domingo, abril 06, 2008

Materiais inéditos de Cecília Meireles podem chegar ao público

literatura
Materiais inéditos de Cecília Meireles podem chegar ao público
Brigas familiares por direitos autorais impediram, por 24 anos, o acesso a textos e documentos da escritora

O futuro da obra de Cecília Meireles (1901-1964) depende dos desdobramentos de dois fatos: a preservação do seu acervo e uma decisão judicial do ano passado. Entre 1944 e 1964, ela organizou uma biblioteca particular de cerca de 10 mil volumes no imóvel onde morou com o segundo marido, Heitor Grillo, no Cosme Velho, no Rio. Nesse sobrado, Cecília guardou uma série de textos e documentos que até hoje permanecem inéditos. E que, ao lado dos milhares de obras de outros autores, ficaram ao deus-dará durante 20 anos, em razão de brigas familiares envolvendo direitos autorais. As rixas impediram a maior circulação de seus títulos.

Para entender o porquê é preciso visitar a árvore genealógica da família Meireles. Cecília teve três filhas com o artista plástico português Fernando Correa Dias. Da primogênita para a caçula: Maria Elvira, Maria Mathilde e Maria Fernanda. Quando Cecília Meireles morreu em 1964, os direitos autorais sobre suas obras passaram para as filhas, cada qual tendo direito a uma cota de um terço. Segundo o artigo 32 da Lei de Direitos Autorais (9.610/98), a maioria dos co-autores - neste caso, os detentores dos direitos - é que decide em caso de divergência.

Maria Elvira morreu em 1987 e sua parte foi transmitida para o único filho: Ricardo Strang. "Minha mãe era a mediadora de Maria Fernanda e Maria Mathilde, que sempre brigaram por terem temperamento opostos", diz Strang. Foi a partir daquele momento que, diz Strang, Maria Fernanda, "que não encontrou mais resistência", passou a cuidar da casa do Cosme Velho, onde está até hoje o acervo de Cecília Meireles. Segundo Strang e Alexandre Carlos Teixeira, um dos filhos de Maria Mathilde e agente literário da obra de Cecília Meireles, durante 20 anos ninguém além de Maria Fernanda teve acesso ao imóvel e, por tabela, à biblioteca, que sofriam a ação implacável do tempo e do abandono.

Procurada pela reportagem do Estado, Maria Fernanda preferiu não comentar o assunto. Médico reformado da Marinha, Ricardo Strang morou em Belém (PA) entre 1987 e 2000, quando mudou para Londrina (PR), onde vive até hoje. Teixeira não se envolvia muito com "a propriedade material" deixada pela avó, embora ele fosse o agente literário da poeta.

A situação se complicou quando Maria Fernanda, no começo dos anos 2000, rejeitou a administração dos direitos autorais feita pelo sobrinho Alexandre Carlos Teixeira. Dali em diante a Justiça seria palco de ações entre Maria Fernanda, Maria Mathilde e Ricardo Strang até um acórdão do Tribunal de Justiça (TJ) do Rio chegar à conclusão, em julho do ano passado. A essa decisão não cabe recurso, segundo o consultor da FGV-Rio Pablo de Camargo Cerdeira, consultado pelo Estado.

Essa sentença ratifica o poder de decisão da maioria na celebração de contratos em relação às obras de Cecília Meireles sem a interferência da minoria. Em outras palavras, Maria Fernanda (a minoria, por deter um terço) deve se submeter às decisões da maioria, representada pela Maria Mathilde e Ricardo Strang (juntos, eles detêm os dois terços).

Em agosto do ano passado, dois meses depois do acórdão, Maria Mathilde fez um contrato escrito, ao qual o Estado teve acesso, em que cedia a parte dela para o sobrinho Ricardo Strang. Assim, quando morresse, ela evitaria pulverizar sua cota entre os três filhos. Ela faleceu dois meses depois da transferência. Segundo Strang e Alexandre Carlos Teixeira, ela pretendia com a cessão dar fim às disputas que tornavam o mercado editorial arredio à publicação das obras da autora de Romanceiro da Inconfidência. Dono de dois terços dos direitos intelectuais, Strang é hoje representado pelo primo e advogado Alexandre Carlos Teixeira, que negocia com as editoras.

"Essa transferência é excelente, porque evita o conflito", diz Sérgio Branco, professor de Direito na FGV-Rio. Segundo Branco, a Lei de Direitos Autorais tem o objetivo de remunerar o criador para ele continuar produzindo. "O problema é que o direito dura demais, 70 anos contados a partir da morte do autor, um prazo excessivamente absurdo", ele diz. "São três gerações que brigam, e a obra deixa de circular, cai no esquecimento, a sociedade não tira o seu proveito", completa.

No fim do ano passado, Episódio Humano (editoras Batel e Desiderata) chegou às livrarias. Ele reúne crônicas de Cecília Meireles, primeira obra inédita publicada após a decisão do TJ e a cessão de direitos por Maria Mathilde. Maria Fernanda entrou com uma notificação extrajudicial contra a Batel, dirigida por Carlos Barbosa, que foi editor da Nova Fronteira durante 25 anos até sair da empresa no ano passado. Ela alegava não saber qual o conteúdo do contrato de edição de Episódio Humano. Maria Fernanda tem o direito de contestar judicialmente o repasse do que lhe cabe nos contratos, se julgar que a quantia repassada é indevida.

O diretor-superintendente da Nova Fronteira, Mauro Palermo, diz que "tudo o que se faz respaldado legalmente é com mais certeza, mais investimentos e até tiragens maiores". Palermo afirma existir mais "conforto" na negociação dos contratos quando se lida diretamente com uma maioria. A editora tem 32 obras da Cecília em catálogo. "Alguns projetos já deixaram de ser feitos por falta de consenso", ele diz. Segundo Palermo, a editora tem em vista planos relacionados à autora.

Organizador da produção em prosa da escritora, editada pela Nova Fronteira, o professor da UFRJ Leodegário A. de Azevedo Filho diz que a editora carioca tem material para aproximadamente quatro volumes em prosa inéditos. A previsão inicial era de 25 ao todo. Carlos Barbosa confirma que as conferências e os artigos de Cecília não saíram ainda, apesar dos volumes já editados sobre viagem, educação e crônicas em geral.

A oportunidade para reeditar obras fora de catálogo está dada pela decisão do TJ. Já o material inédito, que contém anotações, cadernos de estudo, traduções, cartas e obras de Cecília Meireles, tem o destino ligado à reforma da casa do Cosme Velho e à preservação do acervo, medidas pelas quais Alexandre Carlos Teixeira é o atual responsável.

FONTE (photo include): O POVO Online - CE,Brazil

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