sábado, abril 19, 2008

A poesia abstrata de João Pessoa

Qualis artifex pereo!
Wojciech Grzanka
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A poesia abstrata de João Pessoa
publicado em 15 de Abril de 2008 Ailon do Carmo
Mais um “Pessoa” surge no horizonte infinito do universo da arte de Corina – a mais consagrada poetisa do mundo heleno. Refiro-me, evidentemente, a Fernando Pessoa e João Pessoa. Enquanto que o luso valeu-se da artimanha dos heterônimos para estrategicamente melhor defender suas idéias, o brasileiro lança mão do artificioso recurso de uma fantástica figura de linguagem – a metáfora – para exprimir seus anseios e fantasias; e o faz de forma tão habitual e com tão despudorada intimidade com a mesma, que ela acabou se tornando na essência formal dos seus enredos poéticos. A erudição é outro traço indelével dos textos de sua preciosa produção literária.
Falar da forma de versejar de alguém é tarefa das mais complexas, posto que muitas vezes praticamente leva o analista literário a se metamorfosear em ‘Sherlock Holmes’ para tentar descobrir o que vai pelas entranhas dos pensamentos do autor, tal a hermeticidade da forma de expressão de alguns deles. Tomo a liberdade de citar um caso próprio, como exemplo: em que pese a simplicidade formal dos meus versos, e do estilo reconhecidamente clássico, há uma particularidade ainda não percebida pelos meus críticos, e que reflete exatamente o traço de minha personalidade – a cadência marcial dos versos quintassilábicos, de minha preferência, que, coincidentemente ao meu invariável e curioso corte de cabelo, desnuda o âmago militarista do meu eu. Em “Tereza Batista”, a prova cabal do fato: “Te-re-za-te-rê / que-não-é-Ba-tis / tam-pou-co-se-vis-ta-can-sa-da-de-guer-”. Um autêntico toque de tarola…
Voltando ao nosso João Pessoa, ao qual peço escusas pela indevida digressão, arrisco-me a afirmar que nele nada é formalmente concreto; mesmo abordando temas normais do cotidiano, sentimental ou não, envolve-os numa densa nuvem de mistério metafórico, transformando-os em enredos abstratos, tão complicados quanto um jogo num tabuleiro de xadrez… Em seus trabalhos, mais que o prazer lúdico da emoção pura e simples, há uma certa preferência pelo exercício da investigação racional. Ou se pensa, ou não se percebe o que vai pelos seus frenólogos, ali hermeticamente exposto. A metáfora é a palavra-chave, melhor ainda – o ‘código’ do tabuleiro de xadrez de sua poesia. Sem trazê-la na intimidade, como ele o faz, impossível decifrá-la!
João de Morais Pessoa Filho – este o nome completo do poeta em foco – não se deixa seduzir pelo fascínio sonoro das rimas, nem se prende ao controle rigoroso e sistemático da métrica; trilha a senda libertária dos versos brancos, no estilo do versejar ‘proseando’ de Drumond e Bandeira, dentre outros, porém sob fluídos de uma nova nuança expressional – aliás, já abraçada também pelo nosso festejado Wilson Ferreira Lemos – que tem na metáfora o fluído que dissolve o concreto e o transmuda em abstrato. “Lavras do Rio Solidão” é uma obra que vale a pena ler: pelo conteúdo poético e pela qualidade vernacular, revelados no poema “Versos Brancos”: Se só / sou como plágio de pássaro / artista a desenhar-te com giz / no mural de meus olhos. / Assim, normal, devo dizer-te: / estou ileso aos saprófagos / mendigos do amor. / Apenas amo imaginar-te / na liberdade de meu leito / ouvindo meus versos brancos.

(*) Ailon do Carmo é poeta e historiador local, e membro da Academia Mato-grossense de Letras.

FONTE: A Tribuna - Rondonópolis - Rondonópolis,MT,Brazil
http://www.atribunamt.com.br/

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