sexta-feira, junho 12, 2009

De Nápoles para África, a paixão da literatura


Literatura
De Nápoles para África, a paixão da literatura
Na Fundação Prémio Napoli e na Universidade L’Orientale, em Nápoles, Luandino Vieira e Margarida Paredes deambularam pela literatura e pelas evocações de um tempo ainda muito vivo nas suas memórias.

Mónica Gomes, revista África 21 *

Nápoles - O escritor angolano Luandino Vieira foi convidado pela Fundação Prémio Napoli e pela Universidade L’Orientale, para um debate sobre «literatura e biografia» com a escritora portuguesa Margarida Paredes, tendo sido recebido em Nápoles como um «mito» e uma «lenda literária» graças às traduções italianas de Luuanda e de A vida verdadeira de Domingos Xavier, cujos tradutores compareceram para conhecer o autor.

O encontro entre Luandino Vieira e Margarida Paredes ofereceu ao público fragmentos de uma experiência que os dois escritores viveram a partir de posições diferentes mas partilhando o mesmo lugar, Angola e o sonho realizado da sua libertação.

Os musseques de Luanda, a guerra, os laços de solidariedade e lealdade criados dentro do MPLA, onde a escritora portuguesa também combateu, a literatura de Luandino Vieira como meio de intervenção política e afirmação da identidade nacional, foram os eixos que atravessaram a conversa apaixonada e densa que proporcionou ao público lembranças e evocações de um tempo ainda muito recente e sobretudo ainda muito vivo na memória e na escrita dos dois protagonistas.

A paixão de Livia Apa

Luandino no meio de um público de leitores e estudantes, alguns vindos de Roma para o ouvirem, declarou sentir-se em casa. Ao ver a baía e ao respirar o movimento interno da cidade sob a luz quente de Nápoles, afirmou que parecia estar em Luanda.

A calorosa recepção de que o escritor angolano foi alvo deve-se ao trabalho desenvolvido pela professora de Literatura Portuguesa, Livia Apa, que há mais de dez anos se dedica a divulgar na Universidade L’Orientale a obra de Luandino e de outros escritores africanos de língua portuguesa.

Esta paixão da bela napolitana começou em Portugal, onde fez o mestrado em Literaturas e Culturas dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa da Universidade Nova, orientada pelo moçambicano Lourenço do Rosário, e em contacto com a segunda geração de criticos das literaturas africanas ainda da «expressão portuguesa» como a são-tomense Inocência Mata e o português Pires Laranjeira.

Em Lisboa foi proprietária da Livraria Mabooki, no Bairro Alto, ponto de referência e de encontro de intelectuais e artistas ligados a África.

De regresso a Nápoles, apesar de não existir a disciplina de Literaturas Africanas na Universidade e da academia italiana ser fundada sobre os ditos «baroni» do mundo, os professores catedráticos que também nas literaturas tentaram tudo para que as obras dos autores africanos não fossem alvo de estudo, Livia Apa tem conseguido trabalhar os textos dos escritores questionando a retórica da Lusofonia e os «enganos» que este paradigma produz tanto nos cursos de língua portuguesa, como nos de tradução. A sua paixão frutificou, fez escola e discípulos seus já produziram um número consistente de teses de licenciatura e mestrado sobre autores africanos dos PALOP.

Entretanto, o Departamento em Estudos Ibéricos aceitou a primeira tese de doutoramento sobre a poesia moçambicana de Jessica Falconi recentemente editada em livro, tendo esta docente passado a acompanhar Livia Apa nesta missão. Através do trabalho que desenvolvem, o conhecimento das literaturas em língua portuguesa foi subvertido e em Nápoles os estudantes chegam a Portugal através da questão colonial. Luandino Vieira é divulgado antes de Camões ou Saramago e o cânone literário de Portugal e da Europa foi deslocado para África.

A literatura africana tornou-se também, para Livia Apa, um território privilegiado para outro desafio, o da tradução. Autores como Mia Couto, Ruy Duarte de Carvalho, José Eduardo Agualusa, poemas de Maria Alexandre Dáskalos e Ana Paula Tavares, Rui Knopfli, Virgílio de Lemos e Luís Carlos Patraquim foram por ela traduzidos.

A presença de Luandino neste Colóquio, a convite do decano Giovanni Ricciardi e dedicado a homenagear Soeiro Pereira Gomes, um escritor neo-realista português, foi mais um sinal de que é possível, contra políticas institucionalizadas, levar para as salas de aulas do centro histórico de Nápoles escritores e estudiosos como Ana Paula Tavares, Ondjaki, Maria Alexandre Dáskalos, Arlindo Barbeitos, Luís Carlos Patraquim, Ana Mafalda Leite, Laura Padilha, Michel Laban e Pedro Rosa Mendes, todos eles recebidos como amigos por um grupo de fiéis e apaixonados estudantes que aprenderam definitivamente a «deslocalizar» a Língua Portuguesa.

Giovanni Ricciardi é especialista em literatura brasileira e tem vários livros editados no Brasil com mais de uma centena de entrevistas a escritores brasileiros realizadas entre os anos 80 e 90, como o aclamado Raduan Nassar que abandonou a escrita para criar galinhas (na sua biografia diz que «uma das melhores alegrias da infância» de que se lembra, foi receber como presente do pai um casal de galinhas-de-Angola), a poetisa Adélia Prado, ou os escritores Lygia Fagundes Telles e Silviano Santiago. Durante o colóquio foi homenageado o escritor moçambicano Virgílio de Lemos assim como o estudioso Michel Laban, recentemente falecido.

Sobre os convidados, Carlo Cavallaro, mestrado em Estudos Portugueses, apresentou uma comunicação sobre «Língua e Identidade em José Luandino Vieira e João Guimarães Rosa», e Jessica Falconi apresentou uma original leitura sobre o romance O Tibete de Africa, «Não era angolana, não era portuguesa: Identidade e ficção na escrita de Margarida Paredes».

Foram ainda apresentadas comunicações sobre escritores latino-americanos como o brasileiro Jorge Amado, a cubana Margarita Mateo Palmer e o peruano José María Arguedas. A professora Guiomar Sousa, curadora do Fórum Literário de Ouro Preto, apresentou uma comunicação sobre «O Aleijadinho: Invenção de uma biografia» e depois do debate na prestigiada Fundação Prémio Napoli convidou publicamente Luandino Vieira e Margarida Paredes a estarem presentes no próximo Fórum das Letras de Ouro Preto no Brasil.

Artigo publicado na edição de maio da revista África 21
FONTE (foto incluída): África 21 Digital - Brasília,DF,Brazil

Romeu e Julieta


Enviado por Rádio do Moreno -
12.6.2009 15h28m
CULTURA
Romeu e Julieta

THEÓFILO SILVA
Foi numa festa que Romeu avistou Julieta: “Por acaso, meu coração amou até agora? Jurai que não, meus olhos! Porque até esta noite jamais conheci a verdadeira beleza”. Ele confirma uma máxima de Shakespeare: “quem jamais amou que não amasse a primeira vista”. Romeu que antes reclamava: “Ó infinito caos de sedutoras formas! Ai, que o amor, cuja vista é sempre vendada, encontre, sem os olhos, caminho franco para sua vontade! “Sono em perpétua vigília. “Eu me perdi e não estou aqui. Romeu não está aqui, está em outro lugar qualquer”! Sim, ele está no coração de Julieta! Ao tocá-la, compara-se a um peregrino que acaba de encontrar uma imagem santa: “Meus lábios dois ruborizados peregrinos estão prontos a suavizar com um terno beijo tão rude contato.
Santa adorada, deixai que os lábios façam o que as mãos fazem.
Julieta – As santas são imóveis mesmo atendendo às orações.
Romeu – Então, não se mova, enquanto recolho o fruto de minhas preces. Assim, mediante vossos lábios ficam os meus livres de pecado”!
E beija-a pela primeira vez e é correspondido. Terminada a festa, ele não consegue voltar para casa: “Posso ir mais longe, quando meu coração aqui permanece”! Pulando o muro do jardim, vê Julieta na sacada: “Que luz brilha através daquela janela! É o oriente e Julieta é o Sol! Surge, claro sol, e mata a invejosa lua, já doente e pálida de desgosto, vendo que tu, sua serva, és bem mais linda do que ela”! Julieta, sem saber que Romeu está escondido na sebe, fala: “Ó Romeu, Romeu! Por que és Romeu? Renega teu pai e recusa teu nome; ou, se não quiseres, jura-me somente que me amas.
O que há em um nome? O que chamamos de rosa, com outro nome, exalaria o mesmo perfume tão agradável: despoja-te de teu nome e, em troca de teu nome, que não faz parte de ti, toma-me toda inteira”. Os pais deles eram inimigos! Surpreendida pela presença de Romeu, que a escutou confessar-se apaixonada, faz uma dulcíssima declaração! “Tu sabes, a máscara da noite cobre meu rosto, senão um rubor de virgem teria enrubescido minhas faces pelo que me ouviste falar esta noite. Se tu amas, proclama-o sinceramente; ou se pensas que sou conquistável facilmente demais, serei severa e esquiva, e direi não, para que tu me cortejes: Sou muito apaixonável e, por causa disto, poderás pensar que minha conduta seja bem leviana:
Romeu – juro por essa lua que coroa de prata as copas destas árvores frutíferas...
Julieta – Oh! Não jures pela lua, a inconstante lua que muda todos os meses em sua órbita circular, a fim de que teu amor não se mostre igualmente variável”. Eles nasceram um para o outro! Já conscientes do amor recíproco, Romeu pede a Julieta uma prova de amor, ao que ela responde: “Já te entreguei o meu, antes que pedisses, e quisera fazer-te de novo meu juramento.
Romeu – Querias tomá-lo de mim? Para que fim, meu amor?
Julieta – Para ser generosa e entregar-te outra vez. Só aspiro àquilo que possuo. Minha bondade é tão ilimitada quanto o mar, e tão profundo como este é o meu amor. Quanto mais te dou, mais tenho, pois ambos são infinitos”. Eis a definição do verdadeiro amor! Romeu e Julieta é a mais bela história de amor de todos os tempos. Ninguém perdoa Shakespeare por ele ter matado o jovem casal, nem mesmo Goethe. Ao matá-los ele os tornou imortais, para que eles fiquem como recordação de que o amor é o mais indestrutível dos sentimentos. Frei Lourenço, que os casou, diz que eles morreram em pleno triunfo. Em outra peça, Shakespeare afirma que assim pensa o verdadeiro amante: “Quero viver em teu coração, morrer em teu regaço e ser enterrado em teus olhos”! Não é isso que os enamorados dizem!E hoje não é o dia deles!
Theófilo Silva é presidente da Sociedade Shakespeare de Brasília e colaborador da Rádio do Moreno.

