domingo, maio 07, 2006

A dor que vem da alma


A dor que vem da alma
A cura é um conceito discutível, quando se trata da dimensão psíquica. Ela significa muito mais aprender a lidar com os problemas do que querer resolvê-los de forma definitiva
Inez Lemos
Vivemos uma época de devastação das tradições, dos antigos valores humanos e do ato de rememorar. O mundo industrial apropria-se da ontologia fundamental centrada na essência humana, para impor seu modus vivendi. A vida como evento é coisa rara, pois a tecnologia tomou para si o direito de programar tudo, criando novos ritos e convicções. A que verdade devemos obedecer, à que vem de fora ou a que brota de nossas entranhas? A verdade brota do esquecimento e de nada vale o esforço solitário em tentar alcançá-la; ela não é decorrente dos fatos, mas de algo que está guardado em nosso subterrâneo. O verdadeiro pensamento é aquele que está fora da lógica formal, é pensamento vagabundo, que vaga e circula sem destino, é ele que nos aponta o porto, a saída da selva, pois ao outro, ao pensamento que nos é imposto de fora, só interessa aprofundar nossa desorientação. O que cada um de nós busca, pouco importa, interessa é saber de onde parte o comando dessa busca, se de dentro de nós ou se de fora. Vivemos em um mundo invasor, que entra em nossas casas oferecendo-nos quinquilharias, propondo viagens e intervenções milagrosas. E, entre avalanchas de ofertas, acabamos apenas com a promessa de felicidade. Por onde passa a “cura” que almejamos? Muitos a buscam em consultórios médicos, na crença de que somente a medicina poderá salvá-los. Não pretendo aqui negar sua validade, mas apenas apontar os limites dos tratamentos medicamentosos, quando a dor vem de dentro, da alma. Geralmente, quando um paciente entra em um consultório médico, a impressão que temos é de que ele deixou na sala de espera uma parte do corpo. Alma, desejo, emoções e sensações, tudo isso não importa, pois o corpo que interessa à maioria dos doutores é o biológico. É sabido que o corpo erótico comanda o biológico; o psíquico comanda o somático. E mesmo assim muitos insistem em buscar, apenas no corpo biológico, a solução para os sofrimentos. A cura, se é que ela existe, deve partir de dentro de nós, deve falar do sujeito e não de algo que vem de fora e fala para um outro. A cura é um conceito discutível, pois, quando falamos em cura psíquica, sabemos que ela significa muito mais aprendermos a lidar com os problemas do que querer resolvê-los de forma definitiva. Curar, maturar. O queijo, curamos; a alma, saneamos. Sanear, mudar de lugar. Se existe alguma possibilidade de mudança, ela virá de dentro, do inconsciente, à medida que vamos, por meio do processo analítico, decifrando ditos, acessando saberes. O inconsciente é um saber. A tendência em negar a verdade, em buscar saídas que estejam fora de nós, em um outro que virá nos salvar, Hélio Pellegrino chamou de recalcamento da verdade: “Os meios de comunicação de massa, pressionados no sentido de distrair o povo dos seus verdadeiros problemas, são induzidos a divulgar aquilo que adormenta, aliena, enfraquece, desfibra, de preferência ao que revela, denuncia, desperta e mostra uma realidade que está longe de ser leve e rósea. Somos um país de sofrimento e doença, de ignorância e de miséria, onde a injustiça campeia. Preferimos notícias sobre o beautiful people, sobre os heróis da renda e do consumo, sobre aqueles que criam a ilusão de um triunfo cuja medida está no desnível inumano que separa o triunfador, no alto de seu pináculo, do pequeno homem do povo, no fundo do vale de lágrimas onde rasteja”. Apostamos em tudo, no champanhe do Natal, nas férias em Miami. Mesmo assim, tudo é insuficiente para apaziguar nossas errâncias, pois nossa fome é de amor, atenção, olhares profundos e palavras que soem como mistérios que chegam para ficar. Somos farrapos humanos em busca de carinho, de algo que chega e traz sentido, rompendo rotina e realidade embrutecidas. Queremos poder ser nós mesmos e encontrar um outro que nos veja tal como somos. Isso é luta, trabalho que não se finda, senão o que nos resta é viver outras vidas, vidas que não dizem de nós, e nelas não nos reconhecemos. Como lembra Fernando Pessoa: “De resto, nada em mim é certo e está de acordo comigo próprio”. O desejo embriagante de felicidade faz com que busquemos, muitas vezes em lugar errado, algo para nos sustentar. O ritmo frenético do cotidiano burocrático pode nos levar para uma vida sem graça, burra. O que é dar certo na vida? Acredito que certo é conseguirmos viver seduzidos