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sábado, novembro 27, 2010

O TÚNEL – PERCURSO PELA LITERATURA DE ERNESTO SABATO

27 de novembro de 2010 >>> Isabel De Nonno

No mês em homenagem às produções artísticas Ibero-Americanas no TEMPO, temas a abordar não faltam sobre cinema, design, artes plásticas e literatura. Diante de um universo tão diversificado, escolher uma só área, pessoa, ou obra para lançarmos nosso olhar, é um exercício de abdicação que possui certo grau de dificuldade. Rapidamente, sem pestanejar, proponho que fiquemos com a literatura. Porém, mesmo dentro deste recorte existe um mundo a ser explorado. Nomes como: Gabriel Garcia Márquez, Roberto Bolaño, Octavio Paz, Enrique Vila-Matas, Jorge Luis Borges, Júlio Cortazar, Adolfo Bioy Casares, Manuel Puig, José Saramago, Pablo Neruda e Ernesto Sabato, entre tantos outros que podíamos ficar citando aqui, surgem de forma cascateada em nossas mentes. Todos, com dois pontos em comum: latinos e contemporâneos.

Todavia, são somente esses dois pontos que nos permite colocar esses autores no mesmo caldeirão. Estamos diante de personalidades e obras distintas, e classificá-los, assim, seria, muito provavelmente, empobrecedor. Poderíamos separá-los então, por países (Argentina, México, Chile, Colômbia), por amizade (Vila Matas e Bolaño, Borges e Casares), aqueles que moraram em Paris (Cortázar e Sabato), por estilo literário (conto, poesia, romance) e este post não teria fim. É necessário, pois, recortar ainda mais. Optemos então pela Argentina, e dentro dos autores portenhos, por Ernesto Sabato.

Sabato tem doutorado em física, fez parte da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas, e hoje em dia se dedica exclusivamente às artes plásticas, não só por prazer, mas por uma doença que o impede de ler e escrever. Autor de diversas obras, destacam-se: O túnel, Sobre heróis e tumbas, O escritor e seus fantasmas e Antes do fim, todos lançados no Brasil pela Cia.das Letras. Seu primeiro romance publicado foi O túnel, em 1948, e conta a história de Juan Pablo Castel e María Iribarne. Divido em 39 capítulos curtos, como se fossem pequenos contos, a história do pintor que se apaixona por uma moça misteriosa que julga ser umas das poucas pessoas, se não a única, a entendê-lo, começa pelo fim, e se desenvolve mostrando para o leitor um caso de paixão, obsessão e ciúme. Quanto mais Juan força María a se expor, mais esquiva ela se torna, e mais doentio o comportamento dele fica. Pode parecer uma história de amor banal, com obviamente um final não tão feliz. Porém, O túnel não trata disso. Sabato explica que a ideia inicial era escrever um conto sobre um pintor que enlouquecia com a incapacidade de comunicação e compreensão com uma mulher que, levianamente, ele achou cumpridora destas funções. Segundo o próprio, seria um tema metafísico, que acabou voltando-se para questões mundanas, pertinentes à realidade amorosa – “É que o seres de carne e osso não podem jamais representar as angústias metafísicas sob o estado de ideias puras: fazem-no sempre encarnando essa ideias, obscurecendo-as com sentimentos e paixões”.

O resultado é uma narrativa que fala acima de tudo de solidão, idealizações e uma busca por um outro que entenda nossa essência. O túnel é de uma beleza tocante, de uma paixão frenética e de um existencialismo arrebatador. Talvez seja por isso, que dentro de tantas escolhas que poderíamos ter feito, este livro específico foi o primeiro a surgir claramente em nossas cabeças.

“E às vezes coincidia de eu passar diante de uma de minhas janelas e ela estar à minha espera, muda e ansiosa (por que à minha espera? por que muda e ansiosa?); mas às vezes ela não chegava a tempo ou se esquecia deste pobre ser enclausurado, e então, com o rosto apertado contra o muro de vidro, eu a via ao longe sorrir ou dançar despreocupadamente ou, o que era pior, não a via em absoluto e a imaginava em lugares inacessíveis ou vis. E então sentia que meu destino era infinitamente mais solitário que o imaginado”.