FONTE (imagem incluída): O Globo - Rio de Janeiro,RJ,Brazil

MILAN KUNDERA DISTINGUIDO COM O PRÉMIO MUNDIAL DA FUNDAÇÃO SIMONE E CINO DEL DUCA


Quarta-feira, 3 de Junho de 2009
MILAN KUNDERA DISTINGUIDO COM O PRÉMIO MUNDIAL DA FUNDAÇÃO SIMONE E CINO DEL DUCA

O escritor Milan Kundera vai receber no dia 10 de Junho, na Cúpula do Instituto de França, em Paris, o Prémio Mundial da Fundação Simone e Cino del Duca, no valor de 300 mil euros.

Estabelecido em 1969, este galardão, que deve o seu nome ao editor Cino del Duca e à sua mulher, Simone, visa distinguir autores cuja obra literária ou académica transmita uma mensagem de humanismo moderno. Entre os galardoados com este prémio contam-se personalidades como Vaclav Havel e Andrei Sakharov.

Romancista e ensaísta, Milan Kundera nasceu em Brno, na República Checa, em 1929. Após a publicação de A Brincadeira (1967), que lhe conferiu uma notoriedade imediata, e de O Livro dos Amores Risíveis (1969), é vítima da repressão soviética a seguir ao esmagamento da Primavera de Praga. Os seus livros são interditos, é proibido de trabalhar e perde o direito de publicar. Em 1975, exila-se em Paris, onde vive desde então, tornando-se cidadão francês em 1981, após lhe ter sido retirada a nacionalidade checoslovaca, como consequência da publicação em França de O Livro do Riso e do Esquecimento, obra reeditada recentemente pela ASA na colecção Vintage.

Na ASA estão também publicados os romances A Identidade, A Lentidão, A Ignorância, A Valsa do Adeus, a peça de teatro Jacques e o seu Amo e os ensaios Os Testamentos Traídos e A Cortina.

Entre outros prémios, Milan Kundera recebeu, pelo conjunto da sua obra, o Common Wealth Award (1981), o Prémio Jerusalém (1985) e o Prémio Nacional de Literatura da República Checa (2007).

FONTE (foto incluída): http://asavintage.blogs.sapo.pt/

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quinta-feira, junho 11, 2009

A question of race


A question of race
Marcelo Ballvé
Thursday, June 11th 2009, 2:45 PM

Are Latinos in denial about deep-rooted racism in their communities? That’s one of the hard-hitting questions raised by “Négritude,” an exhibit focused on the work of this hemisphere’s black artists.
Puerto Ricans, for example, overwhelmingly report to the U.S. Census that they’re white (81% said so in 2000), says Papo Colo, a well-known artist from the island and one of the show’s curators.
He laughs at the absurdity of this statistic for an island with a history of slavery and race-mixing. Puerto Ricans, he adds, use words like “negro” and “negrita” affectionately, but tend to ignore black Latino identity — or consider it a cultural backwater.
“The Latino community is racist, and that’s a matter of fact for me,” says Colo, 46, who moved to New York from Puerto Rico in 1972. “It’s the Spanish racism, which is very hypocritical.”
An installation by Colo is the focal point of “Négritude,” showing at Exit Art, 475 10th Ave., through July 25. But the exhibition also features musical performances and the work of artists and filmmakers from Brazil, the French-speaking Caribbean and the United States.
In part to reaffirm black Latino identity, Colo, the gallery’s artistic director, created “Négritude Island,” a sprawling, star-shaped structure filled with dark soil and planted with sugarcane and cotton.
With its size, and the odor of plants and earth, the installation’s an almost overwhelming evocation of the slave-plantation atmosphere, placed smack in the middle of Exit Art’s spacious, white-walled gallery.
At the May 20 opening, children played along the edges of “Négritude Island” and were invited to fold images of black icons such as Malcolm X, Muhammad Ali and Barack Obama into boats and airplanes, then toss these among the stalks and bushes.
“It’s about education,” says Colo.
The organizers want to reenergize Négritude, a concept coined by French-Caribbean poet Aimé Césaire during the 1930s international artistic movement to affirm blackness.
Even as Négritude developed in the French-speaking Caribbean, poets Nicolás Guillén of Cuba and Luis Palés Matos of Puerto Rico were pioneering “poesía negra,” which also inspired art and music.
Palés Matos offended the European-centered Puerto Rican elite of his day with poetry reflecting Afro-Caribbean sensibilities and titles such as “Ñam-ñam,” “Candombe,” “Bombo” and “Plena del Menéalo.” His 1920s poem “Pueblo Negro” predates Césaire’s more famous book-length poem “Return to My Native Land” by 13 or 14 years.
However, since black poets like Langston Hughes and others tied to the Harlem Renaissance had links to France, it was Césaire’s work that became better-known in the U.S.
“If Palés Matos had gotten to the U.S. at the same time, they wouldn’t have heard him,” says Colo, “but stuff in French — it was like, ‘Yeah, wow!’”
ballve@gmail.com

FONTE (foto incluída): New York Daily News - New York,NY,USA
http://www.nydailynews.com/
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LEGENDA DA FOTO: Sunshine for News
Papo Colo stands within his star-shaped installation, "Négritude Island," at the Exit Art gallery.
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Row over claim Robert Burns was manic depressive


From The Times
June 7, 2009
Row over claim Robert Burns was manic depressive

Lindsay McIntosh
A heated debate has broken out over whether Robert Burns suffered from bipolar disorder amid claims that the National Trust for Scotland deliberately played down a report suggesting that he was a manic depressive.
The trust denied accusations that it had “airbrushed” an expert's critique of the bard's character so that it could present him as a more romantic figure.
Joan Charles, an “intuitive analyst”, was recruited by the trust's public relations team to study Burns's manuscripts and letters as part of Scotland's Year of Homecoming celebrations. She concluded that the 18th-century writer experienced extremes of mood and later agreed that they might today be classified as bipolar disorder.
However, the PR team released a watered-down version of her findings, with no reference to such extreme mood swings or the term “bipolar”. The move fuelled anger among mental health campaigners who claimed it was an attempt to “edit history”.

Of Song. On Miss W.A. (The Bonnie Lass O' Ballochmyle), written in 1886, Ms Charles reported: “This is an upbeat song. Burns is sexually excited and in good humour when writing this piece.” But in analysing the manuscript of A Winter Night, written in the same year, she observed: “Burns was feeling very low and was in a deep, dark place when writing this. He had a tender heart that was misunderstood and this is crying out with hurt from within.”
David Hopes, curator of the new Robert Burns Memorial Museum project in Alloway, who worked with Ms Charles, was quoted in a Sunday newspaper as saying: “There were handwritten notes which mentioned the word ‘bipolar' and a press release was going to be issued by a public relations company.
“But in the meantime, the NTS intervened. There was real concern that we were painting this picture of a lunatic Burns, which we weren't trying to do at all. If you were to look at Burns's writing, you could term that a bit bipolar. But the trust thought that was a negative connotation.” Mr Hopes could not be contacted yesterday.
It is understood that the handwritten notes were made by a PR executive who had surmised from Ms Charles's findings that she was suggesting that the bard was bipolar. Ms Charles was quoted yesterday as saying that she had agreed that the mood swings were “like bipolar” but she had insisted that if the PR agency wanted to use the term it was its connotation, not hers.
A spokesman for the trust claimed that Ms Charles, who could not be reached for comment, had never agreed to such terminology. “The National Trust for Scotland did not withhold any information relating to opinion on Burns's mental health. Rather, it ensured that the information disseminated was factually correct.
“The information gathered in relation to Burns's character arose from a purely subjective analysis of the poet's handwriting by an individual handwriting expert, Joan Charles, who is not medically or psychiatrically qualified. Joan did not herself use the specific term ‘bipolar' in relation to her findings and neither wished for the term to be applied by a third party to her findings.”
Previous studies of bipolar disorder have shown a clear link between creativity and manic-depressive illnesses. Figures such as Baudelaire, Beethoven and F Scott Fitzgerald are all thought to have suffered from the condition.
Earlier this year, the scholar Robert Crawford suggested the Burns suffered a mild form of manic depression and the poet himself admitted that he suffered from episodes of “blue devilism”.


FONTE (imagem incluída): http://www.timesonline.co.uk/
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LEGENDA DA IMAGEM: (Scottish National Portrait Gallery, Edinburgh, Scotland/The Bridgeman Art Library) to not show image description
An analysist concluded that Robert Burns experienced extremes of mood
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quarta-feira, junho 10, 2009

Literatura: Vida e obra de Rodrigues Migués celebradas pela Fundação Saramago


Actualidade
Literatura: Vida e obra de Rodrigues Miguéis celebradas pela Fundação Saramago
Lisboa, 09 Jun (Lusa) - O escritor José Rodrigues Miguéis (1901-1980) vai ser alvo dia 15 de Junho, em Lisboa, de uma sessão organizada pela Fundação José Saramago para celebrar "um dos grandes escritores do século XX em Portugal".

