segunda-feira, abril 07, 2008

A dimensão estética da obra poética de Agostinho Neto

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A propósito da obra poética de Agostinho Neto
A dimensão estética da obra poética de Agostinho Neto

João Maimona
Tomando como objecto de análise Sagrada Esperança e Renúncia Impossível, este estudo pretende apresentar uma caracterização sumária da démarche e prática poéticas de Agostinho Neto, como político e intelectual. Para efectivação, esta abordagem passa em revista diversos eixos temáticos patentes na obra de A. Neto: a síntese de emoções colectivas, a conquista da liberdade, o acto de metamorfose, a apropriação da consciência colectiva, a descrição da existência humana e a fusão de esperança e engajamento.Palavras-chave: cortina de linguagem, memória literária, áreas temáticas, movimento social endógeno, Homem universal, cláusula moral, liberdade de concepção, linguagem événementielle.

1. A modo de preâmbulo
2. As áreas temáticas
3. Tradução literária das angústias
4. Conclusão

Gostaria de começar esta comunicação retomando um parágrafo de meu trabalho As vias poéticas da esperança em Agostinho Neto. Optei, judiciosamente, por essa direcção por serem palavras que representam, em meu entender, o requinte de análise que tenho da poesia de A. Neto.

Ao chamarmos a nós a leitura do poeta da SAGRADA ESPERANÇA, estaremos em condições de descobrir um poema que anuncia um desejo, um acto de metamorfose por excelência. Teremos, então, algum prazer em observar os canais pelos quais a poesia de libertação se converte em libertação da poesia. O poema não faz senão projectar no espaço a imagem que o poeta tem da palavra como objecto de conquista de novos horizontes.

Procura aproximar-se da alma da comunicação. A circunstância de concentrar em suas mãos palavras plenas permite ao poeta adquirir os objectos mais íntimos para conceber os seus planos de expressão e de comunicação que se resumem numa cortina de linguagem

Sobre os marcadores temáticos

Estas palavras de introdução sugerem uma espécie de cruzamento onde podemos encontrar a espessura simbólica dos versos e a respiração de uma linguagem que caracteriza a perspectiva netoína. A. Neto oferece-nos uma memória literária dotada da faculdade de recapitular os principais marcadores temáticos de um mecanismo poético que invoca a profusão de imagens quotidianas que a interioridade da obscenidade colonial foi conferindo à África.

A enumeração dos marcadores temáticos configura a singularidade da tomada de consciência de um poeta e político que soube formular o mais sólido percurso do moderno nacionalismo angolano para o surgimento de uma Nação forte e coesa; o surgimento de um país independente, capaz de exercer efectivamente a sua soberania. Um intelectual que acreditava na existência de um povo com uma identidade própria, capaz de exercer e consolidar a sua influência no concerto das nações, graças à sua cultura, ao saber, ao talento e à habilidade de seus filhos; graças ainda à riqueza e à diversidade dos seus recursos naturais. Um poeta que desejava o surgimento de uma África em movimento e não estática. Uma África viva e em constante desenvolvimento.

Se considerarmos a dinâmica poética como movimento social endógeno, podemos desanichar na poesia de A. Neto diferentes segmentos temáticos que reflectem variadíssimas dimensões da acção individual com tendência para a colectiva: a sintese de emoções colectivas, a conquista da liberdade, o acto de metamorfose, a apropriação da consciência colectiva, a descrição da existência humana e a fusão de esperança e engajamento.

Neste exercício de construção poética, cada região temática ocupa um lugar singular e assume uma função na démarche e prática de conquista da liberdade e manifestação de desejo da humanização. Esta notável criatividade de linguagem, que se inicia em 1945 com o texto poético Partida para o contrato, indica a natureza da harmonia dos versos e a perspectiva de profundo humanismo que o Jorge Macedo apresenta quando diz: "Os textos poéticos de Agostinho Neto permitem ler no colorido estético grandes formulações do pensamento, feitos para, de forma dupla, conquistar humanizações do homem humilhado, inferiorizado, coisificado, denunciando, pois, situações injustas, desumanas, usando imagem-ideia. Estas imagens- -ideia condensam traços mistos entrelaçados de descrição e interpretação universais e universalizantes

Sobre a tradução literária
das angústias

Eu tomaria os veículos da Esperança como um mosaico de instrumentes para a tradução literária das angústias de uma comunidade humana.

