Mostrando postagens com marcador Mario Vargas Llosa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mario Vargas Llosa. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, outubro 08, 2010

E o Nobel foi para Vargas Llosa

Vargas Llosa, ao escrever A guerra do fim do mundo, com base do episódio brasileiro de Canudos, também tornou-se um dos escritores continentais a derrubar o Tratado de Tordesilhas que muitos de nós ainda levam na alma (Foto: Susana Vera/Reuters)


Por: Flavio Aguiar

É um dos grandes escritores do mundo inteiro. Tornou-se controverso por suas posições políticas conservadoras nas últimas décadas, mas isso não deve nos fazer esquecer a qualidade de sua literatura

O escritor peruano Mario Vargas Llosa tornou-se o sexto ou sétimo escritor latino-americano a ganhar o Premio Nobel de Literatura em 2010.

Sexto ou sétimo?

Pois é. Incluindo o peruano, outros cinco são indiscutivelmente latino-americanos: Gabriela Mistral (Chile; 1945), Miguel Angel Astúrias (Guatemala; 1967), Pablo Neruda (Chile; 1971), Gabriel Garcia Márquez (Colômbia; 1982), e Octavio Paz (1992; México).

O “outro” é o santa-lucense (de Santa Lucia, ilha do Caribe, ex-colônia britânica) Derek Walcott, que ganhou o prêmio de 1992.

Por que ele seria ou não seria latino-americano? Não seria porque a língua em que escreve majoritariamente não é de origem latina, é o inglês.

Mas seria, porque faz muito o conceito de “América Latina” deixou de ser “latino” apenas, e passou a incorporar o Caribe em todas as suas manifestações linguísticas, pelo seu indiscutível “acrioulamento”, para usar uma expressão importada do espanhol. É o caso da literatura de Walcott, um descendente de escravos.

Por isso, quando coordenei a parte de literatura da Enciclopédia Latinoamericana, da Boitempo Editorial, com organização geral de Ivana Jinkings e Emir Sader, incluí Walcott entre os autores recenseados. Para mim ele é latino-americano, uma vez que o conceito adquiriu conotações culturais e políticas que não se limitam à geografia ou ao universo linguístico de origem das línguas usadas.

Hoje se pratica literatura latino-americana nos Estados Unidos, por exemplo, como atestam alguns ganhadores do Premio Casa de las Américas, de Cuba, que segue sendo o mais importante do nosso continente. E também ela é praticada – agora pela internet – na África, Ásia, Oceania. Até na Antártida, com os relatos de viagem.

Vargas Llosa sem dúvida merece o prêmio. É um dos grandes escritores do mundo inteiro. Tornou-se muito controverso por suas posições políticas conservadoras nas últimas décadas, mas isso não deve nos fazer esquecer a qualidade de sua literatura nem a pertinência crítica que ela tem em relação a temas candentes do nosso continente, como o militarismo recorrente até não muito tempo atrás – e reincidente no caso de Honduras, por exemplo.

Vargas Llosa, ao escrever A guerra do fim do mundo, com base do episódio brasileiro de Canudos, também tornou-se um dos escritores continentais a derrubar o Tratado de Tordesilhas que muitos de nós ainda levam na alma. Não vai longe o tempo em que “latino-americanos”, de um lado e outro da linha imaginária que dividia o mundo em dois, eram apenas os “hispano-hablantes”.

Mas meu livro preferido do autor peruano segue sendo La ciudad y los perros, uma candente visão do mundo militar da nossa América Latina.

Fica o caso de que nós, brasileiros, não temos um Nobel na coleção, embora haja escritores que merecessem um prêmio desse peso no mundo editorial. Seria o caso de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade e muitos outros.

Mas pertencemos a um mundo editorial pouco conhecido e de pouca penetração na Europa e nos Estados Unidos. Além de que boa parte do mundo editorial do “Norte” ainda nos vê por detrás da cortina ibérica. O primeiro escritor de língua portuguesa a ganhar o prêmio (que é dado desde 1901) foi José Saramago, em 1998. Rosa estava cotado para recebe-lo, em 1967, quando morreu (não sei se é uma regra fixa, mas o Nobel vem sendo dado a escritores vivos tão somente), alguns dias depois de assumir sua cadeira na Academia Brasileira de Letras.