FONTE: TEMPO FESTIVAL
http://tempofestival.com.br/
http://tempofestival.com.br/simultaneo/2010/11/27/o-tunel-percurso-pela-literatura-de-ernesto-sabato/

sábado, novembro 13, 2010

A LUA

Há tanta solidão nesse ouro.

A lua das noites não é a lua
do primeiro Adão. Os longos séculos
da vigília humana encheram-na
de antigo pranto. Olha para ela. É o teu espelho.

Jorge Luis Borges
"La Moneda de Hierro"

(1976)
 
FONTE: Fel de cão - Ourém

http://feldecao.blogspot.com/
EM: http://feldecao.blogspot.com/2010/09/jorge-luis-borges_25.html

domingo, outubro 24, 2010

O que jaz oculto na poesia de Jaumir Andrade (II)

Publicação: 24 de Outubro de 2010 às 00:00

Nelson Patriota [ Escritor ]

Faz falta à bibliografia do escritor Luís da Câmara Cascudo uma coletânea de apresentações e prefácios, dos tantos que escreveu, nos moldes do livro “Prólogos”, do argentino Jorge Luis Borges. Tal obra serviria ao menos para desmistificar a aura de apologista acrítico que cerca a glória póstuma do mestre potiguar.

Certamente não é um apologista acrítico o autor que subscreveu a Introdução de “Demopoesia”, livro de estreia do poeta Jaumir Andrade, escrito no verdor dos seus vinte e poucos anos e publicado pelo próprio poeta em 1970. No curto espaço de uma lauda, Cascudo evoca as origens campestres do poeta para compará-lo aos fenômenos mais indóceis da natureza: “Os tufões latino-americanos têm nome. Este se chama JAUMIR ANDRADE”. Em seguida, atenuando a hipérbole, descreve-o como “Ventania que atravessou caatingas e carrascais, jardim em flor, brejo com sapo, lama e lodo, tabuleiros com mandacarus e recantos com cravos brancos e açucenas azuis”.

A rigor, nada do que ocorre à engenhosa imaginação de Cascudo é excessivo, se confrontado com o que verseja “Demopoesia”. Suas páginas são atravessadas por contrastantes cenas da vida rural, a começar pelo poema “Nordeste, Nordeste” que escancara o livro, despejando sobre o desavisado leitor um conjunto de imagens cruas, duras, ásperas como a rajada do vento e a impudicícia da miséria. Em seus antípodas, visualiza-se um rebanho cantante com um padre à frente. Em seu desfecho, é o próprio poeta quem oferece, como promessa de redenção para a desdita nordestina, seu braço, “um oásis para o mundo inteiro”.

A utopia socialista se faz presente em “Demopoesia” (não é por acaso que o poeta incorreu nesse neologismo de étimo grego) como uma tábua de salvação para quem perdeu a crença nos céus e vive assombrado com a contiguidade do inferno. É, portanto, para exorcizá-lo de todo que Jaumir recolhe esperanças verdes de uma paisagem onde só vicejam pedras: “As cantigas aromam os caminhos, / no domingo azul de flavo sol. // É feriado desfrutado num jardim lunar. // De cada ramo de roseira, / emana um ramalhete de estrelas. // São as bodas de todos [...] (O sonho)”.

O mesmo otimismo perpassa o lírico “Emoção”, poema que destila confiança num amanhã que, infelizmente, o poeta só conheceria em escasso sortimento numa vida, em vários sentidos, em conflito com os valores maiores da ordem burguesa. A certa altura, dirá: “É preciso que se viva, / peito afeito à rebeldia / e a certeza da cantiga / derramada em cada olhar [...] É o dia da redenção [...]”. O poeta não poderia resumir melhor seu modus vivendi, suas expectativas quanto ao futuro. Ecos desse ideário repercutem em “A Federico”, poema cujo início declina: “Ninguém te esqueceu / nem te esqueceu este / pequeno poeta potiguar [...]”.

