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domingo, novembro 28, 2010

Aparição amorosa - Carlos Drummond de Andrade

Doce fantasma, por que me visitas

como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.

Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.

Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? a massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma idéia platônica no espaço?

O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.

Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.



FONTE: http://www.casadobruxo.com.br/
http://www.casadobruxo.com.br/

sexta-feira, novembro 19, 2010

Leonardo Gorostiza, presidente da Associação Mundial de Psicanálise, compara a psicanálise à poesia

Um dos grandes nomes da psicanálise mundial, o argentino está no Brasil para o 18º Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, do dia 19 a 21 de novembro

Alberto Bombig

A psicanálise é poesia. A psicoterapia, prosa. É com essa comparação que o argentino Leonardo Gorostiza, presidente da AMB (Associação Mundial de Psicanálise) ilustra a diferença entre a prática clássica criada por Sigmund Freud e desenvolvida por Jacques Lacan (1901-1981) das demais terapias comportamentais, baseadas em vivências, jogos e questionários, tão em voga em um mundo cada vez mais refém da velocidade e dos resultados em curto prazo: “Trata-se de uma linguagem sem metáforas e metonímias, quando o que se diz não significa nada além daquilo que foi dito. Falta a essa linguagem a dimensão poética da língua sobre a qual a psicanálise se fundamenta precisamente e opera. Imagine o que poderia ser o mundo em que se calasse a voz poética do delírio de um Vinicius de Moraes ou de um Carlos Drummond de Andrade”, diz ele, que está no Brasil para participar do 18º Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, a partir desta sexta-feira (19) domingo (21), em São Paulo.

O tema do evento, organizado pela EPB (Escolha Brasileira de Psicanálise), é “O Sintoma na Clínica do Delírio Generalizado”. Ele falou a ÉPOCA sobre assunto e sobre o futuro da psicanálise. Segundo Gorostiza, todos nós somos seres delirantes:

ÉPOCA – A psicanálise tem futuro?

Leonardo Gorostiza - Creio que a psicanálise suporta desde um certo tempo e de maneira renovada um ataque teimoso de quem insiste em prognosticar a sua morte definitiva. Podemos dizer que, no entanto, ela ainda goza de boa saúde. Mas não convém nos contentarmos com isso apenas, porque estamos em uma época em que se produz uma verdadeira mutação que pode implicar em riscos para a sobrevivência da psicanálise. Refiro-me à ascensão da cultura de quantificação que faz da avaliação, dos questionários e dos protocolos o baluarte de uma suposta cientificidade. Nada mais longe disso do que a psicanálise.

Essa cultura, na realidade, trata-se de uma ideologia que aparenta cientificidade e que é funcional às burocracias administrativas. Essa ideologia tende a invadir as práticas “psi” e aponta ao coração poético, se posso dizer assim, de nossas existências.

ÉPOCA – O que são essas práticas?

Gorostiza - Vamos chamá-las por seu nome: as variantes psicoterapêuticas neurocognitivas. Nelas, o importante é o número de quadradinhos a serem preenchidos no questionário e o número de tarefas que o paciente deve realizar para alcançar a desejada “normalidade”. Porém, a questão central é que a linguagem que se utiliza nesse caso é equivocada, ou seja, trata-se de uma linguagem sem metáforas e metonímias, quando o que se diz não significa nada além daquilo que foi dito. Falta a essa linguagem a dimensão poética da língua sobre a qual a psicanálise se fundamenta precisamente e opera. Imagine o que poderia ser o mundo em que se calasse a voz poética do delírio de um Vinicius de Moraes ou de um Carlos Drummond de Andrade.

ÉPOCA – O senhor falou em delírio e esse é o tema do 18º Encontro Brasileiro do Campo Freudiano. Todo mundo delira, não apenas aqueles a quem chamam popularmente de loucos?

Gorostiza - O título do nosso próximo encontro, que introduz a frase “Clínica do delírio generalizado”, indica com precisão uma perspectiva que transcende a concepção habitual de considerar o delírio como algo reservado aos loucos ou psicóticos. Essa noção ampla de delírio, a do delírio generalizado, parte de uma premissa: todo ser humano carece, especialmente no plano da sexualidade, de um programa instintivo que lhe é inerente e que lhe permite uma relação natural com o outro sexo.

Diante desse buraco, dessa ausência, não nos resta senão a tarefa de inventar algum modo de funcionamento, além da variável da sexualidade humana, que permita essa união. Assim, todas as nossas invenções, na medida em que se instituem sobre uma referência vazia, ou seja, onde não há nenhum objeto baseado na realidade, podem ser qualificadas, generalizadas, como delírios, pois, como se sabe, um delírio se caracteriza classicamente por não ter relação com a realidade objetiva. E se todos temos que inventar algo porque somos afetados por um buraco no nosso instinto, então somos todos delirantes. Essa é a tese de Lacan sobre a qual trabalharemos. Tese que está presente de algum modo em Freud.

"Imagine o que poderia ser o mundo em que se calasse a voz poética do delírio de um Vinicius de Moraes ou de um Carlos Drummond de Andrade"

ÉPOCA – E como esse delírio pode ajudar os pacientes da psicanálise?

Gorostiza - Essa pergunta me permite precisar o que dito anteriormente. Por falarmos do delírio generalizado não podemos ignorar as diferenças que existem entre os delírios psicóticos, dos loucos, e os delírios neuróticos. Refiro-me aqui às fantasias, aos sonhos e especialmente aos sintomas dos neuróticos.

No primeiro caso, o tratamento deverá ajudar o paciente a reduzir o seu delírio na medida em que isso lhe torna difícil manter laços sociais. Mas reduzir não significa eliminar. Pelo contrário, significa dar à sua invenção, que sempre será singular, particular, o lugar adequado à sua própria existência: aquele que o permite estabelecer contato com outros, porém sem renunciar às suas características pessoais.