Mas não custa esperar.

Leia também:

Surpresa no Nobel de Literatura 2009
Nobel: surpresa pra todo lado

FONTE: Rede Brasil Atual

http://www.redebrasilatual.com.br/

quinta-feira, outubro 07, 2010

Escritor peruano Mario Vargas Llosa ganha o Nobel de Literatura

O escritor peruano Mario Vargas Llosa (1936 -) ganhou o Prêmio Nobel de Literatura 2010. Esta é a quarta vez que um escritor sul-americano recebe a honraria, depois de Gabriela Mistral, em 1945, Pablo Neruda, em 1971, e Gabriel García Márquez, em 1982. O prêmio foi anunciado nesta quinta (7) na sede da Academia Sueca, em Estocolmo.

Além de romancista, Llosa também escreveu peças de teatro e ensaios. Isso sem contar a sua atuação como jornalista, fazendo dele um dos maiores da América Latina. Apesar de ter iniciado sua carreira literária na Europa, grande parte de seus romances se passa no Peru.

Um dos principais aspectos de sua obra é como ele mescla o mundo real com técnicas narrativas de vanguarda, criando sempre uma atmosfera fantástica de duplo. O escritor segue uma escola de literatura de protesto, que é uma das marcas da ficção peruana, expondo sempre situações de racismo, violência e corrupção política.

O comitê informou em um comunicado que Llosa recebeu o prêmio, que vem acompanhado de uma quantia de R$ 2,6 milhões, “por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual”.

Vale lembrar que o escritor já recebeu diversos prêmios em sua carreira, entre eles o Prêmio Cervantes, em 1995, e o Prêmio Príncipe das Astúrias de Letras, em 1986.

Seus principais livros são: A Casa Verde, A Cidade e os Cachorros, Travessuras da Menina Má e Pantaleão e as Visitadoras. Outras obras igualmente importantes são A Guerra do Fim do Mundo, em que retrata a nossa Guerra de Canudos, e Conversas na Catedral, livro que relembra a ditadura peruana.

A participação política de Llosa no Peru sempre foi presente. Em 1990, concorreu à presidência do país e chegou ao segundo turno, mas perdeu para Alberto Fujimori. Depois disso, foi morar em Londres, onde vive até hoje.

Lista dos últimos 15 vencedores do Nobel de Literatura:

2010: Mario Vargas Llosa (Peru)
2009: Herta Müller (Alemanha)
2008: Jean-Marie Gustave Le Clézio (França)
2007: Doris Lessing (Grã-Bretanha)
2006: Orhan Pamuk (Turquia)
2005: Harold Pinter (Grã-Bretanha)
2004: Elfriede Jelinek (Áustria)
2003: J.M. Coetzee (África do Sul)
2002: Imre Kertész (Hungria)
2001: V.S. Naipaul (Grã-Bretanha)
2000: Gao Xingjian (França)
1999: Günter Grass (Alemanha)
1998: José Saramago (Portugal)
1997: Dario Fo (Itália)
1996: Wislawa Szymborska (Polônia)

Por equipe do R7

Veja mais:

+ Filho de Vargas Llosa recorda Borges
+ Presidente diz que prêmio é ato de justiça
+ Siga o R7 no Twitter

+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

FONTE: R7

http://entretenimento.r7.com/

terça-feira, maio 12, 2009

Saldo deudor


Saldo deudor
Publicada a las 08:25 AM del 12 de Mayo de 2009 El Nacional

Los espacios culturales tienen significación por sí solos, están asociados estrechamente a la memoria.

Las vivencias allí experimentadas son intransferibles y germen de sentimientos infinitos: la pasión, el amor, el destello que se asoma para enseñarnos cómo puede ser la trascendencia.

Más de una vez, los grandes artistas o escritores que son entrevistados, hablan de aquellos momentos ­el verso de un poema, la actuación de tal actriz, el sonido agudo de un violín, la imagen imperturbable de un cuadro­ que fueron determinantes en su formación. Son como chispazos de alta significación que cambian vidas, tuercen destinos o ven nacer vocaciones. Pero esto no sólo opera en quienes manejan entre sus manos los misterios de la creación, sino también en el público general, que es capaz de amar, odiar y estremecerse mientras ve una pieza de teatro.