Tal qual Drummond, Jaumir Andrade esteve atento ao inesperado e viu não uma rosa, mas uma poesia, relampejar na lama, “a cantar um vulcão latino-americano / profetizando sua breve erupção, / donde brotarão punhais de ramos, / ternuras, trovões verdes, escravidão, / podre orvalho e radiante escuridão [...]”. Em “Meu poema” resumirá alguns “princípios” poéticos: “Mais duro / que eu, / estará sempre / meu poema / cara a cara / com o presente. / Tua fome nojenta / de felicidade / teus clássicos machadianos, / teu coração / desempregado, / tuas obras-primas / chopinianas, / tua solidão burguesa, / tua filha deputante / extasiará / o cronista social / mas enojará meu poema que / é feio e magro, / acre e oco / roído de cupim, / desgastado / e analfabeto / qual minha terra”.

A forte impressão que a poesia de Jaumir Andrade causou a Cascudo seria compartilhada em igual medida por Esmeraldo Siqueira e Rômulo Wanderley, dois nomes dos mais importantes para a crítica de poesia em solo potiguar em sua época.

FONTE: Tribuna do Norte - Natal

http://tribunadonorte.com.br/

FOTO: portalsaofrancisco.com.br

sábado, outubro 23, 2010

El arte de perdurar y la poesía de sobremesa

Javier Aranda Luna

Dos de los escritores hispanoamericanos más importantes del siglo XX fueron, son, Alfonso Reyes y Jorge Luis Borges. Borges con sus cuentos y poemas renovó la literatura y él reconoció en Reyes a su maestro. Al más grande estilista”, según escribió, de la lengua castellana.

Existen varios registros en ensayos y entrevistas en los que el poeta argentino dejó constancia de su admiración por el escritor mexicano. Y no exageraba: Alfonso Reyes escribía con igual perfección y esmero, lo mismo un ensayo sobre la literatura griega, que el ‘recado para un jardinero.

Reyes fue, sin hipérbole, el escritor de la prosa perfecta, el poeta cuyas arquitecturas verbales eran semejantes a los monumentos clásicos: piezas sin imperfecciones, sin sobras ni ausencias, redondos como una esfera, escribió Borges sobre el escritor regiomontano:

“Reyes, la indescifrable Providencia
que administra lo pródigo y lo parco
nos dio a unos el sector y el arco
pero a ti la total circunferencia”

Y a pesar de ello, sólo uno de los dos escritores, al parecer, conocerá esa eternidad –la única– que otorgan los lectores. El otro estará condenado al olvido o a vivir en los corredores de las academias o en los gozos secretos de no muchos escritores. Reyes, me han dicho algunos jóvenes aficionados a las letras y que están al día de las novedades literarias, es un escritor de otra época, que ya tuvo su momento, que ya fue. Injusto o no, el comentario revela que Alfonso Reyes difícilmente alcanzará, pese a su genio literario, la universalidad ya alcanzada por Borges.

Hugo Hiriart acaba de publicar un rico ensayo sobre ese misterio literario que recoge el título de su libro: El arte de perdurar.

Hiriart compara ensayos de ambos escritores no sólo para entender mejor a sus autores sino para responder a una pregunta que no pocos nos hemos formulado: “¿por qué Borges alcanzó una gloria literaria que le ha sido negada a Reyes?” “¿Por qué Reyes no es universalmente famoso?” ¿Será porque vivió más en la realidad de los libros que en la realidad del mundo como vislumbró Luis Cardoza y Aragón?

Reyes, escribe Hiriart en el libro publicado por Almadía, tuvo maestría pero no representatividad. Tuvo demasiadas simpatías más que diferencias. “Se pasó de civilizado. Y su figura se hizo borrosa. No logró personalizar su maestría.” “Lo opuesto a lo perdurable es, no lo mal hecho o lo no magistral, sino lo borroso.”

