
17/11/2007 23:11:00
Luvibórix
Por Carlos Emílio C. Lima
Ele mantém somente um olho fechado para que o outro veja normalmente o espaço. Tampa um olho enquanto mantém o outro aceso vibrando, vivo, vi/ vendo. Intensíssimo. Por que não abre os dois juntos? Não pode. Um olho está costurado. Não pode fazer assim. Se vendasse o outro olho e reabrisse o direito, por exemplo, veria outros seres e coisas, um universo distinto deste em que nós estamos. Com os dois olhos abertos misturaria os dois universos numa visão simultânea. O universo esquerdo se chocaria com o universo que flui do olho direito, com este universo que resiste sólido, dentro do qual vivemos tudo o que é possível. As coisas e seres novos se embaralhariam com tudo o que já existe, se fundiriam, tudo poderia mesmo atingir o ponto da destruição final. Os dois universos, o oculto dentro de seu globo ocular, e o visível, cujas raízes são os raios do seu olho desimpedido, não podem ocorrer ao mesmo tempo exato. Não caberiam juntos no espaço. Será o desastre, o cataclismo temido desde sempre? Por isso o guardam, por isso o servem e protegem. Eu sou um desses.
Quando o vi pela primeira vez, mantinha-se quieto, melancólico, no fundo do grande poço e continuava a ser alimentado por pedras maciças, granito e mármore, cristais e ferro, torres e pináculos, restos das estátuas e paredes das demolições preciosas por ele prefixadas com sábia antecedência. Jogávamos-lhe amontoados de rosas também. Esfregava as rosas nas superfícies ásperas, granulosas, irritantes de certos blocos de pedra inteiriça e só depois é que as comia. Ouvíamos o triturar de suas mandíbulas dentadas. Raras vezes pedia para sair lá debaixo. Gostava mesmo de caminhar pelas galerias subterrâneas e de molhar seu corpo de réptil nas águas das cavernas secretas, nas cachoeiras profundas. Seu olho direito dilatado mantinha o mundo suspenso e intacto, perene. O horizonte, as montanhas e os povos.
Ao digerir pela enésima vez uma cabeça do apóstolo João, esculpida em série por um artesão-escultor anônimo do século XII, exasperou-se, lembrou-se. Precisava novamente vistoriar o canteiro de obras de devastação em que se transformara o planeta fixado pelo seu olhar de limites. Resolveu pedir para habitar a superfície da Terra por algumas semanas (foi o que nos disse, no início) para realizar mais uma inspeção, ver como iam seguindo os trabalhos de seus desejos. O incólume tapa-olho preferido sobre o olho infinitamente fechado, perpétuo em sua imobilidade; ele subiu com uma lentidão molhada pela escada de aço e pediu-me que o guiasse pelos arredores porque disse-me, entre entristecido e indiferente, ficara desacostumado e tudo na superfície se modificava muito rapidamente mercê das ações de suas formigas obreiras, nós, os seres humanos. Não reencontraria os caminhos do milênio passado, bastante provável, entre os novos guindastes que se moviam num entrecruzar-se metálico pela planície de neve interminável.
Ouçam a sirene vermelha do carro-esteira. Escondam-se todos no interior das máquinas, em suas casas-nômades. É ainda o olho direito que está aberto! Mesmo assustados com a sua passagem todos vocês podem respirar com alívio: nosso universo, nosso mundo equilibra-se a salvo. Posso notar que é o olho direito arregalado e tenso, sedento de ar e de luz a irradiar e a reter tudo o que está presente, posso perceber com perfeição o olho aberto modelador já que bem perto de mim ele sentou-se, instalou-se, sua cabeça. Não tenho medo, fui capacitado para não sentir pavor ante sua presença e depois, aqueles que, como eu, não são feitos de granito e de rocha, nada precisam temer das mandíbulas de Luvibórix, o eterno...
Levo-o a passear pelas auto-estradas sem lhe falar uma palavra. Sei que ele não aprecia o teor de nossas vozes e inflexões, mas que sente um prazer indefinível em suas escamas, envolvidas pelo som dos motores deste grande carro. Apascenta-se e se diverte em observar como os campos estendem-se vazios, como todos os seres vivos temporários se esconderam à sua passagem. Ele retorce seu olho gelado para mim, que estala e range bem próximo e me pergunta, num desafio, numa provocação que sei que é dirigida a toda a humanidade, apontando com os cílios em forma de flechas afiadas para a fileira de árvores desnudas, os galhos emaranhados e secos dessas árvores, entrelaçados, complexos nos topos:
- E se eu retirar a coberta de meu olho esquerdo. Se eu descosturar suas pálpebras e não tampar este outro? Quem ficará, quem continuará aqui? - Você ou eu?
