
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
PREFÁCIO DE RICARDO REIS AOS POEMAS DE ALBERTO CAEIRO
Pediram-me os parentes de Alberto Caeiro, cuja tarefa amiga é a de publicarem a sua Obra, que a essa Obra pusesse um prefácio. A honra que me fizeram, era grande; o pedido, porém era justo. Quem poderia falar dela senão o seu único discípulo? Mas para falar de Caeiro eu não iria evidentemente escrever uma biografia, ou dizer umas palavras de elogio. A biografia não teria interesse, porque na vida de Caeiro nada se passou, a não ser os versos que escreveu, e por eles eles-próprios falarão. Para elogiar, ou havia de dizer a minha admiração em frases apenas declamatórias; ou havia de explicá-la, de tentar converter a ela os outros pelo peso, quando não pela cópia, dos seus argumentos. Dizer a minha admiração, sem lhe dizer a causa, seria estulto; porque, ou a obra de per si imediatamente avassala os espíritos, ou a alguns, ou outros, deixa frios. Se a todos avassale, a nada vinha eu exprimir o que cada um exprime melhor para si. E se a obra não toma de assalto a admiração alheia, quão absurdas, estéreis e mal-colocadas não seriam as minhas palavras de admiração, justapostas à frieza do acolhimento! Era mister, pois, para escrever elogiar; para elogiar, explicar. Mas para explicar, era mister, ainda, explicar detalhadamente; que explicar por alto é não explicar. Para explicar detalhadamente, era, porém, preciso ir muito além da obra, cobrir um grande terreno; porque ao apresentar uma obra como importantíssima, por ser a reconstrução do paganismo, é evidente que é mister ir traçar um retrato do paganismo, percorrer sumariamente a trajectória humana desde que ele acabou, para que se possa ver a que vem, e como cabe, uma reconstrução do paganismo. Tudo isto transcendia, no mais humilde dos cálculos, o número de páginas que podemos considerar apropriado ao mero prefácio de uma obra. Nesse prefácio, além de tudo o que disse, eu tenho que versar pontos que, de longos meses, eu me propunha explanar detidamente, por achar útil que assim se fizesse, para assim transmitir os meus pensamentos sobre o problema mais importante – senão o único deveras importante – da nossa civilização. Tratar sumariamente esses pontos no prefácio à obra de Caeiro levar-me-ia a uma compressão exagerada das minhas opiniões, compressão que, pelo menos por ó que havia de omitir para ser breve, me não satisfaria, me deixaria no mesmo estado que dantes, com as mesmas opiniões por exprimir, e as mesmas teses por explanar. Não tratar esses pontos sumariamente, aumentaria fora de toda a medida as dimensões do prefácio pedido. Resolvi a dificuldade do único modo que se me antolhou possível. A oportunidade de explanar as minhas opiniões era-me dada. A nenhum propósito eu as poderia melhor explanar que a propósito de Caeiro. Não era justo para Caeiro, a cujo génio a minha obra era devida, que eu não a fizesse em torno a quem a causara. Não era justo para comigo se a Caeiro sacrificasse a minha obra; que afinal, sendo ele a plena justificação dela, ele era, no fim, sempre o único sacrificado. Decidi aproveitar a oportunidade que me era dada, mas escrever a obra como eu queria. Ela seria o melhor prefácio à obra de Caeiro; e seria a obra que eu tencionara escreve. O único óbice é que, escrito, excedeu o volume natural de um prefácio. Isso que obstará talvez à sua inclusão no próprio livro de Caeiro, não obstará à sua publicação em separado, sempre como prefácio, ou como comentário, ao livro dele. Assim fiz. Deixo aos editores do livro de Caeiro que publiquem esta obra como prefácio ou como comentário separado ao livro do Mestre. É um gesto esse que me satisfaz plenamente o pedido justo que me foi feito; e que ao mesmo tempo cumpriria inteiramente o meu dever para com as opiniões que eram dele e são minhas. Não quero dizer com isto que, para a minha explanação total, exigisse exceder a dimensão de um opúsculo. Terei que estudar o paganismo, o cristianismo, as religiões dos dois, e a evolução do segundo; terei que apontar o sentido dessa evolução e o caminho que ante nós se abre. Alberto Caeiro da Silva nasceu em Lisboa a (...) de Abril de 1889, e nessa