Lusa
11:42 Terça-feira, 9 de Jun de 2009

Lisboa, 09 Jun (Lusa) - O escritor José Rodrigues Miguéis (1901-1980) vai ser alvo dia 15 de Junho, em Lisboa, de uma sessão organizada pela Fundação José Saramago para celebrar "um dos grandes escritores do século XX em Portugal".
No encontro participam alguns dos maiores especialistas na obra do autor - nascido em Lisboa e falecido em Nova Iorque - como os professores David Brookshaw, Duarte Barcelos, José Albino Pereira, Teresa Martins Marques e Onésimo Teotónio de Almeida.
De acordo com a fundação do Prémio Nobel da Literatura 1998, os especialistas vão explicar "porque é necessário continuar a ler o autor de 'Léah', que valores literários transporta e que aspectos da sua vida devemos ter presentes como sociedade e como leitores".
"Um grande escritor que é, ao mesmo tempo, uma das minhas melhores recordações", refere José Saramago numa nota sobre o encontro previsto para as 18:30, na Casa do Alentejo.
Além de "Léah e Outras Histórias" (1958) - Prémio Camilo Castelo Branco - a Fundação destaca ainda que o autor homenageado compreendeu Lisboa, nomeadamente na obra "A Escola do Paraíso", onde "soube penetrar, com uma linguagem perfeita, na alma da cidade e na sua humanidade".
Licenciado em Direito (Lisboa) e em Ciências Pedagógicas (Bruxelas), foi advogado, delegado do Ministério Público e professor do ensino secundário, colaborou em "A República", na "Seara Nova", e dirigiu o semanário "O Globo" (1933) com Bento de Jesus Caraça.
Rodrigues Miguéis teve uma clara intervenção cívica democrática, o que lhe valeu a censura nos jornais. Exilou-se nos Estados Unidos em 1935, onde acabou por se fixar até à morte em 1980.
Traduziu Stendhal, Carson McCullers e F.Scott Fitzgerald, e dedicou-se sobretudo à escrita em ficção narrativa, mas também teatro e crónica-ensaio. Deixou obras como "Uma Aventura Inquietante" (1958), "Nikalai! Nikalai!" (1971), "O Milagre segundo Salomé" (1975), "O Passageiro do Expresso" (1960), "É Proibido Apontar - Reflexões de um Burguês I" (1964), e "Gente da Terceira Classe" (1962).
AG.
Lusa/Fim


FONTE: Expresso - Porto,Portugal

terça-feira, junho 09, 2009

Magia do Amor - Maria de Fatima Delfina de Moraes


Magia do Amor
Maria de Fatima Delfina de Moraes

Explodimos em ternura e fez acesa a chama.
Sou fogo, és desejo, se confessas que me ama!

Assim fico em teus braços - lânguida doçura.
Encanto em nossa cama? É ver a tempestade.

Sigo teus passos, na dança sensual.
Encontram-se e inflamam-se os corpos,
em nossa dança - um ritual.

Entrego-me a paixão, aos teus intensos desejos.
Eu tenho fome e sede do toque de teus lábios,
dos carinhos dos teus beijos.

Lá fora, o silêncio é cúmplice.
A alma, o amor invade.

copyrigth 2009
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Tags: act
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segunda-feira, junho 08, 2009

Walter Santos leva ouro em Bucareste. Pessanha é bronze.


Judô/Copa do Mundo de Bucareste - (08/06/2009 19h57)
Walter Santos leva ouro em Bucareste. Pessanha é bronze.

Bucareste (Romênia)
Judoca da categoria pesado (acima de 100kg), Walter Santos ficou com a medalha de ouro na etapa de Bucareste (Romênia) da Copa do Mundo da modalidade. A disputa foi realizada neste domingo.
Na decisão, o brasileiro superou o esloveno Mitja Jenus por ippon e, quebra, teve acrescidos 100 pontos no ranking mundial. Walter é irmão de Eduardo Santos, atleta que ficou conhecido após, emocionado, pedir desculpas por não conseguir uma medalha nas Olimpíadas de Pequim.
Para chegar ao ouro, Walter Santos passou por dois judocas da Romênia. Na primeira rodada, ippon sobre Gabriel Munteanu. Depois, superou por wazari Valeriu Perdivara.
Mais medalhas -Também na cidade do Leste Europeu, Hugo Pessanha alcançou o bronze entre os médios com uma vitória por yuko sobre o local Bogdan Barbulescu.
Hugo começou sua campanha com um ippon no ucraniano Dmytro Markov. Na sequencia bateu o francês Romain Buffet por yuko. Na semifinal da categoria, porém, perdeu Milan Randl, da Eslováquia, por ippon (dois wazari).
Por sua vez, o meio-pesado Alex Aguiar conseguiu o sétimo lugar.
Mulheres - Competindo em Lisboa ( Portugal), as judocas brasileiras também levaram medalhas, com Danielli Yuri conquistando o bronze na categoria meio-médio.
Na primeira rodada, a paulista venceu a portuguesa Filipa Almeida por yuko. Depois, passou por Khadija Labhih por yuko. Na semifinal, foi derrotada por ippon (dois wazari) pela holandesa Esther Stan.
Na luta pela medalha de bronze, Yuri teve pela frente a compatriota Camila Minakawa e levou a melhor com uma vitória por yuko. Outra brasileira na disputa, Natália Bordgnon foi a sétima entre as médios.
Leia mais
Judoca brasileira conquista medalha de ouro em Portugal
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Segunda, 08/06/2009
19h57 - Walter Santos leva ouro em Bucareste. Pessanha é bronze.
Sábado, 06/06/2009
13h54 - Judoca brasileira conquista medalha de ouro em Portugal
Domingo, 31/05/2009
12h34 - Correa é prata em Moscou. Camilo leva bronze.
Sábado, 30/05/2009
11h37 - Guilheiro e Derly falham e Brasil fica sem medalhas no sábado
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14h18 - Na categoria médio, Camilo faz estreia internacional
Quinta, 28/05/2009
13h29 - Luciano Corrêa disputa Grand Slam já pensando no Mundial de Roterdã
Sexta, 22/05/2009
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Segunda, 18/05/2009
14h05 - Com equipe sub-23, Brasil conquista 13 medalhas de ouro
Quarta, 13/05/2009
17h22 - Seleção sub-23 de judô embarca para disputar Sul-americano de seniores

FONTE: O Diario do Vale - Cândido Mota,SP,Brazil

Japón dona 2,6 millones de dólares para promocionar el Judo en Latinoamérica


Japón dona 2,6 millones de dólares para promocionar el Judo en Latinoamérica

EFE, Tokio hace 7 minutos

Japón destinará cerca de 250 millones de yenes (2,6 millones de dólares) a promover el judo en seis países de todo el mundo, entre ellos Uruguay, Guatemala, Nicaragua y Perú, informó hoy el Ministerio nipón de Asuntos Exteriores.
El dinero se utilizará para comprar 4.200 piezas de tatami -superficie sobre la que se debe practicar este deporte de origen japonés-, y 2.700 uniformes de judo que irán destinados a suplir las carencias de cerca de 20.000 practicantes de este arte marcial.
Según un comunicado de Exteriores, muchas de las federaciones de judo en todo el mundo cuentan con presupuestos reducidos que les obligan a tener que practicar este deporte en instalaciones "poco seguras".
El texto hace alusión expresa al uso en muchos países de piezas de tatami usadas o alfombras de otros materiales como el poliuretano, inadecuadas según ellos para la práctica del judo.
La donación japonesa fue solicitada por los Gobiernos de Uruguay, Guatemala, Nicaragua, Perú, la República Gabonesa y la de Sudáfrica para comprar materiales adecuados para practicar el judo.
Según el Ministerio de Exteriores, esta medida servirá para promover un arte marcial tan tradicional como el judo, fundado por Jigoro Kano en 1882, y facilitará además el "interés y la comprensión hacia Japón".
FONTE: ADN.es - Barcelona,Cataluña,Spain

Cultura cigana é fonte de inspiração para inúmeros criadores


LITERATURA - [ 03/06 ]
Cultura cigana é fonte de inspiração para inúmeros criadores
Cruzeiro On Line

A atitude milenar dos ciganos diante do mundo sempre fascinou os criadores, segundo Cristina da Costa Pereira. "Para inventar, o artista precisa do sonho", diz. "E os ciganos, pelo fato de estarem sempre caminhando, sem explicarem a causa da sua busca, inspiram uma visão onírica." Um dos capítulos de "Os Ciganos Ainda Estão na Estrada" é dedicado à presença desse povo errante nas artes. De saída, Cristina alerta para a idealização dos artistas em relação aos ciganos, vistos como seres românticos, à margem do controle social.
No cinema, ela pinçou Ingmar Bergman, Federico Fellini, Carlos Saura e Cacá Diegues. Em "Fanny e Alexander" (1982), Bergman faz um filme autobiográfico em que Alexander se rebela contra a educação rígida, dizendo aos amigos de escola que os ciganos virão buscá-lo. Em "O Sétimo Selo" (1958), quando a Morte joga xadrez com Antonius Block, surge um casal de belos ciganos que a distraem do jogo; é o momento para o protagonista derrubar o tabuleiro e contrariar os desígnios da senhora fatal.
O crítico brasileiro José Lino Grünewald viu na obra de Fellini - como em "La Strada" (1954) - a fixação pelo mundo do circo e pela estrada: "o caminhar constante da procura, cheio de desencontros." O espanhol Carlos Saura dirigiu "Carmen" (1983), que fala da montagem da ópera homônima de Bizet por uma companhia de balé e que capta o espírito independente e narcisista de uma cigana cheia de sensualidade. E Cacá Diegues dirigiu "Bye Bye Brasil" (1979), no qual o protagonista se chama Lorde Cigano, um ilusionista que viaja pelo Brasil para apresentar um espetáculo mambembe com a sua trupe.
Para Cristina, João Guimarães Rosa, que estudou o romani e incluiu três histórias com ciganos em "Tutaméia", foi quem melhor percebeu as singularidades desse povo. Cecília Meireles os menciona em Romanceiro da Inconfidência. Em "Dom Casmurro", Machado de Assis comparou o olhar de Capitu, o mais famoso da literatura brasileira, ao de uma "cigana oblíqua e dissimulada". (É bom lembrar que os ciganos dão extrema importância aos olhos, que revelam as intenções do indivíduo.) A autora cita mais escritores - García Márquez, Lorca, Lawrence, Baudelaire. Além de lembrar as origens ciganas do pianista Wagner Tiso, ela fala do flamenco, que hoje experimenta um boom de gravações e shows na Espanha e que absorveu procedimentos da música cigana.(AE)

FONTE: Jornal Cruzeiro do Sul - Sorocaba,São Paulo,Brazil

sexta-feira, junho 05, 2009

Exposição dedicada a Alain Oulman


Cultura
Museu do Fado
04-06-2009 19:26
Exposição dedicada a Alain Oulman


O Museu do Fado, em Lisboa, inaugura hoje uma exposição dedicada a Alain Oulman, o compositor que marcou o fado.

