
Artista do abismo
Por Cândido Rolim
o mágico acaricia um objeto até torná-lo precioso e depois nos engana com um passe de desvelamento que jamais apreendemos ou recordamos a tempo. ele não esconde nada; apenas se apropria do vestígio e trabalha com a realidade transfigurada pelo gesto. imagino ser de outra margem do mundo o baú luminoso dos mágicos. o fundo falso das cartolas estaria atravancado de coisas transformadas: relógios, pombos, moedas e lenços. e para que restituir estas coisas de novo ao presente, quando já estávamos prestes a sonhá-las?
a mão do mágico não é só o sumidouro do verossímil. ele não só mente com as mãos. por trás dos naipes que oculta nas mangas há oficinas, arco-íris em leques recolhidos. seus dedos trabalham fracionariamente o susto e transpiram dessa luta milimétrica com o artifício. sobre esses passadiços estreitos e abissais entre uma mão e outra, ele nos ensina que a certeza toma tristes atalhos e não se revelam as coisas no momento de elas serem, mas no instante em que passam.
após o primeiro número, a primeira obviedade traída, o artista já poderia guardar sua mala de desaparição. mesmo que prossiga operando súbitas alquimias sob nossos olhos – vinho transformado em peixe, pano em pérola, nem isso nos surpreenderá mais. ou quem sabe só um gesto ainda nos despertasse, como fez aquele mágico pobre e faminto, sem ter sequer o que fazer sumir, numa feira em várzea alegre: tornar o invisível mais invisível.
Cândido Rolim (Várzea Alegre / CE, 1965). Poeta, tem publicados os livros Rios de Mim (Secretaria de Cultura, Fortaleza/CE, 1982); Arauto (Edições Dubolso, Sabará/MG, 1988), Exemplos Alados (Letra e Música, Fortaleza/CE, 1997) e Pedra Habitada (AGE, Porto Alegre, 2002).
Por Cândido Rolim
o mágico acaricia um objeto até torná-lo precioso e depois nos engana com um passe de desvelamento que jamais apreendemos ou recordamos a tempo. ele não esconde nada; apenas se apropria do vestígio e trabalha com a realidade transfigurada pelo gesto. imagino ser de outra margem do mundo o baú luminoso dos mágicos. o fundo falso das cartolas estaria atravancado de coisas transformadas: relógios, pombos, moedas e lenços. e para que restituir estas coisas de novo ao presente, quando já estávamos prestes a sonhá-las?
a mão do mágico não é só o sumidouro do verossímil. ele não só mente com as mãos. por trás dos naipes que oculta nas mangas há oficinas, arco-íris em leques recolhidos. seus dedos trabalham fracionariamente o susto e transpiram dessa luta milimétrica com o artifício. sobre esses passadiços estreitos e abissais entre uma mão e outra, ele nos ensina que a certeza toma tristes atalhos e não se revelam as coisas no momento de elas serem, mas no instante em que passam.
após o primeiro número, a primeira obviedade traída, o artista já poderia guardar sua mala de desaparição. mesmo que prossiga operando súbitas alquimias sob nossos olhos – vinho transformado em peixe, pano em pérola, nem isso nos surpreenderá mais. ou quem sabe só um gesto ainda nos despertasse, como fez aquele mágico pobre e faminto, sem ter sequer o que fazer sumir, numa feira em várzea alegre: tornar o invisível mais invisível.
Cândido Rolim (Várzea Alegre / CE, 1965). Poeta, tem publicados os livros Rios de Mim (Secretaria de Cultura, Fortaleza/CE, 1982); Arauto (Edições Dubolso, Sabará/MG, 1988), Exemplos Alados (Letra e Música, Fortaleza/CE, 1997) e Pedra Habitada (AGE, Porto Alegre, 2002).
Fonte: http://www.cronopios.com.br/
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