Ele ria, aprofundando-se num definitivo prazer, seu olho hexaédrico assobiando, brilhante encravado no espaço. Eu sabia que nem ele mesmo se atreveria a tentar completar a ameaça ancestral, antiga, também temida por nossos avós. Para ele o fenômeno subseqüente também era desconhecido.
Os guindastes moviam-se por toda a planície de neve, às centenas, ladeando os bosques e as construções em ruínas. Os bosques de multiplicadas árvores nuas, secas e inexplicáveis. Subitamente os guindastes pararam: haviam percebido a presença de Luvibórix.
- E se eu fechar o outro olho, mergulhar de uma vez na escuridão?
Sabíamos, nesse caso, o que aconteceria. Ele; mediante tal gesto, geraria um outro Luvibórix, o que tornaria a existência humana duas vezes mais insuportável do que já era então. Ele não o fazia porque não gostaria mesmo de dividir seu domínio com um outro tão igual em potência e voracidade, sua duplicação. Não se ouvia mais o canto dos pássaros. A neve cobrira mesmo todo o planeta, dava para perceber, mesmo sem prestar atenção aos informes vindos do rádio.
Numa curva prolongada da auto-estrada ele bafejou novamente sua fala enevoada de sino, abafada, quente.
- Hoje comi os últimos pedaços chegados nos tratores negros. Pelo que sei não existe mais nenhuma delas na Europa e na América, em parte nenhuma do mundo. As minhas construções preferidas. Todas foram trazidas em blocos nesse últimos trezentos anos em que o frio na superfície tem aumentado. E agora vim inspecionar a demolição da primeira cidade eletrônica. Já engoli a parte mais saborosa e evidente de vossa mitologia. Agora vou começar pelas cúpulas geodésicas que vocês disseminaram, à minha revelia, pelo planeta.
Ficava satisfeito em observar que o trabalho humano já ia bem adiantado:as desconexões. Já que nenhuma daquelas minuciosas construções ficara de pé, trituradas todas nesses três últimos séculos, na falta do prato principal, precisava habituar-se a uma alimentação voltada para outros materiais e condimentos; madeira, gesso, plástico, ligas metálicas sintéticas. Eu sabia perfeitamente que ele poderia adaptar-se a esta nova dieta e que sempre haveria pedras cinzeladas, as quais ele apreciava sobre tudo o mais, no material incompreensível que iria chegar à sua boca. Por ela eu via minar a baba satisfeita com a ampla esterilidade nitente da planície através da qual deslizávamos com ruído.
Disse-lhe que ele sentara-se próximo a mim, mas, logicamente, foi apenas uma força de expressão. Ele tem um quilômetro de comprimento e não pode sentar-se propriamente, lagarto magnético que é. Estendeu-se sobre o leito adrede preparado sobre os rolamentos fumegantes. Vejo com nitidez seu olho direito pelo nicho. O comprido carro-esteira faz estrondar toda a planície. Estamos no amanhecer do dia, por volta das sete horas. Nós, humanos, há séculos não paramos de trabalhar para ele, para alimentá-lo. Ele até que se compraz com tanta dedicação, mesmo forçada. Nossa tarefa é desconstruir tudo o que havíamos construído, pedra por pedra, sonho por nada.
Escuto sua voz através das tubulações metálicas. Ele aprecia conversar conosco de vez em quando a cada mil anos, mais ou menos. O pormenor notável é que ele prefere falar sozinho. O enorme espelho reflete em silêncio seus olhos. Estou atento.
Lá, do horizonte, escutou-se um trovão. Duas antigas torres residenciais acabavam de ser implodidas. A poeira escura espalhava-se pela brancura do céu baixo. Não sobraria nada da megalópole abandonada, em poucos meses.
- É, amanhã começarei a me alimentar dos arranha-céus de concreto - obtemperou.
Agora seguíamos pela grande reta da auto-estrada. Toda a planície repercutia sob o peso das bolas do carro-esteira. Ouvi novamente sua voz... Não se divisava nenhum ser humano pela planície gelada.
- Já vi o suficiente. Podemos voltar. Não quero passar a noite sobre a crosta do planeta. Quero que você me leve de volta para o poço, imediatamente.
O poço era a cratera de um velho vulcão extinto. Sentia-me aliviado. Talvez só daqui a mil anos ele retornasse à superfície. E não seria eu seu condutor, dessa outra vez.