"As mãos que trago" é o nome da mostra que reúne todo o espólio de Alain Oulman, desde as cartas que trocava com Amália Rodrigues, até ao piano onde compunha temas como “Sei de um rio”, agora gravado por Camané.

Apaixonado pelo fado, Oulman nasceu numa família judaica em Portugal e despertou para este estilo musical com uma voz de Amália Rodrigues. Nos dias de hoje, são muitos os que cantam a vasta obra que deixou, sublinha Sara Pereira, director do Museu do Fado.

“Foi apropriada por uma série de artistas de outras áreas musicais, como é o caso da Adriana Calcanhoto, que canta “A formiga bossa nova”, ou a Maria Betânia, que interpreta “O meu amor é marinheiro”, do Manuel Alegre. No caso do fado, o Camané veio resgatar, mais recentemente, alguns inéditos do Alain Oulman neste seu último disco”, diz Sara Pereira.
RV/Maria João Costa

FONTE (imagem incluída): Rádio Renascença - Lisboa,Lisboa,Portugal

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terça-feira, junho 02, 2009

Carcasses : poésie de la marginalité


Le vendredi 29 mai 2009
Carcasses : poésie de la marginalité

Anabelle Nicoud
La Presse
Après une première aux Rendez-vous du cinéma québécois et une sélection à la Quinzaine des réalisateurs, Carcasses se fraye un chemin jusqu'aux salles obscures de la province.

L'incontournable Denis Côté pose avec cette fable sur la marge une nouvelle pierre à une œuvre singulière et dense, s'il en est.

À Saint-Amable, Jean-Paul Colmor, 74 ans, règne en maître sur sa «cour à scrap». Il est un ramasseux, obsessif de l'objet qu'il empile sans fin dans une maisonnette de campagne et dans les bois qui l'entourent. Rien n'est pourtant laissé au hasard chez Colmor qui, conscient du regard que l'on peut poser sur lui, organise sa vie autour de sa manie.

L'arrivée de quatre jeunes trisomiques fait basculer la vie de Colmor: le territoire, envahi, passe alors sous le contrôle de cette présence pour le moins surprenante. Sans un mot, les jeunes toisent Colmor, fusil sous le bras et chargé, comme les marginaux des villes, de sacs à dos et d'un chariot.

Denis Côté s'amuse ici à établir un univers réel, documentaire, presque - celui de Colmor -, pour mieux le bouleverser par l'arrivée surréaliste des jeunes.

À la fiction, Côté emprunte la possibilité de créer le chaos - la prise de pouvoir par les jeunes bouleversant l'ordre idéal de Colmor. Du réel, Côté vole un personnage démesuré, plus grand que la fiction : Jean-Paul Colmor.

Comme dans Nos vies privées ou Elle veut le chaos, l'univers de Carcasses se déploie à la campagne, dans les sous-bois, là où la route s'achève en un cul-de-sac. Côté donne à son décor une majesté, accentuée par l'utilisation de la musique (des symphonies de Gustav Mahler) ou une richesse de sons (dont on doit la conception à Frédéric Cloutier).

Contemplation

Le spectateur est invité à contempler cet univers presque en voyeur: on en ignore les règles, on peine à comprendre l'objet des conversations - quand conversations il y a - et des gestes quotidiens, quoique décalés, acquièrent une dimensions inquiétante, mystérieuse, voire surréaliste.

Il y a dans Carcasses une dimension métaphorique, presque sacrée. Les personnages du film ne sont-ils pas, comme les voitures abandonnées et collectionnées là, les naufragés d'une société qui ne veut pas les voir? Les bois, le domaine et le paradis d'un Colmor évoquent l'utopique paradis terrestre, menacé par l'invasion de la violence et d'une forme de guérilla.

Chez Denis Côté, la poésie naît toujours du silence, des touches absurdes et humoristiques dont il ponctue ses films - on pense ici à un plan de Colmor avec une poussette. La beauté naît ainsi de la majesté des lieux, mais aussi de visages imparfaits, irréguliers, témoins d'un monde inconnu, fascinant et menaçant.

Avec Carcasses, Denis Côté poursuit son exploration de formes narratives atypiques et inattendues. Ce quatrième long métrage précise encore un peu plus la signature d'un réalisateur qui prend le parti de surprendre le spectateur plutôt que de la caresser dans le sens du poil.

Sa voix, encore trop peu entendue au Québec, résiste aux modes, aux tendances et aux facilités. Quelque chose nous dit que le meilleur est encore à venir.

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* * * 1/2Carcasses. Chronique de Denis Côté. Avec Jean-Paul Colmor, Étienne Grutman, Célia Léveillée-Marois, Mark Scanlon, Charles-Élie Jacob, Julie Rouvière, Anne Carrier. 1 h 13.

Jean-Paul Colmor règne en maître sur son royaume de carcasses automobiles. L'arrivée d'un groupe de jeunes trisomiques trouble sa solitude.Denis Côté renoue, après Elle veut le chaos, avec un cinéma spontané, plus libre dans sa forme, plus expérimental aussi. Voilà une œuvre forte et singulière, mais qui ne plaira sans doute pas à tout le monde.

FONTE (foto incluída) : Cyberpresse - Montréal,Québec,Canada

Telma de bronze em Moscovo


31 Maio 2009 - 00h30
Judo: Circuito Mundial
Telma de bronze em Moscovo

A judoca portuguesa Telma Monteiro conquistou ontem a medalha de bronze na categoria de peso -57 quilos no Grand Slam de Moscovo (Rússia), segunda das quatro provas mais importantes do circuito mundial.
A benfiquista venceu os dois primeiros combates, o primeiro frente a Narangerel Bayaraa e o segundo frente à alemã Viola Waechter, mas acabou por ser derrotada na meia-final pela japonesa Kaori Matsumoto.
Telma está agora concentrada na Taça do Mundo, agendada para a próxima semana, em Lisboa.

FONTE: Correio da Manhã - Lisboa,Lisboa,Portugal

Luciano Correa é prata e Tiago Camilo é bronze no Grand Slam de Moscou



O Brasil conquistou duas medalhas no Grand Slam de Moscou, um dos principais eventos do ranking mundial da Federação Internacional de Judô.

Luciano Corrêa conquistou a prata entre os meio-pesados, enquanto Tiago Camilo, estreando no peso médio, foi bronze. Neste domingo (31), Eduardo Santos, também no médio, ficou em quinto lugar, repetindo a colocação de Leandro Guilheiro (leve) na véspera. Luciano marcou mais 180 pontos no ranking mundial, Tiago somou seus primeiros 120 pontos enquanto Eduardo e Leandro fizeram 60 pontos cada.

"Desde o fim das Olimpíadas dei um tempo para me recuperar e tive um bom começo de temporada. Mas não quero que essa medalha esconda as minhas deficiências. Estou com a caderneta aberta, anotando tudo o que tenho que melhorar se quiser me classificar para o Mundial da Holanda, em agosto. O trabalho recomeça amanhã", disse Luciano, quinto colocado no Grand Slam de Paris, em fevereiro, e prata na Copa do Mundo de Budapeste, no mesmo mês.

A preocupação de Tiago Camilo é a mesma.

“Me surpreendi por ter competido tão bem na nova categoria logo na primeira competição. Fico feliz com o bronze, embora saiba que poderia ter ido mais longe até. De qualquer forma, talvez uma medalha de ouro escondesse as coisas que ainda preciso trabalhar para estar mais bem adaptado ao médio (-90kg)”, afirmou Camilo, que pesou 88,5kg esta manhã. “A principal diferença que senti é em relação à força. Mas tenho que crescer devagar para não engordar demais nem me lesionar. Meu objetivo é estar com 92kg em 2012”, continuou o campeão mundial e medalhista olímpico dos meio-médios (-81kg) que, desde que conquistou sua primeira medalha mundial em 1998, no juvenil (-66kg), no mesmo ginásio Druzhba em Moscou, ganhou 22kg no corpo.

Luciano e Tiago também concordam quando o assunto é o novo sistema de disputa empregado pela FIJ, sem repescagem.

“Eu sempre lutei cada luta como se fosse uma final. E acho que não é por acaso que venho tendo bons resultados”, afirmou Luciano, que ganhou US$ 3 mil pela medalha.

“Esse sistema é bom, pois é preciso estar concentrado desde o começo e não se perde tanto tempo com a repescagem. E acho também que é mais justo, pois antigamente acontecia de alguém perder a semifinal e acabar em quinto pelo desgaste de fazer as lutas tão próximas, enquanto alguém da repescagem ficava com a medalha”, disse Tiago, que embolsou US$ 1,5 mil pelo bronze.

Guilherme Luna (-81kg) e Daniel Hernandes (+100kg) também competiram neste domingo. Luna perdeu por ippon para Murad Shadov (RUS) enquanto Daniel foi superado por Abdulo Tangriev (UZB) por yuko, ambos na primeira rodada.

O próximo Grand Slam do Cicruito Mundial será no Rio de Janeiro, no Ginásio do Maracanãzinho, nos dias 4 e 5 de julho. A exemplo de Moscou e Paris, os dois Grand Slam já realizados até agora, o GS do Rio de Janeiro distribui US$ 150 mil em prêmios e pontos no ranking mundial.

