terça-feira, julho 18, 2006

SONO - Domingos de Souza Nogueira neto


SONO - Domingos de Souza Nogueira Neto
Criança atormentada por pesadelos. Mal dormia. Não eram criações literárias porque lhes faltava originalidade. Os personagens dos meus sonhos eram criações de autores, de mitologias, não arquétipos, mas apropriações de minhas próprias leituras, e das anteriores, apresentadas por minha mãe. Tinha medo já quando ia para a cama.
Com o tempo, comecei a enfrentar os maus sonhos, racionalizava-os, procurava, como nos primeiros ludos, enfrentar fantasmas, superar obstáculos, e obter na minha pátria inconsciente as mesmas vitórias que aspirava durante o dia. Foi exercício de toda a vida.
Venci, afinal, ou quase. Na idade adulta sou o campeão dos meus sonhos, derroto as criaturas imaginárias que me assombram com soluções inteligentes e racionais. Não tenho medo.
O problema é que a noite se tornou uma continuação do dia, o inconsciente uma caricatura de racionalidade e o sono me mantém alerta. Estou cansado e sinto falta do dormir...
Belo Horizonte, 17 de julho de 2006.

Um comentário:

  1. Anônimo4:26 PM

    Domingos,


    esta sua produção textual é muito bonita.
    Sinto a força do nosso embate contra a nossa própria representação mental. Estamos sempre caminhando entre a dimensão do pensamento mágico, do nosso imaginário e da realidade. Só que precisamos dormir. Quem me dera ter um segredo pra te dar sono!!! Quando criança, podes crer: eu recebia da noite, pó de estrelas para dormir.
    Um abraço

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