Borges en cambio, pedante en sus primeros ensayos y reiterativo en los temas de sus cuentos y poemas logró singularizarse como pocos: sus espejos, laberintos, inventarios del tiempo y lo inverosímil lo convirtieron en un escritor único e irrepetible: en el poeta ciego con visiones luminosas. Tiene razón Hiriart: maestría sin representatividad es ecuación para el olvido, antídoto contra la memoria.

Y para confirmar su hipótesis de trabajo Hugo Hiriart se acercó en El arte de perdurar a otro escritor: George Orwell, quien con más garra que maestría se ha ido imponiendo de manera constante como uno de los grandes maestros del ensayo, como uno de los mejores prosistas de todos los tiempos.

Lo perdurable en el arte no es la maestría, “que muchos pueden tener”, sino la singularidad: “Reyes tuvo maestría, pero no singularidad ni claridad representativa”.

Esa falta de representatividad, ¿se debe a que Reyes vivió más cerca de la realidad de los libros que de la del mundo, como sugiere Luis Cardoza y Aragón? Reyes, según el poeta guatemalteco, nunca pareció resuelto a algo que pudiera perturbarlo personalmente o en su obra, y Octavio Paz nos recordó hace tiempo que en la poesía del autor de Visión de Anáhuac no existe hielo ni llama. Es una tibia poesía de sobremesa.

FONTE: La Jornada (México)

http://www.jornada.unam.mx/
 
FOTO: edicionescalyarena.com.mx

sábado, outubro 09, 2010

Roubando uma ideia - ou “A perdição da semana”

Este post nasce de uma ideia assumidamente roubada, mas evoco em minha defesa o fato de que esperei bastante para ver se o verdadeiro dono ia usar antes de catar pra mim. No ano passado, a editora do Segundo Caderno, Cláudia Laitano, também conhecida como “a chefe”, lembrou em seu blog o título de um dos romances mais conhecidos de Antônio Carlos Resende: Magra, mas não Muito, as Pernas Sólidas, Morena, como um título que já encerra em si a descrição de uma mulher por quem o narrador se encanta – e, no caso desse livro em particular, se perde. Vocês podem ler o post completo aqui. Cláudia comentava ali o quanto a fascinavam as descrições feitas na literatura por personagens homens para as mulheres com as quais estão obcecados. A Cláudia também sapecou uma descrição de Capitu aos olhos do Bentinho apaixonado e prometeu dar seguimento à série.

Como já passou mais de um ano e o projeto lá no Agora Eu Era ficou só nesse primeiro post, assumo eu a incumbência por aqui, declinando uma vez por semana belas e fascinantes descrições de mulheres magnéticas, exuberantes, misteriosas, por vezes lascivas, mas sempre um ímã para a perdição de um pobre homem menos esperto do que se considera, como os casos dos livros que virão por aí no futuro. Fica o convite a vocês que apontem suas próprias descrições para a seção “Perdição da Semana”.

Como a Cláudia inaugurou o projeto há um ano com Machado de Assis, aqui eu teria que encontrar alguém de igual calibre. E coincidentemente me veio o candidato ideal enquanto folheava a nova edição de O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges, pela Companhia das Letras, para um comentário que queria fazer - e ao qual devo voltar em texto futuro. O segundo conto do livro, Ulrica, é, segundo o próprio Borges, o único exemplo de tratamento do tema amoroso em sua prosa (tema que, não obstante, era comum em sua poesia). Em um congresso na cidade inglesa de York, o intelectual colombiano Javier Otárola encontra a norueguesa Ulrica e vive com ela um romance breve porém intenso que conjuga o fascínio físico com o intelectual. Um caso que o marca profundamente, uma vez que ele narra a história de algum ponto no futuro. E é assim que Javier descreve Ulrica em seu relato, equilibrando a erudição e a paixão - e não escapando, mesmo em se tratando de Borges, de uma generalização que a mim me pareceu ingênua, vocês vão notar qual:

“Foi então que olhei para ela. Uma linha de William Blake fala de moças de suave prata ou de furioso ouro, mas em Ulrica estavam o ouro e a suavidade. Era leve e alta, de traços afilados e olhos cinza. Menos que seu rosto me impressionou seu ar de tranquilo mistério. Sorria com facilidade e o sorriso parecia distanciá-la. Vestia-se de preto, o que é raro nas terras do Norte, que procuram alegrar com cores o ambiente apagado. Falava um inglês nítido e acentuava levemente os erres. Não sou observador; essas coisas fui descobrindo pouco a pouco.“

Ulrica, de Jorge Luis Borges. em O Livro de Areia (Companhia das Letras, 2009, p.18)

por Carlos André Moreira
Nova descrição na semana que vem.