Os brasileiros seguem em treinamento em Moscou até o fim da semana. A equipe, sob comando do técnico Luiz Shinohara, é formada por Taciana Lima (-48kg), Denílson Lourenço (-60kg), Felipe Kitadai (-60kg), João Derly (-66kg), Leandro Guilheiro (-73kg), Guilherme Luna (-81kg), Tiago Camilo (-90kg), Eduardo Santos (-90kg), Luciano Corrêa (-100kg) e Daniel Hernandes (+100kg).

Resultados

(para chaves completas acesse http://www.ippon.org/).

DOMINGO, 31/5:

81kg:

Guilherme Luna perdeu por ipppon para Murat Shadov (RUS)

-90kg:

Tiago Camilo venceu por yuko Vincent Massimino (FRA) // venceu por ippon Tamas Madarasz (HUN) // venceu por yuko Dilshod Choriev (UZB) // Seminfinal: perdeu para Andrei Kazusionak (BLR) por ippon. BRONZE

Eduardo Santos venceu Victor Semenov (RUS) por waza-ari // perdeu para Takashi Ono (JPN) por yuko. 5º LUGAR

-100kg:

Luciano Corrêa venceu por ippon Sander Maripuu (EST) // venceu por waza-ari Przemyslaw Matyajsek (POL) // venceu por yuko Dimitri Peters (GER) // Semifinal: venceu Jevgenijs Borodavko (LAT) por ippon (shido) // Final: perdeu para Hee-Tee Hwang (KOR) por waza-ari. PRATA.

+100kg:Daniel Hernandes perdeu por yuko para Adbulo Tangriev (UZB)

Mais informações: imprensa@cbj.com.br

Manoela Penna, de Moscou
FONTE (imagem incluída): Confederação Brasileira de Judô

BRASIL FAZ TRÊS PÓDIOS NO MUNDIAL MASTER DE JUDÔ


Domingo, 31 de Maio de 2009
Brasil faz mais três pódios no Mundial de Veteranos
O judô brasileiro ganhou mais três medalhas neste final de semana, com Rosângela Oliveira, Glaucio Bernardes e Teresa Silveira subindo ao podio do Campeonato Mundial de Veteranos, na Alemanha.

Confira as conquistas do Brasil na competição até o momento.

Gleyson Alves (M2, -60kg), ouro
Joseph Guilherme (M2, -100kg), ouro
Rosângela Oliveira (F3, -63kg), ouro
Denison Santos (M2, -81kg), prata
Edson Rogeiro Oliveira (M1, + 100kg), prata
Rogeria Cozendey (F2, + 78kg), prata
Glaucio Bernardes (M3, -60kg), prata
Geracino Bomfim (M9, -81kg), bronze
Erica Paz (F1, -57kg), bronze
Teresa Silveira (F4, + 78kg), bronze
FONTE: CBJ
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segunda-feira, junho 01, 2009

'Preciso estar pronto para a poesia'


'Preciso estar pronto para a poesia'
Para Gary Snyder, a escrita em versos é uma surpresa a partir de uma ideia 'que vem de outra parte'

Rodrigo Garcia Lopes - Especial para O Estado

HICKRY, CAROLINA DO NORTE - Um dos fundadores e um dos últimos representantes vivos do movimento beat, o poeta, antropólogo, tradutor e ensaísta Gary Snyder, aos 79 anos, pertence a uma estirpe de intelectual cada vez mais rara na atualidade: a do poeta público, imerso nas questões de seu tempo, servindo de intérprete ou xamã da complexa paisagem cultural dos dias atuais. Seus livros mais recentes são Danger on Peaks: Poems (2004), espécie de diário poético, e Back on the Fire, coletânea publicada em 2007 e que reúne ensaios sobre temas caros a Snyder, como o papel do fogo na preservação das florestas da Califórnia, poesia oriental, mitologia indígena, a "nova desordem mundial" e ecologia - sobre os quais ele fala na entrevista a seguir, realizada na cidadezinha de Hickory, Carolina do Norte.

'Danger on Peaks: Poems' foi publicado em 2004. Por que você demorou tanto para publicar poesia novamente (seu último livro dedicado ao gênero havia sido ‘Mountains and Rivers Without End’, de 1996)? O senhor acha que às vezes é mais importante viver do que escrever?

Estou sempre escrevendo poemas. Quando me sinto estimulado a escrever? Quando me sinto estimulado a escrever! A poesia não é prosa: na prosa você pode se atirar e se forçar a escrevê-la. Já com a poesia é preciso esperar que a voz chegue até você. É uma questão de inspiração, de se conseguir uma ideia criativa que o surpreende e que vem de outra parte. Meu trabalho é sempre estar pronto para a poesia. A escrita de um novo poema é sempre uma surpresa.

No poema 'Waiting for a Ride' (esperando uma carona), do último livro, você escreve: "a maior parte de minha obra / tal como é / está feita". Como você vê seu trabalho, retrospectivamente? Quais poemas você acha que sintetizam sua poética?

Meu trabalho é tão diverso, e há tantos tipos de poemas, que existe um ecossistema literário inteiro aí. Não há um exemplo de um poema em particular que eu sinta interesse, orgulho ou que eu tenha preferência, mesmo porque eles servem funções diferentes. Cada um tem um papel: não fosse assim, eu não deixaria ser publicado.

Que paralelos você traça entre Zen e poesia, em seu caso? Seus poemas incorporam a precisão e concisão da poesia chinesa e japonesa, e a percepção detalhada e afinada cara ao Budismo. Como a poesia e arte chinesa e japonesa afetaram sua sensibilidade?

Esta é uma questão interessante. Em primeiro lugar, é preciso fazer uma distinção entre a sensibilidade Ch'an (ou Zen) e as artes. Nem todos os grandes artistas do Extremo Oriente - que são Japão, China, Coreia e Taiwan - foram necessariamente influenciados pelo Zen, mas um número surpreendente o foram, especialmente durante as dinastias chinesas S'ung e T'ang, bem como durante boa parte da história do Japão. No entanto, é preciso fazer uma distinção entre poética e trabalho artístico e algo como a prática Zen. A prática Zen o distancia da arte: ela é uma prática de meditação e de investigação profundas e, enquanto tal, não está preocupada com expressão ou representação. Claro que a prática Zen está preocupada com a comunicação, e ela tem seus próprios métodos de se comunicar que estão embebidos na literatura Zen, com o ensino da literatura, em coleções como o Mumonkan, ou O Portal Sem Portão, ou os escritos extraordinários do filósofo Dôgen [(1200 - 1253), fundador da escola Soto de Zen Budismo], no século 13. Qualquer artista pode aprender muito com a leitura destes textos, mas eles não representam a poesia em si. A psiquê estética do Extremo Oriente sempre valorizou a concisão, a observação clara, a condensação, o registro direto da experiência. Em parte, isso acontece porque ela não tem uma carga teológica ou ideológica a dirigindo, como acontece em toda a literatura europeia pós-romana e cristianizada, que possui na maioria das vezes um componente teológico do qual é muito difícil se livrar. Por isso, a poesia chinesa do século 8 soa muito moderna porque fala de história, de amizade, de ideias culturais, bem como ser uma resposta direta para o mundo natural. Este é um caso interessante, como no caso de tradições japonesas como o haiku, sobre a qual escrevo bastante em Back on the Fire. O haiku agora é um valor internacional, sendo ensinado em toda parte. Falando nisso, há inclusive alguns haikaístas nipo-brasileiros maravilhosos, e que escrevem tanto em português quanto em japonês.

Em Back on the Fire você fala elogiosamente de Masaoka Shiki, por exemplo. Quem são os melhores haikaístas, na sua opinião?

Ah, não respondo perguntas como essa. É como comparar laranjas e maçãs.

Você acredita que existe uma imaginação haikaística? Como ela pode ser aplicada a poemas mais longos, como seu 'Mountains and Rivers Without End'?

Em primeiro lugar, é preciso separar a forma do haiku da imaginação do haiku. Nem todos os poemas curtos e breves são haikus. Isso é uma coisa que tenho que explicar muitas vezes, como fiz recentemente para um alemão que me entrevistou por e-mail. Ele queria que eu dissesse que todo poema curto é um haiku. Não é este o caso. O haiku tem uma estética específica e, neste sentido, quero dizer que o que existe é uma imaginação do haiku. As pessoas tropeçam nela mas nem sempre a obtém, a tem, ela é aberta, fresca e sem ego, mas não sempre está no "momento" ou nem sempre é "zen". Este é um assunto complicado, não é tão simplório quanto pode parecer. Não gosto de chamar de haiku os poemas escritos em poucas linhas, a menos que eles se encaixem de fato dentro da estética do haiku. Acho maravilhoso que pessoas na Dinamarca, Itália, Estados Unidos ou no Brasil, sobretudo crianças, estejam aprendendo haiku nas escolas ou escrevendo poemas curtos influenciados pelo haiku. É bonito isso, mas não precisa necessariamente ser haiku. É mais útil dizer que o haiku é um poema japonês escrito numa forma específica mas nem todos os poemas japoneses curtos são haikus. Sugiro a leitura de um livro excelente, escrito por Haruo Shirane, Traces of Dreams: Landscape, Cultural Memory, and the Poetry of Basho [rastros de sonho: paisagem, memória cultural e a poesia de Bashô], que é a primeira descrição bem informativa e de senso comum do mundo social em que o haiku se desenvolveu no Japão dos séculos 18 e 19. O haiku também é um fenômeno sociológico.

Há alguns anos o haiku está em voga no Brasil. Alguns críticos, no entanto, têm dito que ele tem tido uma influência negativa na nossa poesia, se tornando um maneirismo, uma maneira "fácil" de escrever poesia. Poucas pessoas sabem, como você afirma em Back on the Fire, da enorme influência que o haiku teve sobre o modernismo.

