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sábado, janeiro 01, 2011

Retrospectiva 2010 - Livros - Poesia da maturidade



Ano literário tem a presença de obras inéditas dos principais poetas brasileiros. Mario Vargas Llosa recebe o Nobel e prêmios nacionais criam polêmicas vazias

João Paulo - EM Cultura

 Adélia Prado, Ferreira Gullar e Affonso Ávila voltaram a publicar livros inéditos de poesias em 2010. E foram livros excelentes, maduros, que mostram que esses escritores estão em forma e mantêm suas principais obsessões estéticas, éticas e políticas. Adélia está ainda mais delicada em sua metafísica do cotidiano e das coisas do espírito; Gullar exercita poesia sobre poesia sem arrefecer a marca existencial; Ávila persevera em sua pesquisa formal, reinventando a mescla de vanguarda, classicismo e barroco. Para completar a festa poética de alto nível, foi lançada a edição completa da correspondência entre Mário de Andrade e Henriqueta Lisboa, um volume sublime que ensina tanto sobre poesia moderna como sobre a amizade eterna.

A morte de José Saramago nos deixou órfãos do único Nobel da língua portuguesa. A escolha do peruano Mario Vargas Llosa como premiado de 2010 mostrou que a Academia Sueca, desta vez, deixou a ideologia de lado (há uma tendência em premiar escritores de esquerda) e fez sua opção pela arte literária sofisticada e ao mesmo tempo popular do romancista, dono de posições políticas conservadoras. No Brasil, o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, concedido a Chico Buarque, criou celeuma que envolveu editoras, escritores e imprensa. Foi um prêmio em que todos saíram perdendo.

Na área da literatura de ficção, o melhor título do ano foi o romance 2066, do chileno Roberto Bolaño. No Brasil, destaque fica para O passageiro do fim do dia, de Rubens Figueiredo. Os estudos históricos mantiveram lugar importante, chegando até mesmo à lista dos mais vendidos com 1822, de Laurentino Gomes, um best-seller que recebeu contestações da academia, mas encantou os leitores.

No cenário extraliterário, o assunto do ano foram os novos suportes eletrônicos para leitura. Em meio à cansativa polêmica do fim do livro, muito se escreveu e debateu em encontros literários, que se firmam como a melhor vitrine do setor. Paraty mantém o posto de mais charmoso, Ouro Preto se consolidou como o mais amplo e plural, e a Fliporto, realizada este ano em Recife e Olinda, deslocou o eixo para o Nordeste com boa programação.

Palavra certa

A duração do dia, de Adélia Prado; Poeta poente, de Affonso Ávila; e Em alguma parte alguma, de Ferreira Gullar (foto), foram os três livros que deram dignidade máxima à poesia brasileira em 2010. Adélia, a caçula do trio, aos 75 anos, mantém todas as características de sua poesia: a busca de Deus na simplicidade da vida provinciana; o mergulho na intimidade do tempo, a presença da morte, a força do sofrimento e o júbilo do encontro com o sentido da vida. Affonso Ávila e Ferreira Gullar, os dois aos 80 anos, são exemplos de vitalidade das vanguardas que não abrem mão da força filosófica da poesia nem cessam de indagar sobre os caminhos da palavra. Poesia sobre poesia que se revela filosofia da composição.

Tudo é história

Se o maior sucesso do ano na área da história foi a obra de Laurentino Gomes (foto) 1822, que o autor define como uma “reportagem histórica”, o livro mais importante da temporada foi o clássico Outono da Idade Média, do holandês Johan Huizinga. Lançada em 1919, a obra ganhou edição competente pela Cosac & Naify, com iconografia de mais de 300 imagens. O livro pesquisa as formas de vida, arte e modos de existência de um período que se julgava até então apenas uma preparação para o Renascimento. Ainda no campo dos estudos históricos, dois lançamentos preciosos para compreender o Brasil: O alufá Rufino – Tráfico, escravidão e liberdade no Atlântico negro, de João José Reis, Flávio dos Santos Gomes e Marcus J. M. de Carvalho; e Fordlândia – Ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Fonda na selva, de Greg Grandin.

Novo Freud

Uma das melhores notícias para quem se interessa pelas ciências humanas foi o início da publicação da nova tradução das obras completas de Freud (foto), a cargo de Paulo César de Souza, pela Companhia das Letras. Foram lançados três volumes, com textos clássicos como Mal-estar na civilização, O caso Schreber e Ensaios de metapsicologia, além de outros trabalhos. É o primeiro projeto de edição integral da obra freudiana a partir do original alemão. A nova versão corrige problemas da Standard Edition, que circulava no Brasil, com traduções indiretas a partir do texto em inglês. O trabalho mantém fidelidade ao original, sem apresentar desvios de interpretação extemporâneos e, o que é melhor, recupera a limpidez do estilo de Freud.

