uma gente estigmatizada pela penúria e a privação. Não seria exagerado dizer que Goiás vive e respira em seus versos repletos de sortilégios baseados na tradição e em um imaginário riquíssimo.
Embora tenha se exprimido majoritariamente em versos, Cora Coralina não gostava de ser incluída entre as poetisas. Talvez temesse ser confundida com aquelas mulheres literatas que lançam suas efusões íntimas sobre o papel, sem nenhum outro compromisso com a estética, a não ser o de promover o sacrifício de árvores. Certamente Cora temia ser confundida com elas e em conseqüência dessa promiscuidade, desvalorizada em sua essência. Preferia explicar o seu livro à sua maneira: “Versos... Não/ Poesia... Não./ Um modo diferente de contar velhas estórias”...
No fim da vida, cercada de glória, Cora Coralina fazia doces para sobreviver. Porém, mais do que a qualquer político ou administrador, deve-lhe Goiás páginas imortais e aquele brilho que não é negociável e que distingue o verdadeiro artista, que não depende dos favores de ninguém e só conta, de fato, com o tempo que redimensiona tudo. Por isso é que se diz que todo grande artista é póstumo.
Franklin Jorge (1952), escritor e jornalista norte-rio-grandense, obteve em 1998, por unanimidade, o Prêmio de Literatura Luís da Câmara Cascudo (Prefeitura de Natal). Fundador da Pinacoteca do Estado e da Oficina de Gravura Rossini Quintas Pérez, dedica-se atualmente a realização de oficinas de jornalismo e literatura para jovens, na capital e no interior do Estado, como voluntário. Vive em Natal, cidade-cenário de sua obra de ficção. FONTE: CRONÓPIOS - Literatura e Arte no Plural+BITNIKS+TV CRONÓPIOS
Parabéns pelo blog.
ResponderExcluirEstou fazendo uma homenagem a Franklin Jorge no endereço
http://lilubia.fotoblog.uol.com.br/
Abraços
Ligia
Franklin Jorge é um dos grandes escritores brasileiros da atualidade. Sua obra, ainda desconhecida do grande público, tem tudo para se tornar uma referencia nacional, pela abrangência de sua temática que ele vai buscar na alma do povo brasileiro (ele morou em vários estados da Federação e hoje vive em Natal, é norte-rio-grandense e um intelectual atuante na cultura local há mais de 40 anos).
ResponderExcluirEstou lendo agora que um livro seu ("O Ouro de Goiás") está saindo em Goiânia pelo Instituto José Mendonça Teles. Muito justo para com esse escritor tão injustiçado em sua terra natal.