O que chamamos de influência do haiku na poesia moderna, pelo menos na poesia escrita em inglês, é a influência sobre o Imagismo, e claro que Ezra Pound fez parte disso em algum momento. O haiku não é necessariamente Imagismo, nem uma imagem. De fato, muitas vezes são duas imagens justapostas que se intersectam. Mas outra coisa que não é realmente percebida é que o haiku é escrito em japonês. Isso significa que a gramática é totalmente diferente,a gramática é totalmente fora do quadro de qualquer coisa que conheçamos nas línguas germânicas ou românicas. Parte do poder de um haiku japonês é o que ele faz em termos de sintaxe. Você sabe o que isso significa? Em primeiro lugar, no japonês os verbos sempre aparecem no fim da frase, mas não se usa frases no haiku. Se o jogo sintático é uma parte da força do haiku, como alguém que não conhece japonês pode apreciar isso? Do mesmo modo, há muitas coisas na poesia portuguesa e inglesa que só pertencem a essas línguas e que somos incapazes de traduzir. Então não devemos nos preocupamos com isso. No entanto, entendo que a escrita de um poema curto pode virar um maneirismo. Mas isso passa. Podemos aprender algo com o modo como o haiku funciona na escrita de poemas longos? Em relação ao poema longo, a questão é mais sobre o que podemos aprender com o Imagismo em relação à escrita de poemas longos, o que já foi demonstrado por Ezra Pound, como algumas coisas que ele fez em seus melhores "Cantos". Muitos não são muito bons. Ele apontou uma maneira, e muitos modernistas da primeira metade do século 20 tocaram no que o Imagismo pode fazer. Eu uso pequenas imagens precisas disso ou daquilo o tempo todo em minha poesia, inclusive em poemas mais longos. Suponho que tenha aprendido isso com o haiku e com o Imagismo, mas para dizer a verdade nem costumo pensar sobre isso.

Lendo sua poesia em geral, tem-se a sensação de estar lendo um tipo de poema meio americano, meio chinês. Fica claro que você incorporou a economia da língua chinesa, além da apresentação direta, seguindo as fórmulas básicas tornadas famosas por Pound. Quão importantes foram as poesias chinesas e japonesas para você?

Mas isso não é tão claro assim porque você não lê chinês! . O que você está querendo dizer é que eu incorporo o que, para você, parecem traduções chinesas em inglês. Então, vamos ser precisos, porque queremos ser internacionais aqui, é preciso respeitar línguas individuais e nem tudo está em inglês. Nós estamos no processo de criar uma linguagem moderna e pós-moderna em um sem números de línguas mundiais, e fico feliz em dizer que a poesia do Extremo Oriente tem dado uma contribuição importante para isso. Não se lê um poema original em chinês como um poema moderno em verso livre: ele é rigidamente formal, muito breve e estruturado: é uma coisa totalmente diferente. Uma das coisas que aprendi foi com a leitura de poemas chineses em chinês, mas isso não aparece, não deveria aparecer.

Como você vê a importância e a presença cultural das chamadas poéticas orais, ou da etnopoesia, na poesia americana contemporânea?

A etnopoética não teve muita influência, sinto dizer, em termos de quais são seus potenciais. A verdade é que pouquíssimos leitores e escritores se importam com as tradições orais. Para mim e para alguns colegas meus é um grande interesse, e acho que há muito a se aprender com elas, principalmente a importância da performance. Toda literatura oral é, por definição, apresentada Há muito a se aprender com elas, há todo um ensinamento que vai com isso, para explicar como as tradições orais - antes da descoberta ou invenção da escrita, ou em culturas que não tinham escrita - ainda assim podem ser tão ricas, como podem ter tantas canções e histórias nas tradições orais. Milhares e milhares de histórias e canções podem existir dentro de uma tradição oral. Como você deve saber, os textos fundadores da literatura ocidental, a Ilíada e a Odisseia, eram orais, para começar, e só mais tarde foram escritos. Mas na América do século 21 existem formas contemporâneas praticadas como performances orais que ainda podem ser testemunhadas. Hoje o mais próximo disso são as "poetry slams" [competições de poesia falada], onde os poetas têm que memorizar seus poemas e fazer uma apresentação inteiramente oral. A arte da performance - onde geralmente o poeta ou o artista é também o "performer" - as performances beiram o teatro, dança, ritual e cerimonial: todas essas são qualidades da arte oral. A maioria de nós não está praticando isso, mas é algo que aprendemos e respeitamos. Nas poéticas orais a linha entre poesia e prosa não é tão clara, porque toda as tradições dramáticas de narrar estórias são métricas e rítmicas, e é como uma forma de verso livre solta ou até concisa. Se você já assistiu uma sessão de narração tradicional, e ainda há muitos indígenas especialistas nisso, contadores de histórias vivos, que às vezes cantam ou semi-cantam. Na Ásia Central há uma tradição forte na Mongólia, no Azerbaijão ou na Turquia. Nestes lugares ainda se pratica isso, embora eles tenham escrita. Nossos romances em prosa são artificialmente chatos e planos de certa maneira. E as histórias não seriam bem recebidas se fossem escritas como os contos. Dennis Tedlock, que é um estudioso proeminente da literatura oral, e cujo campo é a antiga língua e a narrativa maia, e ele também trabalha com as tradições Zuni do Sudoeste dos EUA. Ele desenvolveu um sistema de escrever estórias, em inglês, tal como são contadas, com versos de extensões diferentes e diferentes tamanhos de fontes: fontes grandes para vozes altas e pequenas fontes para vozes suaves, e fontes minúsculas para sussurros. É muito bom e rico o que ele fez, mas ninguém aprendeu muito com isso. Nós apoiamos da boca pra fora as tradições orais mas a maioria das pessoas não conhece nada sobre isso.

E isso reflete o caráter marginal das culturas indígenas na cultura norte-americana.


Claro que estas culturas são marginais, todo mundo sabe disso. Embora eles tenham uma proteção legal e uma voz forte eles são numericamente pequenos. E claro que a tradição oral não é nativa só dos EUA: ela se encontra também na América do Sul, no sul da Ásia, e por toda a África, e está presente ainda aqui ou ali na Europa, mas não há ninguém fazendo algo com isso realmente. Eu diria que a tradição oral mais viva na cultura americana são as piadas sujas.

Desde o começo da colonização norte-americana, o padrão da invasão do continente pelos europeus foi de violência, de negação do outro, e do holocausto das populações nativas e suas culturas. Você poderia falar sobre o "trauma" presente na mente norte-americana, já que você escreveu que "o índio americano é o fantasma que se espreita no fundo da perturbada mente americana"?

Quando escrevi isso acho que estava citando D. H. Lawrence. Bem, isso é apenas parcialmente verdadeiro. Há outros fantasmas à espreita na cultura americana, até mesmo mais conscientemente presentes agora como, por exemplo, a história do tratamento dos afro-americanos, da escravidão. Nos últimos vinte e cinco anos têm sido publicados livros que tem explorado isso de forma mais aberta e profunda, trazendo anais específicos, listas, dados econômicos, nomes, com informações atordoantes que não existiam quando eu era estudante. A mudança no estudo da história afro-americana na América é significativa, brutal, honesta. As pessoas por toda a América do Norte estão muito mais conscientes disso, não só os afro-americanos. Isso muda o diálogo para melhor, é ainda um território que ainda não foi lidado psicologicamente. Legalmente, estão trabalhando em cima disso, mas espiritualmente ainda há um longo caminho a se percorrer. Porque toda hora vemos uma quantidade de reacionarismo branco nos dias de hoje - particularmente na administração Bush - contra todas as políticas universitárias de inclusão, de ajuda especial para estudantes de minorias.

Isso também tem acontecido no Brasil nos últimos anos. O que pensa sobre isso?

Claro que sou a favor. O Brasil tem uma história de escravidão tão grande quanto os EUA. Acho uma coisa boa, com certeza, e que pode aumentar a discordância, mas acho que é algo necessário pela qual tem que se passar necessariamente. É muito importante apoiar jovens que pertencem à minoria para obter uma melhor educação e curso superior e para se mover mais para o centro da sociedade, mesmo que isso signifique se juntar à classe média capitalista prevalecente. Como no feminismo: há uma linha que é politicamente radical e outra que quer entrar na classe média branca capitalista e apenas fazer dinheiro, o que não me interessa, mas isso sem dúvida serve para abrir o diálogo.

Quando estudamos a história da erradicação das populações indígenas norte-americanas, o que surpreende é a rapidez com que ela ocorreu. Vemos a persistência deste padrão acontecendo agora, por exemplo, desde a invasão do Iraque, com uma ignorância e desrespeito totais pelo outro e sua cultura, pelas culturas nativas. A doutrina do "Destino Manifesto", formulada no século 19, continuaria a ser uma parte importante da política estrangeira norte-americana?

Você sabe, isso não é poesia, é política, e não estou querendo falar muito sobre política. Cada pergunta sua eu poderia responder por meia hora . Eu é que lhe pergunto: o que a poesia tem a ver com poder político? O trabalho do artista, dos poetas, dos escritores, continua o mesmo: como diriam os Quacres, é testemunhar, ver o que está acontecendo em seu próprio tempo e falar deste ponto de vista. Honestamente, outros leitores vão aprender e se beneficiar com isso. O papel mínimo do intelectual é ser um porta-voz, uma testemunha. Meu papel é o de ser uma testemunha da natureza. Embora eu esteja consciente desses temas e problemas raciais e econômicos em nossa cultura, o papel que eu tenho exercido na minha poesia e na minha prosa nesses anos todos têm sido o de estar profundamente envolvido com o mundo não-humano, o mundo natural.

Como você vê a situação do ser humano hoje? Não se pode ignorar que as coisas estão preocupantes, como o terrorismo internacional, a crise ecológica e o aquecimento global, a pobreza de bilhões de pessoas, guerras, violência. Sua poesia frequentemente lida com temas como sobrevivência, comunidade, amor à natureza. Como você vê problemas como esses hoje, além da superpopulação, que você sempre menciona em seus livros? É possível ser otimista?

