Rarindra Prakarsacritique photo view portfolio (195 images) add to my favorites What's this? ******************************************************************
Serafina Martins, investigadora do orientalismo na literatura portuguesa
“Encontrei autores desconhecidos no Arquivo Histórico”
O que estava a estudar na Biblioteca Central?
“Encontrei autores desconhecidos no Arquivo Histórico”
O que estava a estudar na Biblioteca Central?
Para além de professora sou também investigadora no Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa da Universidade de Lisboa (CLEPUL). É um centro já com pergaminhos. Foi criado em 1975, pelo professor e grande referência nas letras Jacinto Prado Coelho, e tem como objecto de estudo a literatura da lusofonia. Coordeno um projecto que se chama “Orientalismo literário português” e foi ele que me trouxe a Macau. Esta área está completamente por estudar. Estou a fazer um levantamento de autores para constituir uma base de dados e se chegar a bom termo o trabalho vai culminar num dicionário. Vim à descoberta, não sabia o que podia encontrar. O que procurava não eram tanto os escritores contemporâneos (esses são conhecidos) mas os autores do século XIX e princípio do século XX de quem havia pouca ou nenhuma notícia. E encontrei-os no Arquivo Histórico.
Posso saber quem?
Pedro Gastão Mesnier e Adolfo Loureiro, por exemplo. Estou começar agora a lê-los e sei muito pouco sobre eles. São sobretudo narrativas de viagem, textos testemunhais de pessoas que passaram ou estiveram em Macau. Não são extraordinários autores. Passei uma semana no Arquivo Histórico e percorri o ficheiro cronológico desde 1800 até 2003 a ver todos os autores portugueses que tivessem escrito textos com uma moldura literária. Encontrei o suficiente para dar estas duas semanas como muito bem aproveitadas.
Já consegue definir esse orientalismo na literatura portuguesa?
É muito cedo. Isso terá que ser muito bem explicado no prefácio do dicionário de autores. Ainda estou na primeira fase de trabalho que é a de levantamento – que implicou a minha vinda a Macau e implicará a minha ida ou a da minha colega Ana Paula Laborinho a Goa. Tenho chegado aos autores com temática orientalista um pouco por acaso. Não fazia ideia que Ferreira de Castro tinha o livro “De Nápoles à China” – foi um director de um museu que me disse. Hoje [segunda-feira] descobri que António Ramos Rosa tem poemas que são adaptações de poemas chineses. E no outro dia na FNAC [Lisboa] estava nos escaparates um livro de 2008 de Armando da Silva Carvalho, “O Amante Japonês”, em que há representações de Camilo Pessanha. Esta é a fase de pura arqueologia e é arriscada. Poderia dar-se o caso de concluir que não tinha nada a acrescentar ao que já era conhecido, apesar de alguns autores serem apenas um nome perdido num verbete dum dicionário temático Tem tendência para os escritores menos conhecidos.
Tenho um sentido pragmático: fazer um trabalho útil. Não me parece que seja um objectivo pretensioso. A ideia é criar um instrumento a partir do qual se possa fazer trabalhos com outra ambição. Mas sim, nos autores que escolhi para a antologia de contos há essa coincidência: escrevem muito bem e são pouco conhecidos. António Patrício é um escritor fabuloso. Vou parafrasear Pedro Mexia e dizer que é o maior dramaturgo de todos os tempos. É um superlativo e como tal discutível.
O que fica dos livros que se lêem na juventude?
