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sexta-feira, novembro 19, 2010

João de Calais: do cordel à literatura de quadrinhos

Cantam nautas choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas.

(Augusto dos Anjos. Barcarola)


A história de João de Calais pertence ao ciclo de cordel denominado “morto agradecido”. Câmara Cascudo inclui este romance entre os “Cinco Livros do Povo”, juntamente com “Donzela Teodora”, “Imperatriz Porcina”, “Roberto do Diabo” e “Princesa Megalona”.

A origem de João de Calais é francesa. Atribui-se à Madeleine Angélique Poisson a autoria da história. Casando-se com um espanhol, a escritora passou a ser conhecida como Madame de Gómez. No Brasil, a história de João de Calais foi divulgada por Câmara Cascudo ( prosa) e pelos cordelistas (poesia).

Na década de 1990, a editora Scipione publicou oito contos tradicionais de literatura popular, reescritos e ilustrados por Ricardo Azevedo e Ciça Fittipladi. “João de Calais” integra essa coleção.

Em 2010, a editora FTD lançou “História do navegador João de Calais e de sua amada Constança”, versão de Arievaldo Viana. Os textos da Scipione eram em prosa, a nova edição da FTD alia o cordel (sextilhas) à literatura de quadrinhos.

Arievaldo Viana, conhecido cordelista cearense, criou o texto verbal e Jô Oliveira fez as ilustrações. Nos dados biográficos do cordelista e do ilustrador, aparecem essas informações: Arievaldo Viana nasceu em uma fazenda do Ceará nas proximidades de Quixeramobim e sua diversão de criança era ouvir a avó Alzira ler os folhetos de cordel. Jô Oliveira nasceu em Pernambuco, mas passou parte de sua infância em Campina Grande, Paraíba. Nos idos de 1950, envolveu-se com quadrinhos e cordel e esse gosto, adquirido na infância, perdura até hoje. Depois dessas informações, caminhemos em direção ao livro de Arievaldo Viana e Jô Oliveira.

Para escrever a história de João de Calais, Arievaldo partiu do texto em prosa apresentado por Câmara Cascudo e procurou uma maneira fácil de ser compreendido por leitores de “qualquer idade... dos oito aos 80 anos” (o cordel). Quando criança, teve contato com a versão de Severino Borges da Silva, uma edição da Luzeiro do Norte, folheteria de João José da Silva.

A história quadrinizada se inicia com invocação às musas e o poeta pede a proteção divina para falar sobre João de Calais. Embora o texto original tenha vindo da França, o cordelista prefere a pronúncia portuguesa – Calais e não Calé.

Dirigindo-se aos leitores, afirma que vai falar do amor de Constança e das batalhas de João. Dois motivos quase universais aparecem na história – “o morto agradecido” e a “esposa resgatada”.

No universo dos personagens, destacam-se: João de Calais, Constança e a prima Isabel, o pai de João de Calais, o rei de Palermo, pai de Constança, e o sobrinho do rei – Florimundo, “um jovem mau e egoísta/ sujeito péssimo e imundo” e um morto insepulto.

É uma história marcada por aventuras marítimas, pirataria, traições e ciúmes.

O traço vigoroso de Jô Oliveira captou os momentos de tensão e os personagens revelam aflição no olhar, medo diante das adversidades e assombro perante fatos estranhos. As cores fortes, com predomínio do amarelo e vermelho, condizem com o sol tropical do Nordeste.

Este folheto tem despertado a atenção dos estudiosos da literatura de cordel. A professora Neuma Fechine Borges, na década de 1970, analisou-o à luz da semiótica na sua dissertação de mestrado na Universidade Federal da Paraíba. O trabalho da professora Neuma Fechine foi apresentado em diversas cidades brasileiras, em Portugal e na França (Universidade de Poitiers).

Neuma Fechine não teve a oportunidade de conhecer a versão de Arievaldo Viana, partiu antes do tempo, mas, certamente, iria gostar de saber que o folheto de Severino Borges foi revisitado por um cordelista jovem que imprimiu uma nova feição à velha história de João de Calais.

