segunda-feira, abril 21, 2008

Por trás das letras


21/04/2008
Por trás das letras

Tiago Zanoli

Acomodar-se em um sofá, abrir um livro e entregar-se ao prazer da leitura. A mente viaja no tempo e no espaço, o leitor dialoga com o autor. Esse diálogo, no entanto, conta com mediadores. Antes de ocupar qualquer prateleira, uma obra literária passa por agentes que são fundamentais ao processo editorial.A qualidade de um livro depende do bom trabalho de profissionais como editores, ilustradores, diagramadores e, sobretudo, revisores e tradutores. Não importa se o escritor é um gênio da literatura, o mau desempenho deles pode pôr tudo a perder.

Embora seus nomes apareçam discretamente, em letras miúdas, na ficha técnica de um livro, é importante compreender o papel que exercem e sua importância para a literatura. São leitores atentos, que examinam o texto vagarosamente e vão além daquilo que as palavras aparentam. No caso dos tradutores, eles têm ainda o poder de reescrever obras. Além disso, acompanhadas do texto original, as edições bilíngües transformam-se na "Pedra de Roseta" e permitem ao leitor comparar o original e o resultado vertido para o português, além de compreender as escolhas feitas pelo tradutor na conversão das palavras.

"Traduzir é interpretar, é mergulhar no texto à procura da expressão mais adequada a fim de não trair a idéia do autor", afirma José Augusto Carvalho, doutor em Letras pela USP e professor do mestrado em Lingüística da Ufes.

Produção

Ele já traduziu vários livros do egípcio Naguib Mahfouz (prêmio Nobel em 1988), além de obras como "Kafka", de François Rivière, "O Último dos Médicis", de Dominique Fernandez, e "A Valsa Inacabada", de Cathérine Clément. "Só para a editora Record, traduzi cerca de 20 livros, entre romances e obras de neurolinguística", conta.

José Augusto concorda com a opinião de que a tradução pode ser compreendida como uma reinterpretação do texto original, que gera uma nova obra. Para ele, toda tradução tem muito de criação também. "Você tem de transpor para o português trocadilhos, jogos de palavras e todos os malabarismos lingüísticos que encontra no texto original. Nesse sentido, traduzir é também reinterpretar."

Para ele, no entanto, ler uma tradução não é uma desvantagem. "Sem a tradução portuguesa, eu nunca conheceria Maiakovski, Brecht ou Confúcio. Eu teria de aprender russo, alemão ou mandarim para conhecer esses autores. É claro que não é a mesma coisa ler uma obra no original e ler sua tradução. No original, você tem contato direto com a expressão do autor, com as intenções dele."

Apesar de não ter atuado profissionalmente como tradutor, o poeta Waldo Motta tem uma experiência interessante nesse meio. Autodidata, aprendeu hebraico e traduziu trechos da Bíblia nesse idioma. "Não sou formado, mas gosto dessa aventura. Estudo linguagem religiosa, pesquiso simbolismos. Como as traduções não me satisfizeram, decidi descobrir por mim mesmo. Comprei a Bíblia em hebraico e dicionários. Sempre sigo um caminho próprio e muito pessoal."

A iniciativa nasceu de um desafio feito a Waldo em 1997, quando foi à USP, em São Paulo, apresentar uma palestra e um recital com os poemas do então recém-lançado "Bundo e Outros Poemas" (1996). Na ocasião, ele falou sobre sua visão bíblica e chamou a atenção dos intelectuais presentes, como o ensaísta e crítico literário Roberto Schwarcz.

Todos perguntaram se ele já havia traduzido algo da Bíblia em hebraico e sugeriram que o fizesse. Desafio aceito, no início de 1998 as traduções ficaram prontas. "Eles adoraram e entraram em contato com a editora Vozes, que se interessou em publicar minha tradução do Gênesis em uma revista. Isso me alegrou muito, mas a proposta de pagamento foi pequena e não aceitei. Na época, a imprensa divulgou que eu estava traduzindo toda a Bíblia, o que não é verdade", explica.

Excessos Apparecida Faria Marcondes Bussolotti, mestre em Filologia e Língua Portuguesa pela USP, ministra cursos sobre revisão literária. Segundo ela, o papel do revisor é tirar os excessos de um texto, porque o autor, por mais atento que esteja, pode cometer erros ou exceder-se.