A diferencia de las rebajadas vidas que llevamos, donde los muertos son noticia diaria, en el campo de la creación vida y muerte son fuerzas simbólicas que el artista maneja a su antojo para llevarnos a uno u otro sentimiento.

Traigo esto a colación porque en los espacios del Ateneo de Caracas que hoy se desalojan a la fuerza transcurrió buena parte de mi formación creadora.

Los libros presentados, las conferencias ofrecidas, los talleres impartidos, los conciertos escuchados, los espacios abiertos donde pude sentarme con mis hijos a ver títeres o el solo de una bandola, suman no menos de treinta años de vivencias, emociones, encuentros o sanos debates en ese recinto. Y ese saldo, que es difícil de transferir porque se mide con cifras que son del alma, se lo debo a todos aquellos que hicieron posible todas las imágenes y secuencias que lo han alimentado sin descanso hasta hoy.

Estoy en deuda, pues, con esos gestores, programadores o artistas que sin desvelo intervinieron en la forjadura de lo que hoy soy, y a quienes por entregarme tamaño obsequio no puedo sino agradecerles con la mínima retribución que estas líneas puedan significar.

Hablar a título personal, sin embargo, puede ser una trampa si ignoramos todo lo que esos espacios han contenido a lo largo de los años para tantos otros.

Hojeo por azar el libro Retratos de una pasión, dedicado a María Teresa Castillo, por muchos años presidenta de la institución, y los rostros de personajes como Alejandro Otero, José Ignacio Cabrujas, Sergio Ramírez, Mario Vargas Llosa, Gal Costa, Ernesto Cardenal, Barbarito Diez, Pablo Milanés, Jacques Lacan, Pablo Neruda, Julio Cortázar, Salvador Garmendia, Adriano González León, Gerard Phillipe, Vivian Leigh, Diego Rivera, Alejo Carpentier, Bola de Nieve, Vicente Gerbasi, Jacobo Borges o Morella Muñoz, vienen a mi auxilio para hablarme de una resumida historia cultural del siglo XX y para estampar el aura de diversidad, intercambio y profundo respeto que esos espacios significaron a lo largo de toda su trayectoria.

La Unesco ha determinado en casi todos sus documentos normativos que la creación o los espacios que a fomentan son la prioridad número uno de cualquier política cultural.

Es sano que esto se recuerde en un país que hasta hace pocos años, bajo el concurso de instituciones públicas y privadas, fue la envidia del continente en cuanto a oferta de institucionalidad y programación culturales se refiere.

Los que sólo se esfuerzan en fomentar la desmemoria para rehacer la historia, sepan que en el Ateneo de Caracas se hizo política cultural de la buena, pues nadie puede borrar y menos desalojar lo que queda sembrado en el espíritu.

FONTE: EntornoInteligente - Caracas,Distrito Capital,Venezuela
http://www.entornointeligente.com/
******************
FOTO: Morella Muñoz
in http://upload.wikimedia.org/
******************

quarta-feira, março 18, 2009

Mario Vargas Llosa, candidato al premio literario Man Booker 2009


eeuu-literatura 18-03-2009
Mario Vargas Llosa, candidato al premio literario Man Booker 2009
El escritor peruano Mario Vargas Llosa es uno de los catorce candidatos que aspira al premio internacional de literatura Man Booker 2009, anunció hoy en Nueva York el jurado del certamen.

'La grandeza de la literatura es que carece de fronteras, y a través de obras como 'La guerra del fin del mundo' (1981), de Vargas Llosa, uno no necesita subir a un avión para viajar hasta el norte de Brasil', consideró hoy la presidenta del jurado, la escritora estadounidense Jane Smiley.

En una conferencia de prensa, presidida por la directora del concurso, Fiammetta Rocco, Smiley anunció la lista de los catorce finalistas junto al resto de miembros del jurado, el ruso Andrey Kurkov y el indio Amit Chaudhuri.

El Man Booker Internacional, que se falla cada dos años y está dotado con 85.000 dólares, premiará por tercera vez desde 2005 a un escritor cuya producción literaria sea en inglés o haya sido traducida a este idioma.