cidade faleceu, tuberculoso, em (...) de (...) de 1915. A sua vida, porém decorreu quase toda numa quinta do Ribatejo. Só os primeiros dois anos dela e os últimos meses foram passados na sua cidade natal. Nessa quinta isolada cuja aldeia próxima considerava por sentimento como sua terra, escreveu Caeiro quase todos os seus poemas primeiros, a que chamou O Guardador de Rebanhos, os do livro, ou o quer que fosse, incompleto, chamado O Pastor Amoroso, e alguns, os primeiros, de que eu mesmo, herdando-os para publicar, com todos os outros, reuni sob a designação, que Álvaro de Campos me lembrou, de Poemas Inconjuntos Os últimos destes poemas, a partir daquele numerado (...), são porém produto do último período da vida do autor, de novo passada em Lisboa. Julgo de meu dever estabelecer esta breve distinção, pois alguns desses últimos poemas revelam, pela perturbação da doença, uma novidade um pouco estranha ao carácter geral da obra, assim em natureza como em direcção. A vida de Caeiro não pode narrar-se pois que não há nela de que narrar. Seus poemas são o que houve nele de vida. Em tudo o mais não houve incidentes, nem há história. O mesmo breve episódio, improfícuo e absurdo, que deu origem aos poemas de O Pastor Amoroso não foi um incidente, senão, por assim dizer, um esquecimento. A obra de Caeiro representa a reconstrução integral do paganismo, na sua essência absoluta, tal como nem os Gregos nem os Romanos, que viveram nele e por isso o não pensaram, o puderam fazer. A obra, porém, e o seu paganismo, não foram nem pensados nem até sentidos: foram vividos com o que quer que seja que é em nós mais profundo que o sentimento ou a razão. Dizer mais fora explicar, o que de nada serve; afirmar menos fora mentir. Toda a obra fala por si, com a voz que lhe é própria, e naquela linguagem em que se forma na mente; quem não entende não pode entender, e não há pois que explicar-lhe. É como fazer compreender a alguém espaçando as palavras, um idioma que ele não fala. Ignorante da vida e quase ignorante das letras, quase sem convívio nem cultura, fez Caeiro a sua obra por um processo imperceptível e profundo, como aquele que dirige, através das consciências inconscientes dos homens, o desenvolvimento lógico das civilizações. Foi um progresso de sensações, ou, antes, de maneiras de as ter, e uma evolução íntima de pensamentos derivados de tais sensações progressivas. Por uma intuição sobre-humana, como aquelas que fundam religiões para sempre, porém a que não assenta o título de religiosa, por isso que como repugnam o sol e a chuva, repugna toda a religião e toda a metafísica, este homem descobriu o mundo sem pensar nele, e criou um conceito do universo que vai contra nossas interpretações. Pensei, quando primeiro me foi entregue a empresa de publicar esses livros, em fazer em prefácio, um largo estudo crítico e excursivo sobre a obra de Caeiro, as suas teorias e natural destino. Porém não pude formar estudo algum que me satisfizesse. Não se pode comentar, porque se não pode pensar o que é directo, como o céu e a terra; pode, tão somente, ver-se e sentir-se. Pesa-me que a razão me compila a dizer estes pouco de palavras ante a obra de meu Mestre, de não poder escrever, de útil ou de necessário, com a palavra mais que disse, com o coração, na Ode (...) do Livro I meu, com a qual choro o homem que foi para mim, como virá a ser para mais que muitos, o revelador da Realidade, ou, como ele mesmo disse, «O Argonauta das sensações verdadeiras» – o grande Libertador, que nos restituiu, cantando, ao nada luminoso que somos; que nos arrancou à morte e à vida, deixando-nos entre as simples coisas, que nada conhecem, em seu decurso, de viver nem de morrer; que nos livrou da esperança e da desesperança, para que não nos consolemos sem razão nem nos entristeçamos sem causa; convivas com ele, sem pensar, da realidade objectiva do Universo. Dou a obra, cuja edição me foi cometida, ao acaso fatal do mundo. Dou-a e digo: Alegrai-vos, todos vós que chorais na maior das doenças da História! O grande Pã renasceu! Esta obra inteira é dedicada por desejo do próprio autor à memória de Cesário&Verde
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