sábado, junho 03, 2006

NOSSO TEMPO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - EM HOMENAGEM A OSVALDO ALVES



“ NOSSO TEMPO (I a IV)”
Carlos Drummond de Andrade
- A Osvaldo Alves -

“ Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.
Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam.
Os lírios não nascem da lei.
Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra.
Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono,
luz dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos,
nenhum beijo sobe ao ombro para contar-me a cidade dos homens completos.
Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras, irritadas, enérgicas, comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido,
apenas querem explodir.
II
Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.
Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.
Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces e dissipa,
na praia, as palavras.
A escuridão estende-se mas não elimina o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham!
São unhas, anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas, e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário para continuar,
e continuamos.

III
E continuamos.
É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores e velhas paralíticas,
nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se,
pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito,
do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central,
à água que goteja e segreda o incesto,
a bênção,
a partida,
conduz às celas fechadas,
que contêm: papéis?crimes?moedas?
Ó conta, velha preta,
ó jornalista, poeta,
pequeno historiador urbano,
ó surdo-mudo,
depositário de meus desfalecimentos,
abre-te e conta, moça presa na memória,
velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador,
aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal,
colchetes no chão da costureira, luto no braço,
pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes...
E muitos de vós nunca se abriram.
IV
É tempo de meio silêncio
de boca gelada e murmúrio, palavra indireta,
aviso na esquina.
Tempo de cinco sentidos num só.
O espião janta conosco.
É tempo de cortinas pardas, de céu neutro,
política na maçã, no santo, no gozo, amor e desamor,
cólera branda,
gim com água tônica, olhos pintados, dentes de vidro, grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.
No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda aves anunciama glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos. ”
Carlos Drummond de Andrade - 'Biografia' - 1902/1987 )
20/Junho/2005:

Um comentário:

  1. Anônimo2:05 PM

    I really enjoyed looking at your site, I found it very helpful indeed, keep up the good work.
    »

    ResponderExcluir