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domingo, outubro 24, 2010

O que jaz oculto na poesia de Jaumir Andrade (II)

Publicação: 24 de Outubro de 2010 às 00:00

Nelson Patriota [ Escritor ]

Faz falta à bibliografia do escritor Luís da Câmara Cascudo uma coletânea de apresentações e prefácios, dos tantos que escreveu, nos moldes do livro “Prólogos”, do argentino Jorge Luis Borges. Tal obra serviria ao menos para desmistificar a aura de apologista acrítico que cerca a glória póstuma do mestre potiguar.

Certamente não é um apologista acrítico o autor que subscreveu a Introdução de “Demopoesia”, livro de estreia do poeta Jaumir Andrade, escrito no verdor dos seus vinte e poucos anos e publicado pelo próprio poeta em 1970. No curto espaço de uma lauda, Cascudo evoca as origens campestres do poeta para compará-lo aos fenômenos mais indóceis da natureza: “Os tufões latino-americanos têm nome. Este se chama JAUMIR ANDRADE”. Em seguida, atenuando a hipérbole, descreve-o como “Ventania que atravessou caatingas e carrascais, jardim em flor, brejo com sapo, lama e lodo, tabuleiros com mandacarus e recantos com cravos brancos e açucenas azuis”.

A rigor, nada do que ocorre à engenhosa imaginação de Cascudo é excessivo, se confrontado com o que verseja “Demopoesia”. Suas páginas são atravessadas por contrastantes cenas da vida rural, a começar pelo poema “Nordeste, Nordeste” que escancara o livro, despejando sobre o desavisado leitor um conjunto de imagens cruas, duras, ásperas como a rajada do vento e a impudicícia da miséria. Em seus antípodas, visualiza-se um rebanho cantante com um padre à frente. Em seu desfecho, é o próprio poeta quem oferece, como promessa de redenção para a desdita nordestina, seu braço, “um oásis para o mundo inteiro”.

A utopia socialista se faz presente em “Demopoesia” (não é por acaso que o poeta incorreu nesse neologismo de étimo grego) como uma tábua de salvação para quem perdeu a crença nos céus e vive assombrado com a contiguidade do inferno. É, portanto, para exorcizá-lo de todo que Jaumir recolhe esperanças verdes de uma paisagem onde só vicejam pedras: “As cantigas aromam os caminhos, / no domingo azul de flavo sol. // É feriado desfrutado num jardim lunar. // De cada ramo de roseira, / emana um ramalhete de estrelas. // São as bodas de todos [...] (O sonho)”.

O mesmo otimismo perpassa o lírico “Emoção”, poema que destila confiança num amanhã que, infelizmente, o poeta só conheceria em escasso sortimento numa vida, em vários sentidos, em conflito com os valores maiores da ordem burguesa. A certa altura, dirá: “É preciso que se viva, / peito afeito à rebeldia / e a certeza da cantiga / derramada em cada olhar [...] É o dia da redenção [...]”. O poeta não poderia resumir melhor seu modus vivendi, suas expectativas quanto ao futuro. Ecos desse ideário repercutem em “A Federico”, poema cujo início declina: “Ninguém te esqueceu / nem te esqueceu este / pequeno poeta potiguar [...]”.

Tal qual Drummond, Jaumir Andrade esteve atento ao inesperado e viu não uma rosa, mas uma poesia, relampejar na lama, “a cantar um vulcão latino-americano / profetizando sua breve erupção, / donde brotarão punhais de ramos, / ternuras, trovões verdes, escravidão, / podre orvalho e radiante escuridão [...]”. Em “Meu poema” resumirá alguns “princípios” poéticos: “Mais duro / que eu, / estará sempre / meu poema / cara a cara / com o presente. / Tua fome nojenta / de felicidade / teus clássicos machadianos, / teu coração / desempregado, / tuas obras-primas / chopinianas, / tua solidão burguesa, / tua filha deputante / extasiará / o cronista social / mas enojará meu poema que / é feio e magro, / acre e oco / roído de cupim, / desgastado / e analfabeto / qual minha terra”.

A forte impressão que a poesia de Jaumir Andrade causou a Cascudo seria compartilhada em igual medida por Esmeraldo Siqueira e Rômulo Wanderley, dois nomes dos mais importantes para a crítica de poesia em solo potiguar em sua época.