pela vida, apaixonados pelo que fazemos e pelas escolhas que assumimos e não pelos bens que temos. O bom é nos embriagarmos com nossas escolhas, usufruirmos do entusiasmo e das delícias que delas advêm. Em Hannah Arendt, a vida não é um valor em si, mas algo que só se realiza à medida que insistimos, que não cessamos de interrogar tanto o sentido quanto a ação. A fonte da qual jorra o sentido da vida está em nós, em nossa capacidade de, a partir de nossa história, produzir novas narrativas, novos discursos. O trabalho que a sociedade da velocidade nos propõe dissolve-nos em sua feiúra e mesmice. A narrativa moderna, ao contrapor-se à clássica, torna-se comprometida, uma vez que não se empenha em manter uma certa fidelidade aos sentimentos verdadeiros. O sentimento que interessa investigar é aquele que se renova nos pensamentos, pois a possibilidade do novo está no retorno, no nascimento. Ao investigar o passado, vasculhamos enraizamentos ontológicos que propiciam o advento do saber. Os conflitos existem para ser ultrapassados, interrogados, e, ao nos revoltarmos contra eles, tocamos a possibilidade da cura, que pode estar nessa re-volta. O eterno retorno nietzschiano é menos uma repetição enfadonha e mais uma forma elevada de aquiescência que possamos alcançar. A chance de uma vida autêntica, com um pouco de apaziguamento, exige certo grau de intensidade, de mergulho em nossas águas fétidas. E sair da lama exige mais que se afogar em cálices espumantes, vinhos e carnavais. Ninguém quer perder nada. Perder virou sinônimo de fracasso e esquecemos que ele é parte da condição humana. Na tradição clássica, quando as pessoas sofriam alguma perda, iniciavam um processo de luto e de luta com o sofrimento. Viver a dor. Vivenciá-la, absorvê-la. Sorver, sofrer. Como podemos querer livrar-nos da dor que nos atormenta, de forma rápida e sem luta? A idéia de tratar a dor da alma com panacéias externas virou moda. Buscamos formas rápidas de auto-engano. Descobrir é mais inteligente que encobrir. Toda arte brota do exílio, da experiência de falta, quando emerge da ausência e remete sempre à saudade de um desejo perdido, um sonho não realizado. Assim como o ato de criar, a cura também deve advir do exílio, da experiência do deserto. É lá, no contato com o fracasso, o precário, e na passagem do ontem para o hoje, que nos livramos de nossas amarras, que barramos pulsões indevidas, malsucedidas. A experiência da análise leva o sujeito a navegar em águas poluídas, reconhecendo as ondas que o possam afogá-lo. Curar, desemperrar, desafogar. Abrir espaço para um novo saber. A dimensão dionisíaca da vida está no vigor de nossa fala, na emoção de nosso discurso. Quando falamos o que a moda nos dita, nos distanciamos de Dionísio e nos aproximamos do demônio. A promessa do belo, de Apolo, é uma promessa redentora, estimulante, mas para tocar o belo temos de transitar pelo saber. Sem sabedoria jamais iremos nos curar de nossos horrores, tampouco abandonar o sonho da perfeição. Jamais tocaremos o “em-si-mesmo oculto”. A vida menos sofrida exige que algo pense dentro de nós. Ao sairmos da existência vazia, do tédio e da falta de alegria, descobrimos multidões. A cura é o fim dessa viagem aos confins da alma. Garimpar desejos e se fazer desejante é uma conquista e tanto. Produzir em análise é mudar de posição, é abandonar o que petrifica o mesmo. Curar é entregar-se a viagens de improviso, desvendando paradas e paragens desconhecidas. Acreditar que um novo lugar possa existir exige rebeldia na bagagem. Na mala da cura, devemos levar menos racionalismo, arrogância e auto-suficiência. Ao contrário, ela deve portar a alegria do erro, pois é no amargo privilégio do desacerto que encontramos o traço adequado. O pecado de Narciso reside na pretensão do um. O único destrói-se na ilusão de infinito, porta-se indiferente ao outro e constrói sua vida em sua imagem externa. Vida ex-cêntrica. Narciso não tolera alteridade. Ele exige palco e platéia só para si. Possessivo, não divide a vida, e seu amor é mortífero, tornando o outro presa em vez de companheiro. A vida que se pretende saudável evoca liberdade, flexibilidade, alteridade. E repudia o narcisismo que se acoita nos espelhos dos neuróticos. Passar pela experiência de cura é tocar o âmago. O homem só enfrentará a sujeira de seu porão, quando se aceitar frágil e impotente para, sozinho, iniciar a travessia. O clarão que nos vai livrar das trevas é luz para ser encontrada numa longa noite a dois.
Inez Lemos é psicanalista

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