A partir do equilíbrio formal que conforma esses veículos da Esperança, A. Neto procura colocar-se em percursos que lhe proporcionem utensílios necessários para recriar atmosferas, habitats e episódios que assinalam o nosso passado comum. Ao evocar estas linhas, pretendo apresentar o poeta que não ficou indiferente ao movimento das independências africanas. A exemplo de outros ilustres intelectuais de sua geração, defendia a consolidação de uma cláusula moral e de solidariedade para o progresso económico do continente.

Num ambiente de conflito permanente e de contradições históricas, o olhar de A. Neto procurou um acasalamento com a realidade objectiva e a linguagem que nela se desenvolvia. E foi exibindo, ao longo de seu percurso, sinais evidentes de portador de esperança para o desenvolvimento e desfecho de uma luta claramente libertadora ou emancipadora; a recuperação da dignidade do Homem africano; a consolidação de uma consciência do progresso com um perfeito conhecimento e respeito pelos valores do passado:

às nossas tradições
havemos de voltar
O triunfo do saber e da convicção proporcionou ao Neto a faculdade de tomar consciência do drama clássico que a colonização representava para o continente africano.

O que melhor caracteriza a démarche de A. Neto é a ambição de abrir novas perspectivas para a libertação das comunidades oprimidas em sua própria terra.

Em A. Neto, é visível a manifestação de uma hierarquia das prioridades: a ascensão à independência, a defesa e promoção da cultura, o progresso económico e, naturalmente, a abertura ao mundo.

A. Neto propõe, em seus versos, um percurso do Homem africano trucidado e uma interrogação objectiva sobre o futuro.

Nessa obra que se enquadra perfeitamente na tendência da conhecidíssima poesia engagée, os diversos níveis da linguagem acabam por exprimir uma orientação poética de contemporaneidade, incarnando a alegria de cantar a África, exibindo a personalização de um projecto colectivo.

Em Sagrada Esperança e Renúncia Impossível cresce uma linguagem que procura dar relevo à simplicidade das figuras de estilo. Uma linguagem construtiva que tem por ambição anunciar o início de outra fase social. Em suma, dir-se-ia que se trata de versos com uma configuração estética própria.

Da síntese de emoções colectivas à valorização da existência humana e a fusão esperança-engajamento, passando pela conquista da liberdade, pelo acto de metamorfose e pela apropriação da consciência colectiva, A. Neto aparece como uma entidade falante e actuante que coloca no centro das preocupações a renovaçâo dos diferentes tecidos da sociedade. Para o poeta, a renovação ou reconstituição dos tecidos social, educacional, cívico e moral revela-se um acto simbólico de importância vital:

ainda o meu sonho
o meu grito
o meu braço
a sustentar o meu querer

Sagrada Esperança e Renúncia Impossível, como instantes de diálogo permanente, exibem o contexto poético de um percurso político, cultural e humanista. Revela-se imperioso e lícito destacar aqui uma trajectória que revela resistência a variadíssimas formas de dominação.

Evidencia-se na palavra poética de A. Neto um engagement político portador de uma estética peculiar.

Se os textos de Sagrada Esperança e Renúncia Impossível reflectem a grandeza moral, o entusiasmo e o racionalismo do percurso do poeta, pode dizer-se que A. Neto procurou desempenhar a sua função social e intelectual com elevado sentimento patriótico:

na minha história
existe o paradoxo do homem disperso

Essa dimensão da palavra poética é fundamental para a compreensão da liberdade de concepção que o poeta pretende erguer e ampliar. É aqui onde o poeta descobre o sentido da liberdade com invólucro de certeza e fé. De facto, estamos perante uma bela ilustração de evidenciação do élan poético que faz transparecer a identidade colectiva, como se as colectividades integrassem a própria história do poeta. A cadeia significante da elaboração poética reside nesse registo voltado para a interioridade das colectividades humanas.

Pelo que até aqui foi dito sobre um percurso com características próprias, ter-se-ia a tentação, à guisa de conclusão, de afirmar que não existe na perspectiva netoína divórcio de sentido entre a gestão da comunidade de palavras e a gestão da exteriorização de voz pessoal que se desenvolve numa linguagem événementielle. Do ponto de vista conceptual, poder-se-ia deduzir que essa cadeia significante da elaboração poética em A. Neto assenta num mosaico de áreas temáticas que libertam caminhos de convergência onde se pode efectuar a leitura da essência da liberdade e da reformulação de utensílios que concorram para a corporificação da humanização.

vida cultural

FONTE: Jornal de Angola - Luanda,Luanda,Angola

Um comentário:

  1. iNTERESSANTE ESTE ARTIGO, FOI MUITO ÚTIL PARA MINHA FACULDADE!!!

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