
A tarde da ninfa
Adelaide Amorim
Leda saiu para o almoço e não almoçou. Entrou na loja de plantas, comprou três vasos pintados de branco e um de barro, desses que imitam tijolinhos. Comprou também duas mudas de hera, duas de samambaia chorona e foi guardar tudo no carro. Dali rumou para o supermercado e fez as compras do mês, as grandes, e mais os salgados para a feijoada de quinta-feira. Sentia-se um núcleo de vida entre robôs, único ser consciente dotado de vontade no meio do povo, tanto sabia o que fazia, tanta era a determinação. Escolheu bananas para fritar como se desde sempre tivesse sabido que ia comer bananas fritas no jantar daquele dia. Seus olhos se alongavam, abarcavam todas as prateleiras, dominavam as mercadorias propostas e resolviam as equações possíveis no momento. Quando não restava mais nenhuma incógnita, entrou na fila da caixa, esperou sem vislumbre de impaciência ou pressa. A fila era um dado a mais e apenas isso. A má vontade da moça da caixa, outra variável incapaz de perturbar seus objetivos. Não foi por tolerância ou compreensão que sorriu ao receber o troco: foi para si mesma que sorriu.
Há muito tempo não se sentia tão limpidamente consistente e desimpedida. Partiu para seu apartamento novo, abriu a porta e tornou a se deliciar como a luz subaquática que tinha conseguido com sua decoração, as janelas e as cortinas fechadas. Guardou as compras rapidamente nas prateleiras da área de serviço, no quarto de empregada, nos armários da cozinha. Amontoou os vasos e as mudas mergulhadas em um pouco d'água a um canto do tanque. Lançou um último olhar à volta, fechou a porta de serviço e atravessou a cozinha de lambris e cerâmica, o pequeno vestíbulo com a arca espanhola e as máscaras africanas, a sala acolhedora de luz esverdeada e entrou no quarto com a rede branca e muitas folhagens na varandinha de vidro. Abriu a metade da vidraça para que as plantas recebessem o ar livre que vinha dos lados do Corcovado e deitou-se na rede. "Vou dormir", pensou, e dormiu quase em seguida.
Sonhou que era um estranho animal todo feito de pedaços articulados e sem cor definida, que às vezes pareciam estar à luz da lua, e acordou em sobressalto meia hora depois, invadida por um estranho embaraço em relação a si mesma, como se tivesse sido desmascarada de repente diante de outras pessoas. "Não sou o que pareço", pensou ou disse, como se isso fosse o prolongamento do sonho. Piscou de leve os olhos várias vezes seguidas e coçou-se do lado direito, na altura das costelas. Sacudiu a cabeça e olhou o quarto a sua volta como se precisasse se certificar de alguma coisa.
Foi até o banheiro, sentou-se no vaso e urinou longamente, enquanto tentava reencontrar o equilíbrio entre as sensações e o tônus muscular, que pareciam em desacordo. Procurou apoio nos objetos familiares: o jogo de louça pintada sobre a bancada da pia, as torneiras bem polidas e trabalhadas com cabeças de gansos, o tapete de nuanças verdes. Alguma coisa parecia ter escapado a seu controle durante aquele sonho e agora a incomodava, encravada em seu núcleo bem ordenado. Limpou-se com cuidado, secou-se no papel verde-nuvem e foi até a pia antiga com desenhos de esmalte colorido. Olhou-se no espelho de três faces e o que pôde ver não a convenceu. Lavou o rosto, escovou os dentes e sentiu fome, enquanto se enxugava. Retocou o pó, pintou os lábios, examinou os olhos, rodeando a verdade com cuidado, à espera de um sinal que a elucidasse. Tudo arrumado, seco e nos devidos lugares, colorido como de direito, fechou a porta e foi até o quarto. Lançou um rápido olhar ao relógio, concedendo-se um gesto de rotina, e deu por encerrada sua perturbação dizendo a si mesma que se sentia fisicamente mal por causa da fome.
Quando entrou no carro se lembrou da voz de um colega de trabalho, dias atrás: "Você é uma mulher perigosa". Tinha soado como um elogio, e ela sorrira lisonjeada. Mas agora essa frase se ligava ao sonho, parecia explicá-lo de alguma forma. Perigosa por que e para quem? Para si mesma, podia ser, mas isso envolvia talvez outras pessoas. Por quê? Adiava a compreensão do que mais queria compreender e se irritava, não conseguia voltar àquele autodomínio da manhã. Por que não entrava nesse aposento que ainda lhe era desconhecido, por que deixava para depois aquilo que mais a intrigava, aquilo que havia de lhe interessar mais do que a decoração de seu apartamento? Com que a decoração do apartamento teria tudo a ver e por que de um modo inexplicável se impunha a ela sem se deixar capturar? Culpava-se por não ir ao fundo da questão. O que a incomodava não podia ser mais poderoso que sua própria vontade. Não podia ter mais força do que ela mesma, porque afinal era parte dela mesma, estava nela. Surpreendeu-se chorando de raiva. Olhou-se no espelho retrovisor e apreendeu um significado nesse gesto, um significado sem a exatidão e a eficácia a que estava acostumada: agora fazia coisas sem razão, por um impulso que parecia vir de fora, por uma força contraditória que a jogava contra si mesma.
Lembrou-se com amargura do momento glorioso de segurança na fila do supermercado. Já não poderia rir de si mesma; já não poderia ser indulgente consigo nem com ninguém mais. A menor grosseria ou desatenção agora a fariam perder o controle. Tinha se tornado mais um robô passível de se determinar por fatores alheios, e no entanto não havia tais fatores à vista, não os reconhecia no emaranhado de sentimentos desse momento. Uma nuvem passou por seus olhos. Procurou um lenço de papel no porta-luvas, não encontrou. Mordeu os lábios com tanta força que se cortou e mais lágrimas lhe subiram aos olhos. Esfregou-os com as costas das mãos.
O motorista do caminhão a seu lado a olhava com curiosidade, com um semi-sorriso que lhe pareceu um insulto, um escárnio. Revidou o olhar com tamanha carga de ódio que o homem desviou o rosto, embaraçado, fingindo concentrar-se num ponto qualquer à distância.
O sinal abriu. Entrou no primeiro retorno e em cinco minutos estava de novo em casa. O mal-estar do sonho se prolongava, e agora parecia moer alguma coisa em seu peito. Amanhã levaria um atestado médico para justificar a falta injustificável. Não havia razão para ela, bem sabia. Sabia muito mais do que gostaria de saber, e por isso chorava e por isso tinha que ficar sozinha, tinha que ficar doente. Os outros nunca a entenderiam.
ADELAIDE AMORIM nasceu no Rio de Janeiro. Graduou-se em filosofia pela UFRJ, é mestra em literatura brasileira pela UERJ e em teoria psicanalítica pelo IBMR do Rio de Janeiro. Trabalhou como coordenadora editorial de periódicos na Fundação Getulio Vargas e lecionou no Colégio Pedro II e no Caperj. Publicou em 2003 Umbigo do sonho, pela editora Litteris, livro de contos. Fonte: www.bestiario.com.br - Revista de Contos - http://www.bestiario.com.br/
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