quinta-feira, abril 27, 2006

POEMA: FETICHE DO CAPITALISMO


Um pouco mais do que me ofereceu o jornalista Wilson Fadul Filho com o envio de um texto "As leituras de Marx no Século XXI" de Robert Kurz.
Segue abaixo.
José do Vale

FETICHE DO CAPITALISMO
Rio de Janeiro, 26 de abril de 2006 - às 23:30 horas
José do Vale Pinheiro Feitosa

farrapos, trapos espalhados,
carregados pelos ventos,
embebidos nas poças oleaginosas,
salpicado de grãos d´areia,
amassados, amarfanhados de pisadelas,
tangidos e encurralados de merda,
lembram a lágrima enxugada,
têm manchas de suores,
a bandeira do Terceiro Mundo.

jogo, feito, deu preto 16,
tacada encaçapada de especulação,
vermelho, jogo, fichas na mesa,
um gole de whisky, cintura abraçada,
mãos suadas, jogo, olhos arregalados,
rostos insinuantes, perfumes estonteantes,
fichas, mesa, jogo, feito, risco país,
ilhas Cayman, paraísos fiscais, lavem,
sinta o delírio criador de um Deus louco,
eis a alma do arcaico mundo financeiro.

pode o jardim, olhe o céu, alargue as narinas,
sinta a brisa, suavize a alma no gole de água,
tudo que parece a verdade é o seu contrário,
o engano ensina a desgraça irreversível,
teu ser enfeitiçado de parangolés, não é,
nem tu, nem eu e nem ele, tampouco nós,
os zumbis da modernidade capital, andam,
consomem, cagam, adoecem, morrem,
no feitiço farto, em dose homeopática ou não,
que tu julgas ser o único destino humano.

e não é, assim como não és, nem somos,
este mero acaso, esse objeto de desejo,
este repositório de vendas, com bolsos de compra,
esse cliente feito alvo de mensagens infinitas,
tão amplas como as marés, tão inundantes quanto,
tão esvaziada quanto uma bexiga pós-micção,
tão rápida se esgota como uma colite ulcerativa,
em cólicas de gozo que preciso de mais outro,
num ciclo bêbado e viciado, quando dormir é fuga,
sonhar é apego e acordar uma pergunta vazia.

Entre os farrapos dispersados,
e os jogos aleatórios,
respira o capitalismo desde o século XVIII
.

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