FONTE: Vermelho

http://www.vermelho.org.br/
http://www.vermelho.org.br/ce/noticia.php?id_noticia=141862&id_secao=61

domingo, outubro 24, 2010

O que jaz oculto na poesia de Jaumir Andrade (II)

Publicação: 24 de Outubro de 2010 às 00:00

Nelson Patriota [ Escritor ]

Faz falta à bibliografia do escritor Luís da Câmara Cascudo uma coletânea de apresentações e prefácios, dos tantos que escreveu, nos moldes do livro “Prólogos”, do argentino Jorge Luis Borges. Tal obra serviria ao menos para desmistificar a aura de apologista acrítico que cerca a glória póstuma do mestre potiguar.

Certamente não é um apologista acrítico o autor que subscreveu a Introdução de “Demopoesia”, livro de estreia do poeta Jaumir Andrade, escrito no verdor dos seus vinte e poucos anos e publicado pelo próprio poeta em 1970. No curto espaço de uma lauda, Cascudo evoca as origens campestres do poeta para compará-lo aos fenômenos mais indóceis da natureza: “Os tufões latino-americanos têm nome. Este se chama JAUMIR ANDRADE”. Em seguida, atenuando a hipérbole, descreve-o como “Ventania que atravessou caatingas e carrascais, jardim em flor, brejo com sapo, lama e lodo, tabuleiros com mandacarus e recantos com cravos brancos e açucenas azuis”.

A rigor, nada do que ocorre à engenhosa imaginação de Cascudo é excessivo, se confrontado com o que verseja “Demopoesia”. Suas páginas são atravessadas por contrastantes cenas da vida rural, a começar pelo poema “Nordeste, Nordeste” que escancara o livro, despejando sobre o desavisado leitor um conjunto de imagens cruas, duras, ásperas como a rajada do vento e a impudicícia da miséria. Em seus antípodas, visualiza-se um rebanho cantante com um padre à frente. Em seu desfecho, é o próprio poeta quem oferece, como promessa de redenção para a desdita nordestina, seu braço, “um oásis para o mundo inteiro”.

A utopia socialista se faz presente em “Demopoesia” (não é por acaso que o poeta incorreu nesse neologismo de étimo grego) como uma tábua de salvação para quem perdeu a crença nos céus e vive assombrado com a contiguidade do inferno. É, portanto, para exorcizá-lo de todo que Jaumir recolhe esperanças verdes de uma paisagem onde só vicejam pedras: “As cantigas aromam os caminhos, / no domingo azul de flavo sol. // É feriado desfrutado num jardim lunar. // De cada ramo de roseira, / emana um ramalhete de estrelas. // São as bodas de todos [...] (O sonho)”.

O mesmo otimismo perpassa o lírico “Emoção”, poema que destila confiança num amanhã que, infelizmente, o poeta só conheceria em escasso sortimento numa vida, em vários sentidos, em conflito com os valores maiores da ordem burguesa. A certa altura, dirá: “É preciso que se viva, / peito afeito à rebeldia / e a certeza da cantiga / derramada em cada olhar [...] É o dia da redenção [...]”. O poeta não poderia resumir melhor seu modus vivendi, suas expectativas quanto ao futuro. Ecos desse ideário repercutem em “A Federico”, poema cujo início declina: “Ninguém te esqueceu / nem te esqueceu este / pequeno poeta potiguar [...]”.

Tal qual Drummond, Jaumir Andrade esteve atento ao inesperado e viu não uma rosa, mas uma poesia, relampejar na lama, “a cantar um vulcão latino-americano / profetizando sua breve erupção, / donde brotarão punhais de ramos, / ternuras, trovões verdes, escravidão, / podre orvalho e radiante escuridão [...]”. Em “Meu poema” resumirá alguns “princípios” poéticos: “Mais duro / que eu, / estará sempre / meu poema / cara a cara / com o presente. / Tua fome nojenta / de felicidade / teus clássicos machadianos, / teu coração / desempregado, / tuas obras-primas / chopinianas, / tua solidão burguesa, / tua filha deputante / extasiará / o cronista social / mas enojará meu poema que / é feio e magro, / acre e oco / roído de cupim, / desgastado / e analfabeto / qual minha terra”.

A forte impressão que a poesia de Jaumir Andrade causou a Cascudo seria compartilhada em igual medida por Esmeraldo Siqueira e Rômulo Wanderley, dois nomes dos mais importantes para a crítica de poesia em solo potiguar em sua época.

FONTE: Tribuna do Norte - Natal

http://tribunadonorte.com.br/

FOTO: portalsaofrancisco.com.br