A imagem, a sensação infantil, de aventura. Durante muitos anos não me senti tão feliz como naqueles quatro dias em Pequim. Éramos uns aventureiros em estado de felicidade. Isto tem que ver com a narrativa de formação que tem uma tradição na literatura portuguesa apesar de não ser muito lida. Os miúdos, como o meu filho, lêem sofregamente o “Senhor dos Anéis” e “Harry Potter” e nós temos textos magníficos. Não serei exaustiva: “A via sinuosa” de Aquilino Ribeiro; “Mau tempo no canal” de Vitorino Nemésio (apesar de a personagem principal ultrapassar um pouco a faixa etária em que costumam caber as personagens de formação); “Adolescente Agrilhoado” de José Marmelo e Silva; e, claro, “Constantino, guardador de vacas e de sonhos” de Alves Redol – deste ainda me lembro de algumas frases. E só mais um que não é português mas que me fez chorar, como diria Camilo Castelo Branco, chafarizes de lágrimas: “O meu pé de laranja lima”. De todos os autores que nomeou vou pegar em Aquilino Ribeiro. É sobre ele que escreve na antologia de contos que co-coordenou. Escrevi sobre um texto que é também uma história de aventuras. O conto que escolhi, “A tentação do Sátiro”, tem todos os condimentos para agradar a qualquer leitor por mais exigente que seja. É uma história de amor, tem passagens eróticas de muita elegância, tem acção e é uma narrativa histórica dos tempos dos reis católicos. Depois há a escrita deslumbrante de Aquilino Ribeiro. Recomendo-o a quem queira ler uma história bem contada e recriar-se do ponto de vista do português.
O conto é uma boa entrada para um escritor?
O melhor exemplo de acesso a um escritor através do conto é Eça de Queirós. É uma forma de os leitores ganharem intimidade com o escritor. Não ao ponto de o tratarem por tu mas de conhecerem um pouco do seu mundo. É também uma boa maneira para o leitor se iniciar na alta literatura.
Um leitor de 16 anos fascinado pela literatura do fantástico pode engraçar com Aquilino Ribeiro?
O leitor que goste de histórias na sua forma tradicional em que a primeira porta de acesso seja o fio da intriga é capaz. Um leitor que não tenha outro tipo de competências ou cujo interesse seja apenas o de acompanhar uma intriga – como acontece com as pessoas que vêem telenovelas ou liam folhetins no século XIX – seguramente gostará de ler o conto. Porém, pode dizer-se que o texto não é fácil por causa da linguagem erudita e muito alegórica. O erotismo, por exemplo, é velado pela sugestão. As figuras que o alegorizam é uma estátua de Sátiro e de uma ninfa que está no jardim onde vive uma senhora muito bonita por quem a personagem principal se apaixona. Isto pode ser cativante. Segundo a nota do IPOR vai hoje falar do conto como veículo para o ensino da língua portuguesa no estrangeiro.
É assim?
O livro não foi concebido com esse intuito. Dada a escassez de materiais foi pensado como uma forma de disponibilizar aos professores e alunos do ensino secundário textos que possam ser interessantes para os jovens. Mas pode obviamente ser um bom instrumento de trabalho para os que ensinam português no estrangeiro. Pelos textos, pela qualidade da escrita e da linguagem e por serem representativos do ponto vista histórico-literário e dos autores que são contemplados no livro.
Como chegaram a uma antologia de dez autores? Depois de algum debate (risos)
Não foi muito difícil chegar a esse elenco. Este livro sai de um outro projecto do CLEPUL que na selecção dos contos e colaboradores tem como objectivo principal a adequação dos textos ao público, além dos critérios que já referi.
A obra tem sido divulgada pelas escolas?
O grosso do que sai hoje de literatura em Portugal são os romances que à partida vão ter grande sucesso comercial. Há muito esse enfoque nas editoras, distribuidoras e livrarias, basta espreitar uma montra. Um livro como este, apesar de não ser para académicos, dificilmente terá essa proeminência. A nossa editora não tem meios extraordinários de publicidade mas o livro tem tido repercussão na imprensa e uma boa saída. Quando cheguei a Macau fui oferecer o livro à Livraria Portuguesa. Disseram-me que o livro já estava esgotado e que tinha já sido feita uma encomenda. Isto significa que os leitores gostam deste modelo que não é muito da tradição portuguesa: a antologia critica. É raro encontrarmos uma selecção de contos em que cada um venha acompanhado por uma pequena nota bio-bibliográfica do autor mais um estudo sobre aquela narrativa. Mas estamos a fazer a divulgação do livro por nossa conta e risco.
O que preparou para a sessão de hoje?
