domingo, julho 09, 2006

QUARTO EM DESORDEM - Carlos Drummond de Andrade


Quarto em desordem
Carlos Drumond de Andrade
Na curva perigosa dos cinqüenta derrapei neste amor.
Que dor!
que pétala sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor
que não sabe como é feita: amorna quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amara nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo!
Corpo, corpo, corpo
verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama.

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