El Man Booker Internacional es la versión internacional del premio de literatura más prestigioso del Reino Unido, patrocinado por el Grupo Man, y uno de los más importantes del mundo anglosajón.

El escritor y académico Vargas Llosa, nacionalizado español en 1993 y autor de 'Conversaciones en La Catedral' y 'La ciudad y los perros', ha cultivado a lo largo de su trayectoria literaria, además del periodismo, la crítica de cine y arte.

Su obra ha sido distinguida con los máximos premios hispanos como el Príncipe de Asturias de las Letras, que en 1986 compartió con el desaparecido filólogo español Rafael Lapesa, el Planeta (1993, por 'Lituma en los Andes'), o el Cervantes (1994).

En 2005 el colombiano Gabriel García Márquez fue candidato a la primera edición del premio, que recayó en el albanés Ismail Kadaré, mientras que el mexicano Carlos Fuentes fue finalista en 2007, año en que el Man Booker fue a parar a manos del nigeriano Chinua Achebe.

En esta tercera edición, además de Vargas Llosa, optan al galardón los británicos James Kelman y Mahasweta Devi y los estadounidenses Evan S. Connell, Edgar Lawrence Doctorow y Joyce Carol Oates.

La lista de aspirantes se completa con el italiano Antonio Tabucchi, el australiano Peter Carey, el checo Arost Lustig, la canadiense Alice Munro, el trinitense V.S. Naipaul, el keniano Ngugi Wa Thiong'O, la croata Dubravka Ugresic y la rusa Ludmila Ulitskaya.

El ganador del galardón se dará a conocer el próximo mes de mayo, y la entrega del premio tendrá lugar en el Trinity College de Dublín (Irlanda) el 25 de junio.

FONTE: Terra España - Spain

sábado, março 14, 2009

Em 'Coração Andarilho', Nélida Piñon cria suas memórias afetivas


LITERATURA - [ 14/03 ]
Em 'Coração Andarilho', Nélida Piñon cria suas memórias afetivas
Cruzeiro On Line

A palavra sempre teve um peso valioso para a escritora Nélida Piñon - nenhum livro seu sai da gráfica sem um cuidadoso preparo. "Já cheguei a fazer nove versões de uma mesma história", comenta Nélida, que utilizou o mesmo procedimento para "Coração Andarilho", seu primeiro livro de memórias lançado agora pela Record (352 páginas, R$ 38). Filha de uma brasileira e de um pai nascido na Galícia, ela descobriu o mundo (real e literário) quando viajou pela primeira vez para a Europa, aos 12 anos. "Isso me deu uma condição de dupla cultura, de ser mestiça, e me ajudou a enxergar o mundo", conta Nélida, que estreou na literatura em 1961, com "Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo".
E, embora tenha colecionado amigos ilustres (Mario Vargas Llosa, Toni Morrison, entre outros) e prêmios (foi a primeira autora de língua portuguesa a vencer o Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras), Nélida dedica-se, em "Coração Andarilho", às memórias de sua primeira infância, como o fato de ter nascido em casa e não em um hospital, onde a mãe temia não reconhecer a própria filha. E também dos avós galegos, que lhe ajudaram a expandir a visão de mundo. Memórias afetivas, despreocupadas com os fatos, como comenta na entrevista realizada por telefone.
P - O que a levou a escrever essas memórias?

Nélida - Eu sempre soube que chegaria o momento das memórias. Fui uma menina que muito cedo despertou para a literatura, uma vocação estranha, enigmática, uma paixão por algo aparentemente sem contorno. Convivendo com essa literatura, descobri os motivos de ela fazer parte da minha vida. Existe uma harmonia profunda entre quem sou e por que ela me tocou. Assim, eu queria esclarecer minha gênese e minha formação.
P - Mas por que esse desejo se manifestou agora?

Nélida - Não, já faz muito tempo que penso nisso mas nos últimos dois anos ficou mais forte. Eu sabia que viria mas não sabia quando. De repente, larguei um romance ainda em produção (já escrevi 60 páginas de uma história forte, contundente) porque as lembranças foram chegando. Tenho material para até três livros de memória. Resta saber se vou querer publicá-los. E, nesses dois anos, sobretudo no último, o livro nasceu com uma força, com evocações muito extremadas.
P - Seus livros sempre recebem muitas versões. E com esse de memórias?