Uma chamada de atenção para o género conto que, embora estando sempre na literatura portuguesa um pouco à sombra do romance, é pujante no século XIX. Camilo Castelo Branco tem um conto extraordinário, “A Caveira”. O romantismo está todo ali e o próprio autor também (mais um superlativo). O mesmo pode ser dito sobre Eça de Queiroz ou Alexandre Herculano. O conto também está nas mulheres que escreveram na décadas de 40,50 e 60. A minha escolha para o segundo volume é uma orientalista, daquelas que não deixam quaisquer dúvidas: Maria Ondina Braga. Só comecei a gostar verdadeiramente dela depois de ter estado no pouco oriente que conheço. O romance “Nocturno em Macau” é lindo (sussurra). Escrevi no outro dia a nota bio-bibliográfca de Maria Ondina Braga. Uma das últimas frases é qualquer coisa que tem uma citação de Jorge de Sena: “É um grande mistério artístico daqueles que as letras portuguesas insistem em não revelar”.
Qual foi o conto que escolheu?
“Recolhimento”. É sobre a solidão feminina, os espaços de clausura, a morte. É um conto triste, triste, mas do mais triste que se pode imaginar. Não é um texto de clamor, mas subterrâneo. De pequenas palavras, contido, sóbrio e evanescente, dito em voz baixa. É para se ficar na fossa, como dizem os brasileiros.
O conto é um parente pobre nos estudos sobre a literatura portuguesa?
Já não é. Há hoje um interesse grande pelo conto e isso vê-se no número muito considerável de antologias que têm sido publicas. Não é um interesse muito expressivo mas há gosto.
Como avalia o ensino do português na CPLP e em Macau?
Não tenho maneira de responder: não sei. Sou uma recém-chegada a Macau. Cada encontro com as pessoas, cada leitura, é pura aprendizagem. Há uma coisa que sei: nós, Portugal, não temos noção do interesse que o português tem fora dos países lusófonos, nomeadamente no oriente. A quantidade de falantes de português no Japão é espantosa! Não temos noção e talvez por isso não estejamos a responder à altura desse interesse. Seria bom que o ensino superior se rejuvenescesse. A média etária na Faculdade de Letras é superior a 45 anos. É pena que não se abram concursos. Há muitos ex-bons alunos cujo lugar seria naturalmente lá, a ensinar. São excelentes investigadores e seriam excelentes professores. Alguns trabalham para centros de investigação por mero gosto, de vez em quando são retribuídos financeiramente, mas por norma o único benefício que retiram é puramente curricular.
A não renovação do quadros tem efeitos na pedagogia?
Não sei se terá. A pedagogia no ensino superior é uma questão tabu: o professor de ensino superior deve ser um mestre e para isso não há uma pedagogia, uma forma que se transmita. Mas estou a falar de ideais. Há de facto uma falta de renovação do ponto de vista cientifico e de alteração de mentalidades. Um exemplo: sempre gostei dos GNR, não só pela figura sui generis de Rui Reininho mas pelos textos das músicas. Aliás ele tem um livro de poemas cujo o título só podia ser um trocadilho, “Come On & Anas”. Nunca na área da literatura portuguesa se manifestou um interesse académico pela cultura pop – a designação não tem qualquer sentido depreciativo. E há textos da música portuguesa contemporânea que são de grande nível poético.
Que canção/poema dos GNR sugeria aos académicos?
Há uma canção que eu ouço muito: “Sub-16”. Lembro-me de dois versos – penso que são dois, nunca vi o texto no papel – “E aos 16 nunca se teve tempo de ler o ‘Senhor dos Anéis’ só de uma vez”. Bem podia ser o epitáfio para constar na minha lápide. Que horror! (risos) É um poema sobre a juventude e a juventude na literatura é coisa maravilhosa. Não estou a falar da literatura infanto-juvenil apesar de manter as minhas as memórias afectivas marcadas pelas minhas leituras, como aconteceu em Pequim. Os jovens têm com certeza uma compreensão diferente sobre o que é a contemporaneidade. E nas novas tecnologias estão acontecer coisas muito interessante do ponto de vista literário. A literatura também já ocupa um espaço considerável na blogosfera. Há críticos literários que têm blogues muito interessantes. É o caso de José Mário Silva e Eduardo Pitta: “Da literatura” foi o ponto de irradiação na minha lista de favoritos. Os blogues criativos conheço menos.