Prosa de invenção

O grande destaque no terreno da ficção ficou com o romance 2066, de Roberto Bolaño (foto – 1953-2003). Um livro com 850 páginas, planejado para ser lançado em cinco volumes, que narra a história de um grupo de intelectuais europeus que buscam no México traços de um autor recluso, Benno von Archimboldi. O livro mescla narrativa filosófica, trama policial, reflexões sobre a literatura e uma crônica desencantada de uma cidade fictícia de fronteira, Santa Teresa, tomada pelo crime e violência. Três outros romances estrangeiros merecem atenção: O grande jogo de Billy Phelan, do norte-americano William Kennedy, que inaugura o Ciclo de Albany; Uma certa paz, do israelense Amós Oz; e O colecionador de mundos, do búlgaro Ilija Trojanow, romance biográfico sobre o explorador Richard Burton.

Ficção brasileira

O romancista e tradutor Rubens Figueiredo (foto) lançou o romance Passageiro do fim do dia, que reafirma sua posição como autor capaz de tratar de temas urbanos com intensa pesquisa social e psicológica. Num trajeto de ônibus em direção a um bairro de subúrbio, o personagem faz uma viagem pessoal cheia de som e fúria, turbulência e injustiça. Nuno Ramos publicou O mau vidraceiro, com textos, fragmentos ou contos que procuram focalizar os detalhes de que é feito o nada. Cristóvão Tezza avançou com seu Erro emocional em direção a uma literatura menos confessional e mais rica de invenção, que destaca a estrutura e a criação de personagens. Marco Luchesi, ensaísta erudito, estreou na ficção com o machadiano O dom do crime. Entre as reedições, o ponto alto fica para Diário do hospício e O cemitério dos vivos, de Lima Barreto.

FONTE: UAI
URL FONTE: http://www.divirta-se.uai.com.br/
URL MATÉRIA: http://www.divirta-se.uai.com.br/html/sessao_7/2011/01/01/ficha_agitos/id_sessao=7&id_noticia=33026/ficha_agitos.shtml

quinta-feira, outubro 28, 2010

Manhã de poesia


Na Livraria Mineiriana, o escritor Affonso Ávila vai lançar Poeta poente

Seção : Arte e Livros - 25/09/2010 11:18


Dois anos depois de publicar Homem ao termo, poesia reunida (1949-2005), pela Editora UFMG, Affonso Ávila põe novo volume de poemas na praça. Hoje de manhã, ele autografa Poeta poente na Livraria Mineiriana. Nascido em Belo Horizonte em janeiro de 1928, já no início da década de 1950, quando com Fábio Lucas, Rui Mourão e Laís Corrêa de Araújo ajudou a criar a revista Vocação, Ávila começou a se firmar como um dos poetas mais importantes de sua geração.

O tempo só viria a confirmar essa condição. Meio século depois da estreia, com O açude e sonetos da descoberta, ele é celebrado como uma das referências da poesia brasileira.

Paralelamente à poesia, o escritor trabalhou em vários jornais, foi auxiliar de gabinete de Juscelino Kubitschek de Oliveira, então governador, e é considerado uma das maiores autoridades latino-americanas no estudo do barroco.

Em 2006, em merecida homenagem ao autor, a Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais publicou Fortuna crítica de Affonso Ávila, com introdução da professora Melânia Aguiar.

FONTE: http://www.divirta-se.uai.com.br/

sexta-feira, outubro 15, 2010

Sol da meia-noite

Prosa de Sábado
02 de outubro de 2010 / 0h 00

Silviano Santiago - O Estado de S.Paulo

O sol se põe no horizonte. O poeta se põe no livro de versos. Poeta Poente (Perspectiva) é o título da nova coleção de poemas de Affonso Ávila, autor do já clássico Código de Minas (7 Letras, 1997). O sol e o ser humano se consagram ao ocaso dos respectivos percursos. No entanto, a poesia e as artes foram solares no século 20.

Em 1922, no poema Cemitério Marinho, Paul Valéry abre o périplo do sol pelo meio-dia. Firma o astro na abóbada celeste e o reafirma no momento exato em que põe em evidência a completa ausência de sombras na terra. O sol a pino atiça faíscas de luz nos metais tomados pela maresia e na crista das ondas do Mediterrâneo. Ao cansaço causado pelo pensamento segue-se o longo olhar lançado à calma luminosa dos deuses. Entregue à luz do meio-dia e às pombas, aos esguios pinheiros e às ondas renovadas do mar, o cemitério é convite à vida. Em epígrafe, versos de Píndaro incitam o leitor a gozá-la no instante-já: "Não aspire, oh minha alma, à vida eterna, mas esgote o campo do possível." No cemitério marinho de Paul Valéry, a vida calca os pés no leito da morte.