"Mas o revisor tem que estar atento aos seus limites. José Saramago, por exemplo, tem uma pontuação diferente, muito própria, não há como intervir. Se pensar em um texto poético, não dá. Você quebra a métrica, o ritmo, a rima, acaba com o significado.

"A professora afirma que é necessário fazer uma revisão crítica da obra, buscar edições anteriores e comparar o texto. "Fazer revisão é saber ler. Para isso, é preciso saber ler a sua cultura. Sem cultura, não se tem referencial para comparar, analisar e julgar. Não basta conhecer a gramática, é preciso compreender o mundo."

Ela se aborrece, porém, quando tradutores reclamam que os revisores estragam a tradução. "Há péssimos tradutores por aí. Não basta consultar o dicionário quando não se sabe ler."

José Augusto Carvalho está entre os que se consideram prejudicados por revisões malfeitas. "Corrigiram-me para pior. Muitos erros de revisores acabam passando por erros meus."

"Não sou formado, mas gosto dessa aventura. (...) Como as traduções não me satisfizeram, decidi descobrir por mim mesmo." Waldo Motta - Poeta

"Traduzir é interpretar, é mergulhar no texto à procura da expressão mais adequada a fim de não trair a idéia do autor." José Augusto Carvalho - doutor em Letras pela USP

Tradutores célebres

Erico Verissimo. Leitor voraz, o gaúcho mergulhou na obra de autores como Walter Scott, Tolstói, Émile Zola, Fiódor Dostoiévski, Oscar Wilde, Bernard Shaw e Anatole France. Não apenas lia, também traduzia – antes de consagrar-se escritor –, sobretudo do inglês e do francês. Mais tarde, muitas obras de autores estrangeiros foram publicadas com as traduções de Verissimo.

Clarice Lispector. Para manter seu nível de renda, em 1974, aumenta sua atividade como tradutora. Verte, entre outros, "O Retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde, adaptado para o público juvenil pela Ediouro. Traduziu romances como "Luzes Acesas", de Bella Chagall, "A Rendeira", de Pascal Lainé, e livros policiais de Agatha Christie. Ao longo da década de 70, fez adaptações de obras de Julio Verne, Edgar Allan Poe, Walter Scott, Jack London e Henrik Ibsen.

Mario Quintana. Em 1934, foi publicada a primeira tradução de sua autoria: "Palavras e Sangue", de Giovanni Papini. Desde então, traduziu obras de diversos escritores estrangeiros: Fred Marsyat, Charles Morgan, Rosamond Lehman, Lin Yutang, Voltaire, Virginia Woolf, Guy de Maupassant, entre outros. Graças a ele, obras como o denso "Em Busca do Tempo Perdido", do francês Marcel Proust, puderam ser lidas por brasileiros que não dominavam a língua francesa.

Monteiro Lobato. Nos anos 30, quando criou a Companhia Petróleos do Brasil e passou a dedicar-se integralmente à campanha do petróleo, garantiu seu sustento não só com a publicação de histórias infantis, mas com traduções de autores estrangeiros, como Rudyard Kipling ("O Livro da Selva"), Arthur Conan Doyle ("O Doutor Negro"), Jack London ("Caninos Brancos" e "A Filha da Neve") e Ernest Hemingway ("Adeus às Armas").

Paulo Leminski. Multifacetado, de poeta a faixa preta de judô, trabalhou também como tradutor na agência de notícias Reuters, na década de 1960, e traduziu autores estrangeiros como John Fante ("Pergunte ao Pó"), Petrônio ("Satyricon"), Samuel Backett ("Malone Morre"), Yukio Mishima ("Sol e Aço") e James Joyce ("Giacomo Joyce").

Millôr Fernandes. Autodidata, fez sua primeira tradução literária em 1942, quando verteu para o português o romance "A Estirpe do Dragão", da norte-americana Pearl S. Buck. Já traduziu clássicos como "Antígona", de Sófocles; "Hamlet", de William Shakespeare; "Escola de Mulheres", de Molière; e "Vestir os Nus", de Luigi Pirandello.

FONTE: A Gazeta - Vitória (Assinatura) - Vitória,ES,Brazil

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