quarta-feira, abril 09, 2008

A Ética a Nicômaco, de Aristóteles

Aristóteles e o Busto de Homero ...
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7/4/2008


A Ética a Nicômaco, de Aristóteles
Quatro escritos são atribuídos a Aristóteles (384-322 a.C.) sobre a moral: a Ética a Nicômaco, a Ética a Eudemo, a Grande Ética e Sobre as virtudes e os vícios. Este último, contudo, já foi desconsiderado pela crítica como sendo um escrito espúrio, enquanto a Ética a Nicômaco, com exceção de Cícero na Antigüidade e Schleiermacher no início do século XIX, foi sempre vista como a principal obra de Aristóteles no campo da moral. Dados, porém, os limites deste artigo, não entrarei na discussão das datas da composição nem das relações que se verificam entre a Ética a Nicômaco (que doravante chamaremos apenas Ética) e os outros dois textos. Viso tão somente a brevemente discorrer sobre a Ética em geral, e o Livro I em particular.
O tema central da Ética, que é constituída por dez livros, é a questão do bem supremo, da felicidade e das virtudes que condicionam a consecução e a prática deste bem. Note-se, todavia, que em Aristóteles, e à diferença de Platão, o conhecimento das virtudes é calcado no mundo das experiências – contingentes e finitas – que se desenrolam no seio da própria polis, e não em modelos que transcendem o sujeito e as relações sociais e políticas, no sentido grego do termo.
O Livro I especificamente se divide em treze capítulos. Os três primeiros tratam do objeto e do método da obra, apresentando-se, por assim dizer, como uma introdução a todo o tratado. Entre os capítulos 4 e 12, o filósofo indaga da essência ou das diversas acepções que receberam as noções de “bem supremo” e “felicidade”. Mas já nos capítulos 2 e 3, ele menciona três tipos principais de explicação: a opinião da massa, a opinião do político e, finalmente, a visão do filósofo. O livro se “conclui”, portanto, com o capítulo 13, que analisa o conceito de virtude e as divisões da alma. Na verdade, o Livro I não se conclui, pois este último capítulo funciona como uma ponte ou passagem que conduz à análise das virtudes dianoéticas, ou intelectuais, e das virtudes propriamente éticas, ou morais. Este, aliás, é um espinhoso problema que Aristóteles deixa suspenso no fim do capítulo 13 e que consiste em saber se, a rigor, pode-se falar de virtudes dianoéticas (sabedoria, inteligência, prudência), visto que, à diferença das virtudes éticas (generosidade, temperança), elas não dependem estrita e absolutamente do sujeito que as exerce.
Outro ponto que não deve ser de modo algum negligenciado é a importância que assume a causa final na concepção aristotélica da moral. Se ele abre a sua Metafísica declarando que todos os seres humanos aspiram ao saber, na Ética é o bem aquilo para o qual todas as coisas tendem. Sabe-se, no entanto, das implicações políticas, sociais e morais que encerra esta concepção, vulgarizada pela fórmula “o fim justifica os meios”. Mas, a este respeito, Aristóteles não dá uma resposta clara e definitiva de uma vez por todas, o que significa que um texto é tanto mais rico quanto mais obscuridades e resistências ele suscitar.
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Rogério Miranda de Almeida é doutor em Filosofia e em Teologia pelas universidades de Metz e Estrasburgo (França); leciona na PUCPR, Câmpus Curitiba. Sua mais recente publicação é “Eros e Tânatos: A vida, a morte, o desejo”, Edições Loyola.
Fonte: Gazeta do Povo On-line


apud Formação Solidária - Curitiba,Paraná,Brazil
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