Há rumores de que no Oriente existe um outro Luvibórix mas, como tudo o que vem de lá novamente está embrulhado em lendas, não temos certeza. As comunicações de há muito foram cortadas. O mundo está envolto por um frio que se avoluma. Cada vez mais espesso. Em ascensão.
Ele nunca mais terá a coragem de abrir os dois olhos ao mesmo tempo. Nem ele próprio sabe o que acontecerá. Portanto, um universo inteiro mantém-se intacto e desconhecido no interior de seu olho esquerdo, vendado, vedado, fechado e costurado para sempre, muito provavelmente. E, por sua vez, este olho fica por debaixo da terra. Nunca de fato saberemos que universo ele poderia trazer, ao abrir-se. Minha avó contava, nas noites de invernos menos frios do que o atual, que um ancestral de nossa família teria participado da expedição que costurara o olho esquerdo do dragão simétrico em certa sala imensa de estalactites e estalagmites de ouro e esmeralda no interior atordoante do planeta. Mas isso foi há milhares de anos, antes dessa glaciação. Antes até mesmo da compreensão.
Portanto, trago de volta à sua morada, depois de seu passeio matinal, este nosso estranho inimigo com quem somos forçados a conviver há gerações e gerações perdidas. Seu nome é Luvibórix, o de pele de platina, o eterno. Observo que a venda que oculta seu olho inesperado está bem segura. Resistirá mais mil anos. Com o outro olho ele contempla a planície gelada e branca, os guindastes atrás das árvores sem folhas.
Estou trazendo de volta do passeio para casa Luvibórix: escutem o estrondo. Escutem o retumbar do intolerável carro praticamente sem fim, a longa sirene vermelha. Continuem ainda escondidos em suas tendas, seres humanos, Luvibórix, está passando pela estrada, o que mantém o inverno, a neve e o frio, o que sustenta a permanência do universo. Luvibórix, aquele que se alimentou sem cessar de todas as catedrais da Terra. Já não resta mais nenhuma. Escutem!
Por Carlos Emílio C. Lima
Ele mantém somente um olho fechado para que o outro veja normalmente o espaço. Tampa um olho enquanto mantém o outro aceso vibrando, vivo, vi/ vendo. Intensíssimo. Por que não abre os dois juntos? Não pode. Um olho está costurado. Não pode fazer assim. Se vendasse o outro olho e reabrisse o direito, por exemplo, veria outros seres e coisas, um universo distinto deste em que nós estamos. Com os dois olhos abertos misturaria os dois universos numa visão simultânea. O universo esquerdo se chocaria com o universo que flui do olho direito, com este universo que resiste sólido, dentro do qual vivemos tudo o que é possível. As coisas e seres novos se embaralhariam com tudo o que já existe, se fundiriam, tudo poderia mesmo atingir o ponto da destruição final. Os dois universos, o oculto dentro de seu globo ocular, e o visível, cujas raízes são os raios do seu olho desimpedido, não podem ocorrer ao mesmo tempo exato. Não caberiam juntos no espaço. Será o desastre, o cataclismo temido desde sempre? Por isso o guardam, por isso o servem e protegem. Eu sou um desses.
Quando o vi pela primeira vez, mantinha-se quieto, melancólico, no fundo do grande poço e continuava a ser alimentado por pedras maciças, granito e mármore, cristais e ferro, torres e pináculos, restos das estátuas e paredes das demolições preciosas por ele prefixadas com sábia antecedência. Jogávamos-lhe amontoados de rosas também. Esfregava as rosas nas superfícies ásperas, granulosas, irritantes de certos blocos de pedra inteiriça e só depois é que as comia. Ouvíamos o triturar de suas mandíbulas dentadas. Raras vezes pedia para sair lá debaixo. Gostava mesmo de caminhar pelas galerias subterrâneas e de molhar seu corpo de réptil nas águas das cavernas secretas, nas cachoeiras profundas. Seu olho direito dilatado mantinha o mundo suspenso e intacto, perene. O horizonte, as montanhas e os povos.
