sábado, abril 12, 2008

Curador explica as convergências de Bacon, Freud e Moore

Curador explica as convergências de Bacon, Freud e Moore
- 10/04/2008 14:18:37
As convergências de Bacon, Freud e Moore, por Feliz Suazo
Bacon, Freud e Moore situam-se em um ponto intermediário entre as correntes realistas e as expressionistas, com algumas alusões ao surrealismo. Compartilham com estas correntes o aspecto figurativo, mas se diferem de suas posturas críticas e de seu impulso socializante. Suas obras não militam em uma tendência específica e se referem a nada além do que são ou do que estes três artistas percebem em seu círculo familiar, profissional e afetivo. Estas características outorgam uma força singular às obras destes três criadores ingleses, cujos trabalhos gráficos mantêm um diálogo coerente com o corpo central de suas respectivas propostas. Em tal sentido, esta mostra procura registrar os paralelismos e as convergências características destes autores, tanto na técnica como na dimensão plástica, sempre enquadrados em dois eixos matriciais: a figura e a gravura.

Francis Bacon: corpo transfigurado

As gravuras de Bacon – assim como suas pinturas – se dedicam mais às imagens corporais do que à aparência. Segundo o artista, “o homem moderno busca sensações que não estejam submetidas ao tédio da representação fiel”. Esta presunção esclarece alguns aspectos característicos de seu trabalho. As perspectivas se deslocam, os rostos se torcem, os quartos se convertem em celas ou cubículos. Neste mundo vazio e claustrofóbico, o real se torna inalcançável; há apenas uma janela cega, uma cadeira imóvel, um espelho sem reflexo ou uma porta que conduz a lugar nenhum.

Os personagens de Bacon parecem estar sempre em trânsito de um estado a outro, como que encerrados no redemoinho insondável da existência. Por isso ele afirma: “Trabalho melhor no caos. O caos me sugere imagens... Você cria uma imagem que muda continuamente, esse momento depende de seu instinto e de sua sensibilidade”.

São corpos deformados que se contorcem no espaço como marionetes monstruosas e sem arbítrio. As gravuras de Bacon combinam o caos anatômico das figuras e a rigorosa disciplina do encerramento, inclusive quando suas peças sugerem ou têm como palco espaços abertos (a rua ou a praia). Seus retratos e nus parecem se referir ao confinamento simbólico do indivíduo, toda vez que descrevem e circunscrevem a própria órbita. Mas essa visão mostra planos e arestas que se multiplicam como em uma galeria de espelhos. Este cerco vigilante e obsessivo revela a existência de mecanismos de controle invisíveis que restringem e disciplinam o comportamento humano. Definitivamente o corpo é um dispositivo político que rejeita a lógica das funções e as imposições normativas para se confrontar freneticamente com um destino que não conhece, tal como Édipo – herói tácito dessas disputas – busca livrar-se dos desígnios do oráculo.

Segundo John Berger, a obra de Bacon está orientada “ao sistema nervoso” e não ao “cérebro”. Neste sentido, o artista não procura ilustrar ou descrever o real, e sim comunicar as coisas de forma mais direta e crua, aproveitando a deformidade corporal e incorporando as marcas acidentais que vão aparecendo no processo da obra. Contudo, essa apelação ao instintivo está infestada de matizes e referências à história da arte (Ingres), à dramaturgia antiga (Édipo Rei de Sófocles, Oresteia de Ésquilo), aos sujeitos de seu círculo íntimo (John Edward), a personalidades da literatura (Michel Leiris), da filosofia (Gilles Deleuze) e da política (Leon Trotsky, Harold Wilson).

Lucian Freud: psique e gênero

Neto do célebre psicanalista Sigmund Freud, o início da carreira deste artista está associado ao surrealismo, evoluindo mais tarde para uma figuração crua, de rigorosa resolução técnica, que deliberadamente separa a emoção da representação. Vem daí a dureza e aparente inexpressividade de seus personagens. Esta vacuidade psíquica que se aloja no corpo para dominar o desejo se contrasta com a precisão quase cirúrgica dos traços anatômicos.

Freud fez suas primeiras gravuras em 1946 e, após uma longa pausa, retomou a técnica em 1982. Desde 1988 trabalhou com o impressor de origem libanesa Mark Balakjian, da Studio Prints em Londres. “As gravuras de Freud – escreve Deborah Wye – se distinguem por sua penetrante tensão psicológica e suas radicais soluções compositivas”. Por sua parte, Starr Figura, curadora da mostra Lucian Freud: The Painter´s Etchings (MoMA, 16-12-2007/10-03-2007), reconhece que Freud não é um gravurista tradicional, pois trata a superfície gráfica como uma tela.

Freud sempre trabalha com modelos, geralmente pessoas vinculadas a seu círculo íntimo, como sua filha Bella e sua mãe, além de amizades, colegas e amantes, os quais apresenta detalhada e metodicamente. Os personagens retratados – juntos ou em separado – permanecem indiferentes e ilhados, como se nada ao redor os afetasse ou motivasse. Quando estão nus, parecem livres do desejo e da vergonha. Se estão vestidos (com uma camisola, um calção ou uma camiseta), não é por vaidade ou porque tentam seduzir. Eles não expressam desdém nem amabilidade, nem alguma outra emoção reconhecível, apenas uma profunda abstenção psíquica, como se estivessem ausentes. Aqui as noções de sexo e erotismo sucumbem perante a densidade mental dessas criaturas sem horizonte. Algo sórdido e também sublime, carnal e patológico envolve essas figuras, elaboradas com traço diáfano e meticuloso.

Henry Moore: estrutura e sensualidade

Reconhecido como uma das figuras fundamentais da escultura do século XX, as inquietudes de Moore giram em torno de formas arcaicas, apresentando um contraponto entre volumes positivos e negativos. Este deslocamento alternado de superfícies compactas e vazios sinuosos anula a tradicional divisão entre interno e externo. Com isso, consegue uma obra de caráter orgânico, atenta às prioridades e aos acidentes do material, questão que se manifesta tanto em suas peças figurativas como nas abstratas.

Moore iniciou seu trabalho gráfico com linóleos na década de 1930; embora suas incursões por este meio se tornem notórias na série de gravuras sobre refugiados, que realizou durante a Segunda Guerra Mundial, e se consolidem nos portfólios que produziu a partir da década de 1950. Nessas obras é possível observar com nitidez as destrezas do escultor, toda vez que manipula a superfície gráfica como se modelasse sobre ela. Seus temas principais foram a Madonna e a criança, as figuras reclinadas e os estudos da natureza (ossos, animais, pedras), todos representados na coleção MAC.

A presente seleção inclui as séries Nudes Album (1976) e The Artist´s Hand (1980), nas quais se aprecia o interesse do artista pela figura e seus detalhes. São trabalhos nos quais prevalece o olhar analítico, centrado na reconstrução linear do que foi observado nos volumes. Os contornos são drásticos e os corpos são maciços como pedra. Reclinadas, de costas ou sentadas, as figuras exibem uma discreta sensualidade, sem negar a sólida estrutura anatômica que as constitui.
Confira aqui as fotos dessa publicação.
FONTE (photo include): Agência Estadual de Notícias - Curitiba,PR,Brazil

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