 
FONTE: Zero Hora

http://wp.clicrbs.com.br/

FOTO: watch the sun set

By: Stanislav Volgushev
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terça-feira, maio 12, 2009

La memoria de los Cervantes


Cultura
La memoria de los Cervantes
Unas jornadas en el Aula de Cultura de Cajamurcia recordarán la obra y vida de Borges, Torrente Ballester, Roa Bastos y José Hierro
11.05.09 -
N.S.
MURCIA

Los tradicionales Diálogos Cervantinos, que organiza anualmente el profesor -ya emérito- Victorino Polo, con el patrocinio de la Fundación Cajamurcia, estarán en esta edición dedicados a la memoria, al recuerdo y homenaje, a cuatro grandes premios Cervantes ya fallecidos: José Hierro (lo logró en 1998), Augusto Roa Bastos (1989), Jorge Luis Borges (1979) y Gonzalo Torrente Ballester (1985). Algunos de ellos visitadores habituales de Murcia.
Profesores, escritores y gentes diversas de la cultura hablarán sobre estos cuatro gigantescos Cervantes en un encuentro «esperado para compartir textos hermosos, imágenes fulgurantes, libros llenos de sugerencias, beneméritos escritores que hicieron posible nuestra instrucción y nuestro gozo», según explica el profesor Polo. «Los cuatro fueron y son formidables. En su momento, famosos. Y ahora también, quizá un tanto a la sombra de los lectores jóvenes», argumenta. Razón por la que, dice Victorino, hay que volver a hablar de ellos «para que no desaparezca el recuerdo».
Entre los participantes destaca la presencia de Isabel Torrente Ballester, profesora de Literatura y nieta del autor de La saga/fuga de JB y Los gozos y las sombras.
Las jornadas finalizarán el jueves 14 de mayo con la entrega del premio Julio Cortázar de Narración Breve 2008 a la escritora argentina Adriana Raquel Romero por el relato Por algún lado hay que salir, la historia de un suicidio narrado -casi como un atestado- por una camarera, testigo del infortunio.
Homenaje: José Hierro y Augusto Roa Bastos
Homenaje: Jorge Luis Borges y Gonzalo Torrente Ballester
Victorino Polo
Alberto Portera
19:00 horas.

FONTE (foto incluída): La Verdad (Murcia) - Murcia,Murcia,Spain

sábado, maio 02, 2009

O retorno inesperado do mestre Julio Cortázar


O retorno inesperado do mestre Julio Cortázar
Após 25 anos de sua morte, o escritor argentino ressurge numa obra que reúne textos inéditos: Papeles Inesperados (Papéis Inesperados), uma boa razão para relembrar sua literatura.

PSTU- cultura Opinião Socialista 2-5-2009


No dia 12 de abril de 1984, a leucemia interrompeu a vida de um dos maiores escritores modernos da América Latina e do mundo. O argentino Julio Cortázar cravou seu nome na literatura pela originalidade dos textos e por uma impressionante habilidade na arte de narrar.

Hoje, 25 anos depois de sua morte, Cortázar continua surpreendente. A editora espanhola Alfaguara prevê para maio o lançamento de uma obra que reúne escritos inéditos do autor. Com o título de Papeles Inesperados (Papéis Inesperados), o livro marca o retorno de um verdadeiro imortal.