Ao digerir pela enésima vez uma cabeça do apóstolo João, esculpida em série por um artesão-escultor anônimo do século XII, exasperou-se, lembrou-se. Precisava novamente vistoriar o canteiro de obras de devastação em que se transformara o planeta fixado pelo seu olhar de limites. Resolveu pedir para habitar a superfície da Terra por algumas semanas (foi o que nos disse, no início) para realizar mais uma inspeção, ver como iam seguindo os trabalhos de seus desejos. O incólume tapa-olho preferido sobre o olho infinitamente fechado, perpétuo em sua imobilidade; ele subiu com uma lentidão molhada pela escada de aço e pediu-me que o guiasse pelos arredores porque disse-me, entre entristecido e indiferente, ficara desacostumado e tudo na superfície se modificava muito rapidamente mercê das ações de suas formigas obreiras, nós, os seres humanos. Não reencontraria os caminhos do milênio passado, bastante provável, entre os novos guindastes que se moviam num entrecruzar-se metálico pela planície de neve interminável.
Ouçam a sirene vermelha do carro-esteira. Escondam-se todos no interior das máquinas, em suas casas-nômades. É ainda o olho direito que está aberto! Mesmo assustados com a sua passagem todos vocês podem respirar com alívio: nosso universo, nosso mundo equilibra-se a salvo. Posso notar que é o olho direito arregalado e tenso, sedento de ar e de luz a irradiar e a reter tudo o que está presente, posso perceber com perfeição o olho aberto modelador já que bem perto de mim ele sentou-se, instalou-se, sua cabeça. Não tenho medo, fui capacitado para não sentir pavor ante sua presença e depois, aqueles que, como eu, não são feitos de granito e de rocha, nada precisam temer das mandíbulas de Luvibórix, o eterno...
Levo-o a passear pelas auto-estradas sem lhe falar uma palavra. Sei que ele não aprecia o teor de nossas vozes e inflexões, mas que sente um prazer indefinível em suas escamas, envolvidas pelo som dos motores deste grande carro. Apascenta-se e se diverte em observar como os campos estendem-se vazios, como todos os seres vivos temporários se esconderam à sua passagem. Ele retorce seu olho gelado para mim, que estala e range bem próximo e me pergunta, num desafio, numa provocação que sei que é dirigida a toda a humanidade, apontando com os cílios em forma de flechas afiadas para a fileira de árvores desnudas, os galhos emaranhados e secos dessas árvores, entrelaçados, complexos nos topos:
- E se eu retirar a coberta de meu olho esquerdo. Se eu descosturar suas pálpebras e não tampar este outro? Quem ficará, quem continuará aqui? - Você ou eu?
Ele ria, aprofundando-se num definitivo prazer, seu olho hexaédrico assobiando, brilhante encravado no espaço. Eu sabia que nem ele mesmo se atreveria a tentar completar a ameaça ancestral, antiga, também temida por nossos avós. Para ele o fenômeno subseqüente também era desconhecido.
Os guindastes moviam-se por toda a planície de neve, às centenas, ladeando os bosques e as construções em ruínas. Os bosques de multiplicadas árvores nuas, secas e inexplicáveis. Subitamente os guindastes pararam: haviam percebido a presença de Luvibórix.
- E se eu fechar o outro olho, mergulhar de uma vez na escuridão?
Sabíamos, nesse caso, o que aconteceria. Ele; mediante tal gesto, geraria um outro Luvibórix, o que tornaria a existência humana duas vezes mais insuportável do que já era então. Ele não o fazia porque não gostaria mesmo de dividir seu domínio com um outro tão igual em potência e voracidade, sua duplicação. Não se ouvia mais o canto dos pássaros. A neve cobrira mesmo todo o planeta, dava para perceber, mesmo sem prestar atenção aos informes vindos do rádio.
Numa curva prolongada da auto-estrada ele bafejou novamente sua fala enevoada de sino, abafada, quente.
- Hoje comi os últimos pedaços chegados nos tratores negros. Pelo que sei não existe mais nenhuma delas na Europa e na América, em parte nenhuma do mundo. As minhas construções preferidas. Todas foram trazidas em blocos nesse últimos trezentos anos em que o frio na superfície tem aumentado. E agora vim inspecionar a demolição da primeira cidade eletrônica. Já engoli a parte mais saborosa e evidente de vossa mitologia. Agora vou começar pelas cúpulas geodésicas que vocês disseminaram, à minha revelia, pelo planeta.
Ficava satisfeito em observar que o trabalho humano já ia bem adiantado:as desconexões. Já que nenhuma daquelas minuciosas construções ficara de pé, trituradas todas nesses três últimos séculos, na falta do prato principal, precisava habituar-se a uma alimentação voltada para outros materiais e condimentos; madeira, gesso, plástico, ligas metálicas sintéticas. Eu sabia perfeitamente que ele poderia adaptar-se a esta nova dieta e que sempre haveria pedras cinzeladas, as quais ele apreciava sobre tudo o mais, no material incompreensível que iria chegar à sua boca. Por ela eu via minar a baba satisfeita com a ampla esterilidade nitente da planície através da qual deslizávamos com ruído.