No segundo caso, o da pessoa neurótica, o paciente deverá se reconhecer naquilo que o faz sofrer. Evidentemente, espera-se que a psicanálise resulte na redução da sua dor, mas não por isso podemos esperar a desaparição total desse delírio. Agir assim significaria adaptar o delirante a uma suposta normalidade que, em si mesmo, é um conceito questionável.

Pelo contrário, o processo ideal é fazer que cada delirante seja capaz de transformar a sua loucura incomparável com as demais em atos particulares de criação, esse é um dos objetivos implícitos da experiência analítica.

Finalmente, o delírio de cada um, entendido dessa maneira, pode ser considerado como uma bússola formidável, um ponto de orientação para o qual o analista deve mirar e não perder de vista aquilo que compõe a singularidade mais íntima de quem o consulta.

FONTE: Galileu

http://revistaepoca.globo.com/
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI188875-15257,00.html

terça-feira, julho 14, 2009

Lagoa do Nado recebe mostra "É o Bicho"


14/07/2009 11:58
Lagoa do Nado recebe mostra "É o Bicho"
BELO HORIZONTE [ ABN NEWS ] - Um jacaré leitor de versos, um galo que canta em inglês, uma girafa apaixonada por um beija-flor, tudo isso na poesia envolvente de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes, entre outros grandes nomes da literatura brasileira.

Essas são apenas algumas das situações retratadas na mostra “É o Bicho”, da série Exposições Literárias, que fica em cartaz no Centro de Cultura Lagoa do Nado (rua Ministro Hermenegildo de Barros, 904, bairro Itapoã) até o dia 7 de agosto, com entrada gratuita. A promoção é da Prefeitura, por meio da Fundação Municipal de Cultura.

A exposição pretende aproximar a biblioteca pública da criança e encantá-la com a poesia. São banners com poemas que retratam o universo lúdico e, às vezes, inusitado dos animais.

Nas obras, os bichos são os personagens principais de diversas histórias, como o baile de pulos relatado no poema “Valsa das Pulgas”, de Ruth Rocha, e as histórias de amor do poema “Anúncios Amorosos dos Bichos”, de Almir Correia. A mostra pode ser visitada de terça a sexta-feira, das 8h às 17h, e aos sábados, domingos e feriados, das 9h às 17h.

Exposições Literárias

O projeto Exposições Literárias é uma parceria entre a Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais e a Superintendência de Bibliotecas Públicas com as bibliotecas municipais do Estado. A intenção das mostras é despertar, motivar ou renovar o prazer da leitura literária em pessoas de todas as idades.

São 26 mostras itinerantes, constituídas de banners ou painéis que trazem a síntese da obra de um autor ou extrato de um livro muito significativo na história da literatura ou, ainda, textos relacionados a um tema de interesse dos leitores da biblioteca pública.

Cada uma da exposições foi pensada para um público específico, sempre com o objetivo de promover a leitura literária e contribuir na formação de novos leitores, sejam eles crianças, jovens ou adultos.

FONTE: ABN - Brasília,DF,Brazil

Poeta amazonense será homenageado no 10º Festival de Bonito


Poeta amazonense será homenageado no 10º Festival de Bonito
Pelas lições de biologia, o Pantanal e a Floresta Amazônica configuram os principais ecossistemas do Brasil, reconhecidos internacionalmente como patrimônios naturais, sendo por isso alvos de proteção por parte de ambientalistas e destino para turistas do mundo inteiro.

E pela geografia, o Pantanal e a Floresta Amazônica podem estar próximos em determinadas regiões, tendo cada um suas particularidades. Na 10ª edição do Festival de Inverno de Bonito, que inicia no próximo dia 29, o Pantanal de Mato Grosso do Sul receberá Thiago de Mello, o poeta do Amazonas, como um dos homenageados do evento.

Pelas palavras do poeta chileno Pablo Neruda, “Thiago de Mello é um transformador da alma”. Tal proximidade com o célebre escritor sul-americano se deve ao exílio de Thiago no Chile, na década de 1960, época do governo de Salvador Allende. Por conta disso, Thiago de Mello tornou-se o principal tradutor de Neruda, além de ter traduzido para o português as obras de T.S.Elliot, Ernesto Cardenal, César Vallejo, Nicolas Guillén e Eliseo Diego.

Nascido em 1926 na pequena Barreirinha, a 372 quilômetros da capital Manaus, Thiago de Mello começou a carreira literária aos 25 anos, no Rio de Janeiro, com a obra “Silêncio e Palavra”, tendo sido recebida com entusiasmo por escritores como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, José Lins do Rego e Gilberto Freyre.

O escritor é famoso por sua luta em prol dos direitos humanos, pela ecologia e pela paz mundial. Entre suas obras, destacam-se “Os Estatutos do Homem” (1964) e “Faz Escuro Mas Eu Canto” (1965). Thiago de Mello atua ainda em prosa e como cantor.

Ele recebeu os prêmios de poesia da Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1960; Prêmio Livro do Ano da Sociedade Brasileira de Escritores, em 1972; Prêmio Jabuti da Bienal do Rio de Janeiro de 1997. E na década de 1980, recebeu o título de ‘Cavalheiro das Artes e das Letras’, pelo Ministério da Cultura da França.

O 10º Festival de Inverno de Bonito começa no dia 29 de julho e vai até 02 de agosto, trazendo como atrações nacionais Elba Ramalho, Vanessa da Mata, Seu Jorge e Caetano Veloso.
13/07/2009 - 23:11

FONTE: MS Notícias - Campo Grande,MS,Brazil