FONTE: Tribuna do Norte - Natal

http://tribunadonorte.com.br/

FOTO: portalsaofrancisco.com.br

sexta-feira, outubro 15, 2010

Lições de Neruda sobre a morte lenta

Publicação: 03 de Outubro de 2010 às 00:00

Nelson Patriota - escritor

São inumeráveis os modos de viver, como dão mostras os tantos retratos da história da sociedade humana, de hoje e de ontem, quer no rico Norte, quer no contraditório Sul. Vive-se em palacetes como em favelas, em casas de alvenaria e em mansões suntuosas, em abrigos improvisados ou debaixo de uma ponte, logo que a enchente que devastou a cidade se consuma.

Se são diversos os modos de viver, não serão menores os de morrer, sobremaneira se se trata de morrer lentamente. A esse respeito, o escritor Valério Mesquita, com a habitual perspicácia que marca seus textos não humorísticos, citou em seu artigo publicado nesta TN na semana passada, um verso do chileno Pablo Neruda comentando três formas de se morrer lentamente: evitando-se uma paixão, não se permitindo pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos, repetindo-se todos os dias os mesmos trajetos. Pode-se supor, então, que atendendo às recomendações implícitas nos conselhos do poeta, alcance-se uma idade longeva.

Por outro lado, pode-se aplicar a receita nerudiana aos cenários do momento. Foi com esse procedimento que Valério esboçou um conjunto de joco-sérios cenários da vida social brasileira em que inevitavelmente se converge para uma morte lenta.

Retomando, todavia, o tríduo nerudiano, é possível se perceber aí que o que está em causa não são os meios de se alcançar uma vida longa. Nessa área também não reina consenso entre médicos, xamãs, conselheiros alimentares e pregadores religiosos. O que apontam os versos do poeta citados por Valério é, antes, um tipo de morte que parece se apossar daqueles que se negam aos arroubos da paixão, ou que insistem em seguir cegamente os conselhos sábios ou, ainda, que nunca se permitem fugir aos hábitos longamente cultivados. Em qualquer desses casos, incorre-se numa morte lenta, como evidencia o poeta de “Canto Geral” e “Crepusculário”. E é evidente que está a desancar as pessoas por demais conservadoras, mas também aquelas outras que parecem sensatas em demasia, sensatas para além dos limites que separam sensatez e teimosia, sensatez e lucidez, sensatez e intransigência.

O preço de confundir o razoável com o excessivo é morrer-se lentamente, ainda quando a vida pulsa a pleno vapor e, entretanto, a pessoa não se dá conta disso. Exatamente por embaralhar ideias que, se postas claramente, a levariam a viver de maneira sã, aproveitando as oportunidades da vida, ainda que fosse curvando-se aos ditames de uma paixão avassaladora, aliás, a mais radical das três formas de viver recomendadas pelo poeta chileno. Fugir aos conselhos sensatos ou à repetição de certos hábitos são atitudes só em parte ousadas. De fato, suas consequências ficam muito aquém daquelas desencadeadas pela primeira. Qualquer semelhança com outras recomendações feitas pelo pseudo-Borges de “Momentos”, poema que se tornou tão ou mais popular do que as melhores criações poéticas do verdadeiro Borges, pode não ser mera coincidência. Aí se lê, por exemplo, que se o poeta pudesse dispor de uma segunda vida, não a desperdiçaria com excessivas leituras e escrituras. Seu foco seria voltado para experimentar coisas diametralmente opostas: cometeria mais erros, não tentaria ser tão perfeito, seria mais tolo etc.

Em suma, o pseudo-Borges, a exemplo do genuíno Neruda, prega uma obediência naturalista à vida, como a pensaram Rousseau e Thoreau, no passado, ou Bob Dylan, Dylan Thomas e outros mais avizinhados de nossa época. Ou ainda um Manoel de Barros, no atual momento da poesia brasileira.

O genuíno Borges, todavia, não recuaria diante do espírito naïf do seu pseudo alter ego. Antes, o esnobaria, assacando contra ele um único verso do seu “Fragmentos de um Evangelho apócrifo” (aplicável também como antídoto ao primeiro conselho de Neruda), onde se lê: “Felices los amados, los amantes y los que pueden prescindir del amor”. É certo que nesse versículo nada se comenta sobre a morte. Em compensação, a vida resulta celebrada de forma inequívoca.

FONTE: Tribuna do Norte - Natal

http://tribunadonorte.com.br/

FOTO: lilies-n-glaze

By: Frederick Dunn
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