Não, claro que não é possível ser otimista em relação a nada hoje em dia. Mesmo que não nos preocupássemos com o meio ambiente, mesmo assim, não há razão para ser otimista. Isso por causa do enorme desequilíbrio econômico no mundo todo. Mesmo nos EUA e também no Brasil há a diferença imensa entre as classes mais afluentes e as mais pobres. Nos EUA essa diferença está aumentando o tempo todo. Essas coisas devem ser entendidas em termos de dinâmica histórica, e que ainda está com a gente, o que Marx chama de luta de classes. Na política americana ninguém quer falar sobre luta de classes hoje mas, sem dúvida, é uma parte importante do que está acontecendo. Há uma outra abordagem para essas coisas que eu gostaria de levantar: o mundo humano, com todos os seus problemas, ainda está separado da natureza, ele não entendeu a condição do mundo natural. Você abriu sua pergunta com a pergunta "qual é a situação humana"? E eu pergunto: qual é a situação da natureza? O problema, no mundo desenvolvido, é que os seres humanos são totalmente colocados, sempre, em primeiro lugar. Isso ocorre tanto na tradição científica quanto na religiosa e espiritual, que correm paralelamente. As religiões abrâmicas - como o judaísmo, o islamismo e o cristianismo - compartilham o mesmo mito fundador como a história de Abraão no livro do Gênesis e na Torá. Dos dez mandamentos, o mais importante e o que é lembrado pelas pessoas é "Não matarás", mas isso só se aplica aos seres humanos, e muitas pessoas no ocidente nem sequer percebem isso. Isso evidencia um fracasso moral profundo dessas tradições religiosas, e uma fonte de dificuldade considerável. A tradição científica que se desenvolve nos séculos 16, 17 e no Iluminismo europeu, em particular através de René Descartes, impõe uma visão dualista do mundo e de nossas mentes. É a ideia de que a mente e a matéria não se interagem e que os seres humanos e a inteligência humana estão destinadas a encontrar um modo progressivo de fazer um uso melhor do mundo. O mundo natural é visto apenas do ponto de vista materialista e científico, meramente enquanto um provedor de recursos naturais, como pedrisco, ar, água, peixe: como coisas a serem usadas. É visto como algo para ser usado, como uma grande depósito de madeira. As visões judaico-cristã e islâmica também defendem a posição de que os seres humanos são as únicas criaturas na Terra que têm uma fé divina em potencial, de modo que eles estão destinados a ir para o paraíso. Já os demais seres vivos não teriam tal destinação. Eles são tratados meramente como objetos sobre a mesa, e que algumas vezes exercem apenas a função de personagens em nosso drama de salvar nossas almas, mas eles não evoluem e não vão com a gente. Esta é uma deficiência imaginativa e de preocupação moral tão profundamente embutidas no pensamento do mundo desenvolvido que uma das tarefas das pessoas é chamar a atenção para isso e, assim, abrir o coração para a compaixão. Não só para falar para e pelas pessoas da minoria e pessoas que estão sofrendo mas também para a condição do mundo animal, das plantas, florestas, da água, dos oceanos. Este é um trabalho que mal começou. A preocupação com o aquecimento global leva em conta isso simplesmente porque as mudanças serão tão drásticas, mas o relatório que é mais conhecido trata da possibilidade real do desaparecimento dos ursos polares, em decorrência do desaparecimento do gelo no Pólo Norte. Com certeza haverão cada vez mais casos assim. É interessante como esses temas têm surgido cada vez mais na mente das pessoas. Essa crise ecológica não é algo que vai perturbar a natureza e sim os seres humanos! O mundo natural, que é mais amplo, um processo vasto de milhões e milhões de anos, pode se ajustar às mudanças climáticas. Os seres humanos é que estão preocupados com o que vai acontecer! A natureza pode cuidar de si mesma.

Você foi um dos fundadores do movimento da Ecologia Profunda. E como você vê o movimento ecológico hoje, especialmente nos EUA?

Quando comecei a escrever poesia a ideia de um escritor se interessar por ecologia, pelo mundo natural e por filosofias orientais soava como algo bizarro para a maioria das pessoas. Achavam que eu deveria ser eurocêntrico. Agora creio que há uma maneira mais cosmopolita de se perceber as coisas, por isso as entrevistas se tornaram um pouco mais interessantes. O governo Bush se voltou contra o movimento ecológico. Hoje há duas correntes, eu diria: num nível nacional, um grupo que trabalha como um organização, um lobby, com escritórios em Washington, e que tenta mudar a legislação. Do outro lado, grupos regionais e locais que estão em toda parte, existem as pessoas que estão trabalhando em suas próprias regiões e bacias hidrográficas, a maioria sendo voluntária, e que são pessoas comprometidas em trabalhar com temas locais, e estes estão trabalhando muito bem. Em todo o país, ambientalistas regionais e locais têm chegado a algum tipo de consciência sobre o mundo não-natural, e também uma compreensão maior sobre a viabilidade da natureza. Isto se vê no movimento das bacias hidrográficas: as pessoas entendem que as bacias são ecossistemas em si mesmos, e que através da compreensão da qualidade da água é possível saber o que está errado com nosso sistema. E também há o tema da biodiversidade, o que significa potencialmente perder muitas espécies causada pelo comportamento humano, como a pesca predatória, ou intolerância aos lobos no norte das Montanhas Rochosas, ou com os ursos pardos e outros grandes animais. Em geral, as pessoas acham que a natureza é uma inconveniência . As forças econômicas que impulsionam o desmatamento excessivo na bacia amazônica ou na Indonésia, através de companhias japonesas e chinesas, são um problema global. Por isso, uma das primeiras áreas a ser corrigida é a imaginação humana do mundo. Costumo dizer que a imaginação humana do mundo existente num haiku pode ser a mesma que vai salvar o mundo. Essa imaginação que leva em conta o outro, que neste é caso é simplesmente o outro, o não-humano.

Nos EUA, desde o começo da colonização, existiam alguns caçadores que tinham essa consciência da importância de se integrar à natureza. No entanto, a visão dominante tem sido a da natureza como nossa inimiga. Qual é a origem disso?

A ideia de natureza como algo a ser conquistado e destruído vem principalmente da tradição judaico-cristã, sendo posteriormente reforçada pelo urbanismo europeu e por atitudes mentais ao chegarem no mundo novo moderno, na América moderna, puritana e cristã, para quem a vida selvagem era uma analogia das profundezas obscuras da natureza humana. Pessoas que viviam nas florestas, como os índios, tinham uma vida sexual diferente, mais livre, e que os puritanos queriam a todo custo reprimir. Isso é bem conhecido já nos primeiros estudos de ingleses e franceses que fizeram contato com a América do Norte. Isso é parte do nosso conhecimento de como a psiquê anglo-americana e europeia foi moldada por uma imaginação cristã ao ser confrontada com uma paisagem nova e vasta, a qual não era cheia de estradas e cidades. E há toda uma história sobre isso, contada em detalhe em livros como The Wilderness and the American Mind, de Roderick Nash. O contraste com o mandamento "não matarás" é encontrado no Hinduísmo e no Budismo, é a ética do Extremo Oriente que diz: "cause o mínimo mal e não mate nada a não ser que você precise realmente". Isso inclui toda a vida, plantas, e até mesmo a vida não-consciente. O grau de ética e preocupação com relação à água, ao solo, pedras - como fazem as crianças quando dizem "não machuquem aquela rocha, ela pode ter sentimentos". O mundo tem sentimentos.

Então o que precisamos é de mais Budismo?

Bem, o Budismo aponta um caminho. Não é preciso se tornar budista para perceber que não é só o mundo humano com o qual temos que nos preocupar, mas também com o chamado mundo não-humano. Este é um detalhe tão pequeno, mas tão profundo. E agora existem movimentos ecológicos cristãos que estão reconhecendo isso, grupos pequenos que estão começando a vir à tona, como o Cristianismo Verde.

É possível traçar uma linha de americanos outsiders, que fundem cultura e natureza, uma ética transcendentalista que recorre em momentos da história americana? Você se vê como parte de uma tradição?

Claro que sim. Aprendi muito com Henry David Thoreau, Ralph Waldo Emerson ou Walt Whitman, mas não vejo a ideia do Transcendalismo e do Romantismo estão ressurgindo. Essa visão não é muito útil. Não é assim que as coisas acontecem, porque as influências estão constantemente correndo juntas. Todas essas coisas são simplesmente componentes do passado e o presente corre adiante. Eu diria que um dos componentes mais fortes do passado do mundo desenvolvido é a história de Abraão, a ideia de que Jeová deu a algumas pessoas a Terra Prometida. Que ideia intoxicante! A ideia de que aquela terra foi prometida a você, mesmo que exista gente morando ali, você pode ir lá e se apropriar. Foi isso que os judeus fizeram com Canaã, e foi isso que os europeus fizeram com a América do Norte, que eles a chamaram de "a Terra Prometida". Você já havia pensado nisso? A Califórnia era chamada de Terra Prometida quando as pessoas estavam se movendo rumo ao Oeste, só que já havia gente morando nela! . Nós não temos que nos preocupar com quem está lá porque nos foi prometida, Deus nos deu, é a promessa divina da Torá, da Bíblia, é parte do pacto de Abrãao. Isto não é só falar de religião enquanto uma abstração, leia de novo o livro do Gênesis para entender o que estou querendo dizer. Nós não tínhamos conhecimento deles mas assumimos que era nossa. Já a ideia do "Destino Manifesto" é apenas uma outra maneira de invocar essa psicologia da Terra Prometida: o governo central americano do século 19 daquele tempo afirmava que toda a América do Norte havia sido prometida a nós.

Numa entrevista ao tradutor e ensaísta Eliot Weinberger, você argumenta que "nós pensamos antes da linguagem, e imagens e ideias se tornam linguagem em determinado ponto. Nós temos processos de pensamento fundamentais que são pré-linguísticos. Parte de minha poesia remete a isso". A linguagem não seria simultânea ao pensamento? Não vivemos em estado permanente de linguagem? É possível estar totalmente separados da linguagem?

