segunda-feira, julho 10, 2006

INFÂNCIA - Carlos Drummond de Andrade


Infância
Carlos Drummond de Andrade
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de Robinson Cruso
é, comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala
– e nunca se esqueceu chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha café gostoso café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino. Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

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