A publicação de textos num medium com alcance mundial sem passar pelo crivo das editoras têm efeitos na produção literária?
Há blogues de escritores que embora não sendo romances ou contos têm uma qualidade do ponto de vista literário que não é desprezível.
Pedro Mexia será exemplar?
O “Estado Civil” é maravilhoso: aqueles pequenos aforismos que ele escreve, os textos um pouco mais longos que o leitor incauto é capaz de considerar auto-biográficos... Embora sendo um discurso intimista, não é confessional. O ponto de vista do escritor sobre esta questão é interessante.
Qual é?
Posso contar uma história. Em 2006, o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores foi ganho por Francisco José Viegas, com o romance policial “Longe de Manaus”. Nesse ano estava no júri e votei nele. O nosso departamento organiza todos os anos um curso livre de literatura portuguesa contemporânea e convida o autor que ganhou a grande distinção no ano anterior. Convidámos o Francisco José Viegas e Eduardo Pitta como orador principalmente. Surgiu naturalmente a questão dos blogues e da escrita.
Posso fazer um parêntesis?
Pode. Francisco José Viegas tem também um outro blogue escrito por uma espécie de heterónimo. O senhor que escreve, António Sousa Homem, é um fidalgo ultraconservador nortenho que eu me lembro de ler nas páginas do morto e enterrado “Independente”, quando era um grande jornal, durante o segundo mandato de Cavaco Silva, e a primeira coisa que as pessoas interessadas na situação política faziam à sexta-feira era ver qual a qualidade do trocadilho que vinha na primeira página. Acreditei até ao início de 2007 que o fidalgo existia. Afinal era o Francisco José Viegas.
Que posição assumiram os escritores no colóquio?
Os dois deram uma opinião comum. Não é gente para estar apreensiva: não são pessimistas e melancólicos à maneira portuguesa. Não sabiam qual seria o futuro da criação literária sobretudo no caso da narrativa. Enquanto autores sentiam que havia uma força que se libertava no blogue e que se esgotava, desaparecia no éter. E isso poderia ter consequência na escrita para o papel.
Como o diário estaria para o romance?
Pode ser uma situação equivalente com a diferença de que o diário é um texto muito pessoal, testemunhado e circunstancial. É uma discussão teórica na qual não quero entrar, mas trata-se de uma escrita rápida, impressiva e que dura 24 horas. É o que acontece comigo que agora estou a escrever um diário sobre a minha estada em Macau. O diário escreve-se para não ser lido – estou a falar do que se esconde no fundo da gaveta e não o de Miguel Torga. O blogue pode ser ficcionado, tem leitores previstos e imagino que isso tenha repercussões na escrita. Há uma frase, a última que Fernando Pessoa escreveu: “I know not what tomorrow will bring”. Francisco José Viegas e Eduardo Pitta estão nesta posição. O amanhã ainda é só um amanhã. Estes escritores estão numa espécie de intervalo.
Correndo o risco de não haver o distanciamento necessário à análise, a mudança do instrumento de escrita pode implicar uma mudança no tipo de escrita?
Fiz a minha tese de doutoramento sobre um “alien” hoje em dia, o Aquilino Ribeiro. Comecei o trabalho na década de 90 terminei em 2000 e fiz uma coisa que gosto muito: ler jornais e esse tipo de publicações mais efémeras. Sou viciada. Percorri (não li) a “Seara Nova” desde 1921 até 1963, ano em que o escritor morreu. E de vez em quando apareciam inquéritos aos escritores. O inquérito de verão dos jornais em que aparecem perguntas típicas e que ainda hoje se fazem:
“Onde é que escreve? À secretária, fora de casa, no café?” António Lobo Antunes é martirizado com isso.