Direto do baú
Foi na semana do Natal de 2006 que a primeira mulher de Julio Cortázar, Aurora Bernárdez, encontrou um conjunto de papéis antigos, guardados dentro de um baú com documentos do escritor. A partir daí, ela entrou em contato com Carlos Álvarez, um grande conhecedor da literatura do argentino. Durante um ano, Aurora Bernárdez e o especialista trabalharam para organizar e editar todo o material encontrado.

O resultado desse difícil trabalho recebeu o nome de Papeles Inesperados. O título é bem apropriado, já que ninguém esperava uma obra inédita de Cortázar. Com quase 400 páginas, o livro está previsto para ser lançado em maio em todos os países de língua espanhola, mas ainda não tem data de publicação em português.

Os textos inéditos de Julio Cortázar foram escritos entre os anos de 1930 e 1980 e revelam uma diversidade na produção do escritor. São 11 narrativas, quatro autoentrevistas, 13 poemas, um capítulo da obra O Livro de Manuel, além de reflexões sobre pintura, música, fotografia e escultura.

Há também no volume o Discurso Del Dia de la Independencia, que Cortázar recitou para amigos em 1938, e a narrativa Manuscrito Hallado Junto a una Mano (Manuscrito achado junto a uma mão). Papeles Inesperados parece reunir toda a genialidade do autor argentino.

Um passeio pelo labirinto de Cortazar
A obra inédita reacende a curiosidade sobre a vida e a literatura de Julio Cortázar. Filho de argentinos, o escritor nasceu na Bélgica em 26 de agosto de 1914. Chegou à terra natal dos pais aos quatro anos de idade, depois da Primeira Guerra Mundial. Criado pela mãe, por uma tia e uma avó, viveu quase toda a infância em Banfield, na Argentina.

Era uma criança triste e ficava doente com frequência, o que o fez passar muito tempo na cama na companhia de vários livros. Em 1935, formou-se em Letras e se tornou professor. No ano de 1951, aos 37 anos, foi para Paris por discordar dos mandos e desmandos do general Perón. Ao visitar Cuba, em 1963, aumentou seu envolvimento com a política. Sete anos depois, foi ao Chile prestar solidariedade ao governo de Salvador Allende.

No ano seguinte, Julio Cortázar e outros escritores se desiludiram com Fidel Castro após questionarem o misterioso sumiço do poeta Heberto Padilla. A morte de sua segunda esposa, Carol Dunlop, em 1982, deixou o escritor em depressão. Sem condições de lutar contra a leucemia, Cortázar morreu em 1984 e foi enterrado no cemitério de Montparnasse, na França, ao lado da esposa.

Julio Cortázar foi um mestre da narrativa curta e da prosa poética. Comparado a Jorge Luis Borges, Edgar Allan Poe e Tchekhov, o escritor se dedicou a uma forma singular de fazer literatura na América Latina. Rompendo com modelos clássicos, construiu narrações que fugiam da linearidade temporal e deu a seus personagens autonomia e uma profundidade psicológica nunca vista antes.
O vasto trabalho de Cortázar reúne romances, contos e poesias. Destaque para as obras Bestiário (1951), As Armas Secretas (1959), Os Prêmios (1960), Histórias de Cronópios e de Famas (1962), Modelo Para Armar (1968), Octaedro (1974) e O Livro de Manuel (1973).

Entretanto, O Jogo da Amarelinha (1963) é considerado sua obra-prima, na qual é possível realizar inúmeras leituras. O livro questiona profundamente a humanidade, seus ódios e suas paixões. A originalidade e a habilidade narrativa de Cortázar se encontram nesta obra para formar um verdadeiro labirinto literário.

Quando o livro inédito Papeles Inesperados chegar às livrarias, os leitores deste autor argentino terão outra oportunidade de adentrar mais profundamente em seu mundo fantástico. Isso porque a arte de Julio Cortázar é daquelas que não reconhecem as fronteiras entre o real e a fantasia. Além, é claro, de também não conhecerem as fronteiras do tempo. Mais uma surpresa do gênio que escrevia como quem toca jazz: jogando com o improviso.

FONTE (foto incluída): kaosenlared.net - Barcelona,Cataluña,Spain
http://www.kaosenlared.net/
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