O que você acha?

Acho que estamos imersos na linguagem o tempo todo, de um modo ou de outro.

Bem, então você precisa investigar mais sobre isso. É para isso que nós meditamos: para investigar profundamente nossas próprias mentes e realmente ver - ao sentarmos e nos observar enquanto pensamos, observar o que a mente está fazendo sozinha dentro de você - em que momento e o quanto esse processo é linguístico. Você me perguntou antes sobre Zen. Como eu cheguei à essa conclusão a que você se refere? Depois de ter meditado milhares de horas e de ter realmente trabalhado em cima disso, e eu queria ver de onde vinham meus pensamentos. Esta é minha resposta. Para qualquer pessoa que diga o contrário eu diria, "tente você mesmo". Mas não aceite isso como apenas uma ideia: essa é um ideia popular e pós-moderna, a de que todo pensamento é linguagem. Ok, mas é apenas uma ideia. Mas você já investigou essa ideia? Como você sabe disso? É só uma opinião, ou você está repetindo o que outras pessoas disseram? Ou é algo que você aprendeu olhando dentro da sua própria mente? É só o que posso lhe dizer: olhe para sua própria mente.

Não poderia deixar de perguntar sobre sua relação com Jack Kerouac, que o transformou em personagem principal do romance The Dharma Bums [os vagabundos do dharma], de 1958? [Snyder ri]. Ele parece que tinha um carinho especial por você, tendo sofrido influência sua.

Eu não sei se tive tanto contato assim com Jack, em comparação a outras pessoas, especialmente depois que fui pro Japão. Jack e eu dividíamos uma casinha em Marin County, perto de San Francisco, no outono de 1955 e no começo da primavera de 1956. Cozinhávamos e vivíamos juntos neste lugar pequeno e simples. Não tínhamos eletricidade. Morávamos numa casa inacabada e sem janelas. Fazíamos trabalho florestal e fizemos longas caminhadas juntos nas montanhas. Eu fui embora pro Japão em maio de 56, e depois nunca mais o vi.

Sério?

Sério. Estive por doze anos no Japão. Mantivemos certa correspondência por um tempo. Seus editores me mandaram On The Road e The Dharma Bums quando foram publicados. Jack pediu desculpas por me colocar no livro, mas eu fui apenas um modelo artístico para o personagem Japhy Ryder. E ele me devia mesmo desculpas porque ele me causou alguns problemas. Desde então, ao longo dos anos tenho tido que explicar que não sou Japhy Rider! . Minha vida e personalidade foram apenas um modelo para o personagem, que vai lá e faz outras coisas no romance que eu nunca fiz. Para se dar algum crédito a Jack, devo lembrar que ele não era um jornalista e sim um romancista. Fiquei um pouco irritado com algumas pessoas tomando o personagem como um modelo. Minha correspondência com ele geralmente tratava mais de aspectos do Budismo. Ele tinha compreensões muito doces, tinha coração doce e profundo. Não importa outros problemas que ele tivesse, confusões sobre sua sexualidade, sobre sua mãe, e bebida demais. Mas ele tinha um bom coração, e no fim da vida parou de escrever e foi cada vez mais fundo em seus problemas, e então ele se virou contra Allen Ginsberg! Acusou Allen de ser judeu, entre outras coisas. E no fim se voltou para sua herança católica.

Você acha que a poesia perdeu sua força cultural nos EUA, como possuía na época da geração beat?

Veja, a poesia vem e vai. Forças culturais são ocasionalmente acidentes. Através da história, vemos que, quando o tempo é apropriado, o escritor certo aparece como uma força cultural. Não é que a literatura seque e vai embora, é que cada época tem sua peculiaridade. Somado a isso, vivemos na era da mídia eletrônica. Quando me perguntam sobre qual é a influência da mídia sobre a literatura eu respondo que linguagem é linguagem: ela ainda é o instrumento mais maravilhoso que possuímos. Nada vai substituí-la. Os escritores e poetas são aqueles que estão mais atentos à linguagem. A linguagem sempre continuará com a gente.

Você foi membro do Conselho de Artes da Califórnia. Qual é sua opinião sobre políticas públicas governamentais para a literatura e as artes?


Eu tenho sentimentos variados este assunto. Não tenho dificuldade nenhuma em ver as artes enquanto negócio, em ver um artista que pode ocupar seu lugar no mercado de arte e ver quão bem ele se sai. Isso se dá especialmente no caso do romance, que certamente compete no mercado. Mas há outras artes que, por várias razões, não podem competir no mercado, e outras que não têm absolutamente entrada no mercado, como a poesia. É simpático apoiar a poesia com fundos mas você não precisa do governo para isso, para fazer uma pequena publicação. A poesia é sempre uma arte marginal, sempre semi-subterrânea, e é uma arte de comunidade. Não é uma carreira: é uma vocação. Você é levado a ela, é um dom. Você não deve se preocupar se está fazendo dinheiro ou não com poesia. O que você precisa fazer é trabalhar com a sua comunidade. É uma coisa cultural. As culturas tradicionais não precisam de dinheiro do governo, precisam é de apoio da comunidade, isso sim. Sim, as artes precisam de apoio da comunidade, mas não quero falar sobre dinheiro governamental. Pra dizer a verdade, o governo norte-americano ferrou com a arte neste país, especialmente em nossos dias.

Em Back on the Fire você fala sobre o controle florestal através do fogo, o que pode parecer paradoxal para algumas pessoas. Você escreve sobre como a saúde ecológica das florestas da Califórnia, especificamente, dependem em parte desses incêndios periódicos. Poderia falar mais sobre isso?

Eu uso o fogo como uma metáfora interessante. Na diretriz de gerenciamento florestal nos EUA e no mundo, por mais de cem anos o fogo florestal era considerado como um tipo de inimigo. Consequentemente, toda vez que aparecia um incêndio florestal, mesmo que pequeno, ele era apagado imediatamente. A metáfora era ressaltar e identificar o fogo como perigoso e demonizá-lo. Então perceberam que, ao se apagar pequenos incêndios, de repente isso apenas aumentava a chance de imensos incêndios, que é o que temos tido, principalmente na costa oeste dos EUA. A falha é toda nossa. A metáfora que uso é social, política e espiritual: a questão é como não demonizar coisas que são simplesmente inconvenientes. Como usar o fogo, por exemplo, como amigo. E isso pode ser aplicado a muitos territórios da vida humana, como na política. Pegue o exemplo da guerra no Iraque: a rejeição da diplomacia por parte da administração Bush, desde o começo, e que teria resolvido o problema, e a pressa e voracidade em começar esta guerra, desinformação fantasiosa, é um caso de se querer demonizar e de se recusar a ter um entendimento maior, e uma negação de ser tratar a questão de um modo mais gentil, e é exatamente sobre isso a que o título do meu livro se refere. Como fazer do fogo - algo que se costuma pensar como um inimigo - um aliado? E é exatamente isso que os EUA tem tratado, oficialmente, em relação ao problema da imigração, sobre o qual também trato no livro.

Em 'Back on the Fire' você traça diferenças entre migração - que historicamente é um processo natural - da imigração, que assume, por definição, o sistema de estado-nação, como sendo um problema político. Já Michael Hardt e Antonio Negri, em Império, afirmam que a ideia de estado-nação está em desuso, que não é mais possível pensar o mundo em termos de estado-nação.

A migração é algo que tem acontecido através dos tempos, era uma questão de populações se movendo livremente de um lugar para outro. Quando os ancestrais dos índios norte-americanos vieram da Ásia para a América do Norte provavelmente não haviam pessoas aqui. Foi uma migração sem problemas. Mas a imigração se torna um problema quando as fronteiras nacionais já existem. Isso o força a pensar o que é uma fronteira, como torná-la porosa, e quando se fecha uma fronteira e por quais motivos. No meu ponto de vista é imperativo se pensar em termos de capacidade ecológica, em algum momento, simplesmente porque, por estarmos presente aqui, nós temos uma obrigação não só para a nossa sociedade mas para a Terra em si mesma. Mas de fato as fronteiras entre os EUA, Canadá e México são algo inúteis neste momento. A administração Bush está construindo uma imensa muralha na fronteira com o México, e agora estão fazendo isso no Arizona. É só para mostrar serviço. Ela não só não será terminada como não resolverá os problemas. Vamos ver o que acontece depois do Bush, com certeza algo melhor ou pelo menos diferente vai acontecer. É o que todos esperamos.

Você diz que não se considera um americano mas um habitante de Turtle Island [ilha da tartaruga]. Como é isso?

Não gosto da palavra América. Quem é esse cara, Américo Vespúcio, que nem esteve aqui? "Turtle Island" é um nome que os nativos americanos davam para o continente norte-americano. É um nome charmoso, eu gosto mais, o faz pensar de uma maneira diferente. "América" se aplica aos últimos quinhentos anos de história, quando os europeus chegaram aqui. Já "Estados Unidos" é um termo que se aplica a mais ou menos duzentos anos de história. Quão velha é a palavra "Brasil"? Quinhentos anos ou mais? "Turtle Island" é um nome que existe há milhares de anos, e quando uso o termo estou apenas tentando lembrar as pessoas de que este é um continente antiquíssimo. Sua origem e história são geológicas e mitológicas. Quando usamos o termo "Turtle Island" estamos nos referindo a um lugar que existe há milhões de anos, com uma presença humana de 40 a 50 mil anos. E é por isso que "Turtle Island" é um bom termo, coloca o tempo sob outra perspectiva. Não sei que nome seria mais adequado para a palavra "Brasil", ou "América do Sul". Isso é com vocês.

Rodrigo Garcia Lopes é escritor e jornalista, autor de Nômada (Lamparina), Vozes & Visões: Panorama da Arte e Cultura Norte-Americanas Hoje (Iluminuras) e professor de Português e Literatura na Universidade da Carolina do Norte (Estados Unidos).


FONTE: Estadão - São Paulo,SP,Brazil