Exactamente. Ele conta histórias giríssimas que eu não sei se são verdade, como a história de escrever no Miguel Bombarda [Hospital Psiquiátrico de Lisboa]. Nas décadas 20, 30 e 40 a pergunta “Toma café enquanto escreve?” era importante. E os escritores – não sei se por delicadeza ou por estarem convictos de que aquilo era mesmo importante – respondiam. Imagino que seja uma questão que faça sentido para os escritores se não António Lobo Antunes (logo quem) não se daria ao trabalho de responder. Acho que é também uma distinção que gostamos de fazer para nos sentirmos mais parecidos com eles e menos seres anónimos. Fazemos um esforço, não consciente, nem sequer verbalizado, para não haver o fosso que os românticos acentuaram entre o Eu poeta e o vulgo. Há também escritores que estão em estado permanente de performance artística. Agustina Bessa Luís é uma jogadora extraordinária (se jogar xadrez joga certamente muitíssimo bem). É genial, gosta de criar teias: quando fala em nome próprio nunca sabemos onde começa o ser humano comum, o tal com o qual nós gostávamos de nos nivelar.
Do ponto de vista académico a distinção tem interesse?
Tem, embora seja ainda tratada com pinças. Nas décadas de 60 e 70, houve um esforço muito grande para evitar as chamadas leituras biografistas, à maneira do século XIX. Um exemplo caricatural: lembro-me de ouvir uma pessoa com uma mentalidade antiga a falar da importância que teria tido na poesia de Camões o facto de ele ter perdido um olho. A reacção a isto foi também extremada. A dada altura deixou de existir o autor e passou a existir só o texto. Eu fui ensinada a ler Rimbaud e Eça de Queirós ignorando a época histórico-cultural literária. Felizmente houve um retorno mas a questão do autor é ainda tratada com muita cautela. Porém, a fotografia do autor na capa dos livros é cada vez mais frequente. Uma fotografia é sempre um real emoldurado. Há debates muito curiosos sobre a representação iconográfica dos autores na época contemporânea. Um amigo meu e um grande ensaísta Luís Mourão deu uma sessão sobre Mafalda Ivo Cruz que começava justamente por umas breves considerações sobre as fotografias da autora em vários livros. Não me lembro das conclusões mas foi uma intervenção bem gira. Suponho que o estado de criação seja uma coisa profunda, que não se fecha nem se interrompe.
Posso saber o que escreveu no seu diário sobre Macau?
Digo-lhe o que vou escrever: vi exposições de artistas macaenses contemporâneos de que gostei muito. E adorei a Rua da Felicidade. Foi o que mais gostei de Macau: estava vazia, sem esta chusma de turistas, onde me incluo. Aquela edificação não é parecida com nada que tenha vista. É há a rua, o beco e a travessa. Achei delicioso, fotografei tudo.
Diverte-se com as tabuletas de Macau?
Sim...Estabelecimento de comidas...Quando estou pouco tempo nos sítios sinto-me esquizofrénica. Na biblioteca, aparece-me um livro sobre a toponímia de Macau, outro sobre a culinária, outro das famílias, e eu numa corrida para tentar ser bem comportada e não me distrair. Agustina Bessa Luís em “A Quinta Essência” diz coisas muito interessantes sobre a Rua da Contemplação. É isto que fica na minha memória afectiva: o espírito do lugar, os meninos fardados a lerem na biblioteca num domingo à tarde. O Acordo Ortográfico....... Ma Donna! (risos) Isto é uma verdade à mercê de La Palisse: há os que são absolutamente contra; haverá certamente os que estão absolutamente a favor e há os que estão à espera para ver. É o meu caso. Podemos tomar a posição de Fernando Pessoa que se recusou a alterar a forma como escrevia. Sou agnóstica. Tenho uma resistência atávica a este tipo de mudanças mas acho que me vou habituar. Perturbar-me-ia se tivesse implicações na fonética.
Vai mudar a forma como escreve?
Vou ser obrigada, sou professora não posso ter um português diferente da norma. Para consumo interno não sei.
O acordo pode tornar a língua mais forte?
A ideia é essa. A questão é que a língua escrita não é só ortografia: é vocabulário e aí ai não há acordo nenhum que evita que a língua evolua de forma divergente. Os próprios nativos de Brasil que vivem em Portugal têm muita dificuldade em ler os escritores brasileiros sobretudo os que têm uma linguagem muito urbana. Não há nada a fazer: é o destino natural da língua. Nem é bom, nem é mau.
FONTE: Hoje Macau - China
http://www.hojemacau.com/
Nenhum comentário:
Postar um comentário