terça-feira, maio 16, 2006

Crônica de outono no sul do planeta...


Foi-se o verão, no hemisfério sul. Já as tardes são mais curtas e as noites de rebelião caem mais cedo, viram notícia internacional com presídios em guerra na maior cidade do Brasil. Foram-se as luzes das manhãs tão quentes que tiraram da cama, mais cedo e com orgulho, os caminhantes das orlas dos oceanos que circundam tantas terras.
Nas praias da Austrália, disse uma amiga minha que lá viveu, os jovens trabalham nos barcos, nos ancoradouros, pintam e repintam as cores dos verões outonos adentro. É uma forma de estancar a sede de sol. Que virá, com certeza, menos intenso, mais morno, entretanto, com a luz própria do sul.
Um amor que nasceu na África me conta do pôr do Sol ali, mais lindo do mundo, segundo ele, de uma luminosidade inquietante e inesquecível. Para os lados do Índico, talvez haja mesmo tanta gazela correndo livre em seus campos ainda virgens de escuridão da violência humana.
No Chile, ninguém me relatou, eu vi, nas praias de água gelada, há casas subindo pelas encostas como a proteger a paisagem, das sombras que os altos edifícios poderiam fazer nas areias brancas, permitindo que a luz permaneça por muito mais tempo ali, oferecendo vida aos povos que entoam cânticos índios em suas voltas em torno das bandeiras tremulantes.
Há um outono chuvoso e friorento nos mares do sul, e , num país tão diverso de climas, como o Brasilzão se impõe ao mundo, tem águas quentes num nordeste turísitico e pobre, mas rico de promessas de felicidade.Mas, diriam os incautos, felicidade foi-se embora, deve ter debandado com o último verão, aquele em que se prometeu segurança de ir, porque de vir, impossível prometer que se proteja quem chegue agora.
Quem nasce hoje nos partos deste hemisfério, já leva a desvantagem da dívida eterna, da dúvida interna, a quem pagar por isso? Talvez ao norte do planeta, que nos explora e usa? Talvez ao curso da história que se faz de dominadores e dominados? Talvez aos comandantes em chefe dos países grandes? Talvez aos povos que anseiam por amores nos mares do sul?Talvez, se faça justiça com as gentes abaixo da linha do Equador e se absolva dos pecados de nascer?
Aí, será possível ao sul, ter vida própria e canto tribal honesto?
Haja um dia após o outro, entre o verão e o inverno, para que cada outono,de folhas caídas sobre a terra, de frutos colhidos por mãos calosas, por olhares ansiosos de paz interior, para que tudo se restabeleça em cada ser vivente, carente, querente de um sonho realizável.
Foi-se o verão, veio o outono, virá depois, o inverno ou o inferno? Há quem diga que virá a estação do recolhimento para os povos que migram sonhando com a riqueza material.
Haverá um momento, em qualquer época dos anos, em que os homens compreenderão que tudo está no seu lugar de origem, tão completo e farto, dentro de cada um, extremadamente simplória, esta esperança de viver, é mesmo própria da nostalgia do calor que deixou aquecidas ainda nossas almas futuristas e o presente é que conta.Conta e encanta saber que o sul do planeta está outonando, apesar de tudo.
Aparecida Torneros
jornalista
maio de 2006, Rio, Brasil

Nenhum comentário:

Postar um comentário