sexta-feira, julho 21, 2006



Ter ou não ter namorado, eis a questão - Artur da Távola *

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo.
Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de
verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima,
nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa,
envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil.
Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer
proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase
desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda ou
bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de
namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento,
dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não
tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo
do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de
virar lagartixa e quem ama sem alegria.
Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade.
Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida,
fugidia ou impossível de curar.
Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho
escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de
repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico
Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a
meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de
metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer
compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem
de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele;
abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela
a parques, fliperamas, beira d'água, show do Milton Nascimento, bosques
enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica
livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu
bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem
curtir quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o
gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou
meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem
vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com
ele.
Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem
namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser
afetivo.
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você
vive pesando 200Kg de grilos e de medos. Ponha a saia mais leve, aquela de
chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e
ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada
e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio
jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua
janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos
de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu
descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a
dizer frases sutis e palavras de galanteio.
Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho
necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.
*Texto equivocadamente atribuído a Carlos Drummond de Andrade de autoria de Artur da Távola.Título do livro: Amor a sim mesmo. Da edição de coletânea das crônicas de Távola. Editora: Círculo do Livro, por cortesia da Editora Nova Fronteira S.A. Ano da edição: Como a edição foi realizada pelo Círculo do Livro, e não pela Nova Fronteira, não há o ano . A única data no livro é a do copyright- © 1.984 - Paulo Alberto M. Monteiro de Barros (nome real de Artur daTávola)

Nenhum comentário:

Postar um comentário