quarta-feira, maio 24, 2006

AMOR EM VISITA por Helberto Helder

Herberto Helder

Essa cidade, gota sombria
Herberto Helder

O AMOR EM VISITA
Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de
[ sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.
Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma
[ ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas —
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos
[ palpitantes.
Ele — imagem vertiginosa e alta de um certo
[ pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração
[ faminto.
— Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal
[ põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.
Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de
[ sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.
Dai-me um torso dobrado pela música, um
ligeiro pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
— Então cantarei a exaltante alegria da morte.
(...)
De A Colher na Boca (1953-1960)

Caros amigos,Nascido na ilha da Madeira em 1930, o português Herberto Helder de Oliveira freqüentou a Faculdade de Letras de Lisboa e trabalhou como jornalista, bibliotecário, tradutor e locutor de rádio. Começou a escrever desde cedo e, nos anos 50, tornou-se um dos pioneiros do movimento surrealista em Portugal. Embora, depois, tenha se afastado do movimento, sua poesia guarda profundas marcas da estética surrealista.Estreou em 1958 com o livro O Amor em Visita e, desde então, já publicou mais de uma vintena de títulos. Em 1967, Herberto Helder foi julgado no Supremo Tribunal de Lisboa por ter colaborado na edição de Filosofia na Alcova, de Sade. Foi condenado a três anos de prisão (pensa suspensa) e expulso do emprego na Emissora Nacional.Em 1994, com o livro Do Mundo, foi destacado com o Prêmio Pessoa, com uma dotação em dinheiro equivalente a 30 mil dólares. Herberto Helder, como já fizera outras vezes, recusou o prêmio, mantendo sua posição avessa a homenagens. Os poemas mostrados aqui fazem parte da antologia brasileira O Corpo O Luxo A Obra, selecionada e apresentada por Jorge Henrique Bastos. Segundo Bastos, a poesia de Herberto Helder é "decisiva e órfã". Ainda em suas palavras, "a insubmissão de Herberto Helder é única na generalidade da literatura de língua portuguesa". De fato, não há outro poeta com obra similar. O poema caudaloso, freqüentemente dividido em partes, é um traço marcante na obra de Helberto Helder. Nesta apresentação fiquei no dilema: escolher um único texto e prejudicar a diversidade; ou então selecionar partes dos poemas, correndo o risco da mutilação. Venceu a segunda alternativa, que favorece aqui a transcrição de vários trabalhos do poeta, escritos nos anos 50, 60 e 80.

Abraço,

Carlos Machado

Fonte: Poesia.Net

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