Disse-lhe que ele sentara-se próximo a mim, mas, logicamente, foi apenas uma força de expressão. Ele tem um quilômetro de comprimento e não pode sentar-se propriamente, lagarto magnético que é. Estendeu-se sobre o leito adrede preparado sobre os rolamentos fumegantes. Vejo com nitidez seu olho direito pelo nicho. O comprido carro-esteira faz estrondar toda a planície. Estamos no amanhecer do dia, por volta das sete horas. Nós, humanos, há séculos não paramos de trabalhar para ele, para alimentá-lo. Ele até que se compraz com tanta dedicação, mesmo forçada. Nossa tarefa é desconstruir tudo o que havíamos construído, pedra por pedra, sonho por nada.
Escuto sua voz através das tubulações metálicas. Ele aprecia conversar conosco de vez em quando a cada mil anos, mais ou menos. O pormenor notável é que ele prefere falar sozinho. O enorme espelho reflete em silêncio seus olhos. Estou atento.
Lá, do horizonte, escutou-se um trovão. Duas antigas torres residenciais acabavam de ser implodidas. A poeira escura espalhava-se pela brancura do céu baixo. Não sobraria nada da megalópole abandonada, em poucos meses.
- É, amanhã começarei a me alimentar dos arranha-céus de concreto - obtemperou.
Agora seguíamos pela grande reta da auto-estrada. Toda a planície repercutia sob o peso das bolas do carro-esteira. Ouvi novamente sua voz... Não se divisava nenhum ser humano pela planície gelada.
- Já vi o suficiente. Podemos voltar. Não quero passar a noite sobre a crosta do planeta. Quero que você me leve de volta para o poço, imediatamente.
O poço era a cratera de um velho vulcão extinto. Sentia-me aliviado. Talvez só daqui a mil anos ele retornasse à superfície. E não seria eu seu condutor, dessa outra vez.
Há rumores de que no Oriente existe um outro Luvibórix mas, como tudo o que vem de lá novamente está embrulhado em lendas, não temos certeza. As comunicações de há muito foram cortadas. O mundo está envolto por um frio que se avoluma. Cada vez mais espesso. Em ascensão.
Ele nunca mais terá a coragem de abrir os dois olhos ao mesmo tempo. Nem ele próprio sabe o que acontecerá. Portanto, um universo inteiro mantém-se intacto e desconhecido no interior de seu olho esquerdo, vendado, vedado, fechado e costurado para sempre, muito provavelmente. E, por sua vez, este olho fica por debaixo da terra. Nunca de fato saberemos que universo ele poderia trazer, ao abrir-se. Minha avó contava, nas noites de invernos menos frios do que o atual, que um ancestral de nossa família teria participado da expedição que costurara o olho esquerdo do dragão simétrico em certa sala imensa de estalactites e estalagmites de ouro e esmeralda no interior atordoante do planeta. Mas isso foi há milhares de anos, antes dessa glaciação. Antes até mesmo da compreensão.
Portanto, trago de volta à sua morada, depois de seu passeio matinal, este nosso estranho inimigo com quem somos forçados a conviver há gerações e gerações perdidas. Seu nome é Luvibórix, o de pele de platina, o eterno. Observo que a venda que oculta seu olho inesperado está bem segura. Resistirá mais mil anos. Com o outro olho ele contempla a planície gelada e branca, os guindastes atrás das árvores sem folhas.
Estou trazendo de volta do passeio para casa Luvibórix: escutem o estrondo. Escutem o retumbar do intolerável carro praticamente sem fim, a longa sirene vermelha. Continuem ainda escondidos em suas tendas, seres humanos, Luvibórix, está passando pela estrada, o que mantém o inverno, a neve e o frio, o que sustenta a permanência do universo. Luvibórix, aquele que se alimentou sem cessar de todas as catedrais da Terra. Já não resta mais nenhuma. Escutem!
Carlos Emilio C. Lima é escritor, poeta, editor, ensaísta, antidesigner. Publicou os romances A cachoeira das eras; Além, Jericoacoara e pedaços da história mais longe e o livro de contos Ofos. Este conto faz parte de seu livro editado recentemente, O romance que explodiu.
FONTE: CRONÓPIOS + TV CRONÓPIOS
PHOTO: "Sci-Fi City" by Wilson Tsoi
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