Nélida - Também, porque o livro não nasce pronto: surge com um grande arcabouço, mas a linguagem que vai ser seu semblante vem com o trabalho. Só é preciso se preocupar com o afã, pois pode asfixiar a emoção do texto. Sempre digo que o crítico não mata um escritor, mas ele próprio se suicida ao esterilizar o texto, torná-lo artificial, liquidar o mínimo de melodramático que é fundamental para o campo da emoção. E nas memórias fiz muita revisão - a linguagem, que julgo bem elaborada, revela a emoção. Mas meu testemunho é impreciso, nascido dos meus desacertos.
P - O livro permitiu descobertas?

Nélida - Sim, muitas. Uma delas foi descobrir a figura de meu pai, Lino. Eu não falava publicamente sobre ele enquanto vivo, apenas entre familiares. Mas o livro revela minha dor de perdê-lo. A cena do enterro é muito simbólica, pois representou uma espécie de carta de alforria. Eu tirei o privilégio dos homens da família de escolher o caixão do meu pai. Foi muito duro. A partir dali, com minha mãe abaladíssima, tive de assumir todas responsabilidades. Tanto que ela estranhou o fato de eu não ter chorado durante os dois primeiros anos após a morte dele Até o dia em que escrevi uma grande carta para o meu pai, explicando minhas razões a ela. Eu precisava ser forte - afinal, não é fácil ser escritora, ser brasileira, sobreviver com dignidade e de acordo com aspirações maiores.
P - Como a experiência de ter quatro avós galegos enriqueceu sua vida?

Nélida - Foi fundamental. Eu me tornei uma mulher cosmopolita, múltipla, arcaica (digo isso pois tenho 5 mil anos de história nas costas) depois da minha primeira viagem à Europa Eu lia muito, mas meus limites eram o Rio de Janeiro e São Lourenço (MG), pátrias da minha imaginação. Quando quebro esse paradigma geográfico, com minha mãe explicando que a Espanha não era um bairro do Rio, começo a ver que minha fatalidade histórica era atravessar o Atlântico e fazer o caminho contrário dos imigrantes.
Com isso, a geografia se tornou fundamental na minha vida. Nenhuma paisagem é vazia para mim, mas impregnada de mitos, conceitos, história, transações, pecados, transtornos, crise. Assim, quando admiro alguma paisagem, sei que não estou vendo apenas uma imagem mas sabendo que há muito mais por detrás dessa visão. Toda analogia é possível e isso é importante para a poética do texto, assegurando uma liberdade criativa. A metáfora do cotidiano está ao meu alcance.
P - As viagens foram importante para sua aprendizagem de vida?

Nélida - Sim, demais. Continuo viajando muito, mas hoje advogo a grandeza do cotidiano, da casa. Tenho convívio íntimo com os objetos, com a comida, com a sucessão dos fatos corriqueiros. Admiro o trivial da vida. Com isso, consigo ao menos administrar a vaidade. A literatura tem coerência com minha vida. Espero ter forças para continuar a criar sem medo.
P - Você carrega seus personagens para a vida real?

Nélida - Não, separo os momentos. Meu cordão umbilical com a casa e com a vida não está cortado. Claro que prefiro escrever sozinha, mas não sou uma escritora augusta, aquela em que a vida tem de parar por estar impregnada pela grandeza da criação. Eu aceito as pausas da vida.
Trecho do texto

"A felicidade dissolve-se nas lembranças e é forçoso inventá-la. Pergunto-me que pedaço da vida, sorvido no colo familiar, merece hoje construção verbal? Acaso as narrativas da mãe, à hora do almoço, fazendo-me crer que eram minhas e que, ao ouvi-las, elas podiam me salvar?
Acaso pretendia a mãe, com seus relatos, prover-me com indícios da existência, para eu confessar no futuro, diante do tribunal da vida, o que fiz e deixei de fazer? Fosse responsável pelas lacunas que, conquanto me condenem, absolvem-me também? Mas que desculpa convinha apresentar diante deste tribunal para justificar as vezes que errei?"(
AE)

FONTE: Jornal Cruzeiro do Sul - Sorocaba,São Paulo,Brazil