Banhado pelas ondas que o vento agita no canavial, um diferente cemitério marinho logra poema em engenho de açúcar pernambucano. Nele, sob o inclemente sol tropical, a vida se traja de luto. Morte e vida severina. No poema Cemitério S. Lourenço da Mata, João Cabral de Melo Neto presta homenagem ao mestre francês e nordesteia as ondas do Mediterrâneo: "É cemitério marinho / mas marinho de outro mar. / Foi aberto para os mortos / que afoga o canavial." Longe das águas do Mediterrâneo, louvadas pelo cineasta Manoel de Oliveira em Um Filme Falado, ali, os cortadores de cana são tragados pelas ondas do canavial. Não chegam vestidos de caixão. São derramados no chão. Tão da terra são, que a terra nem sente a intrusão. Em S. Lourenço da Mata, a morte calca os pés na lavoura da vida em versos que rimam em ão.

Cabral é herdeiro de Carlos Drummond de Andrade. Ao perder a referência ético-filosófica mediterrânea, o sol ganhou os trópicos, crestou a pele humana e adensou o vazio da vida com a sua indispensável politização. Assim o tinha anunciado Drummond no poema Morte do Leiteiro. Ao iluminar a violência da Segunda Grande Guerra e o medo que ganha os cidadãos durante a ditadura Vargas, o sol drummondiano abre seu périplo pela aurora carioca. Pé ante pé, o dia amanhece como o leiteiro que, ao depositar a garrafa à porta da cozinha, é tomado por ladrão e recebido à bala. Leite e sangue derramados, branco e vermelho, as duas cores se procuram e se enlaçam amorosamente, "formando um terceiro tom / a que chamamos aurora".

Affonso Ávila se soma à lista dos poetas solares brasileiros, herdeiros, cada um à sua maneira, da lição de Paul Valéry. Lemos no poema Meridiano, em Poeta Poente: "Ao pleno sol de fortuito meio-dia / não em berço de ouro e estrela na testa / o soluço de vir ao mundo foi sua festa." Ao sol do meio-dia, a vida se abre em soluços. No entanto, o sol se põe. Não mais apetece ao poeta calcar a morte na lavoura da vida, embora ainda seja afeito a "acolher o pretexto para o texto", ou "o sobe e desce da bolsa".

Poeta Poente. À semelhança da crisálida, que dá título ao poema que abre o volume, Affonso Ávila se põe em expectativa de revelação. É preciso "lutar até o juiz decretar o seu tempo / e cair em nocaute só ao último assalto". É chegado o momento em que "o após do antes infinito" é o "retilíneo percurso / incrustado de curvas e recurvas". O vir-a-ser é aula de "nascer mínimo". É "o ter por onde ir e não saber a saída". Sobrevive-se graças às arapucas armadas à lucidez pela experiência humana: "Saber que o tempo não passou / foi passado para trás." Como esclarece no poema Terceira Estação: "A fonte não secou mas a água está turva / e turva a palavra da antiga clara semântica." E adiante reitera: o poeta "já pagou o check-in e aguarda a decolagem". A esculpida companheira, "replena de beleza", o acompanha na viagem.

Em poesia que nasce substantiva, embora "cediça" (em estado de putrefação), a palavra é "aurora da última hora". A situação (do sol na abóbada, do poeta na cidade) se expressa pelo "desfazimento do feito e do não-feito". No ajuste de contas, deve-se "pagar enfim o que foi dado / no jogo da vida ou no jogo de dados", ou seja, "o construído o consentido o destruído". O abatimento ("a atonia") tomba na "calada da noite". Confundem-se o físico, o figurado e o psíquico: "Víscera, avesso, abulia."

A esperança do poeta poente é, pois, intervalar. Calar ou falar o último solilóquio, "enquanto a alma é batida de fel e não tomba / enquanto ainda muge a ovelha e despetala sua lã". A esperança se expressa pelo tempo do enquanto. Neste, a ação verbal vem no infinitivo (calar, falar, olhar). Por ser desprovido de pessoa e de número, o infinitivo se confunde com o tempo circular, em que os 80 anos é um "amálgama de aros". Confunde-se com o tempo mítico, onde o poeta encena Pigmaliões e Teseus. No tempo do enquanto, graças às reminiscências, passa a calar fundo o que, no calendário das ações, é conversa fiada e banalidade.

A memória é algema ou liberdade?

Os poemas poentes de Carlos, João e Affonso. Por não ter visto a infância passar, Carlos Drummond readquire os olhos de menino em Boitempo. Não os ressuscita para rever o tempo antigo. Em perspectiva e palavra de poeta-criança, entrega ao leitor o futuro tal como visto do tempo pretérito. João Cabral sensualiza a paisagem em Sevilha Andando. Empresta-lhe coxas femininas. Da janela, "vê passar, entre as que passavam, / uma mulher de andar Sevilha". Affonso Ávila escreve a "áspera fábula", enquanto manhã, tarde e noite se confundem e o horizonte tarda em fechar seu ciclo. Pier Paolo Pasolini pergunta ao poeta poente: "O que o senhor ainda tem no ativo? Eu... uma desesperada vitalidade." No dizer de Roland Barthes, a desesperada vitalidade pasoliana se confunde com "o ódio da morte". Brilha o sol da meia-noite.

FONTE: http://www.estadao.com.br/

FOTO: Old pass

By: Vittorio Pellazza
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