segunda-feira, abril 07, 2008

Obra sobre etnicidade, "Pele negra, máscaras brancas" volta ao mercado baiano


07/04/2008 (09:53)

Obra sobre etnicidade, "Pele negra, máscaras brancas" volta ao mercado baiano
Cleidiana Ramos
O lançamento de uma nova edição do livro Pele negra, máscaras brancas, de Frantz Fanon, na próxima quinta-feira, pode ser encarado como um presente para pesquisadores, estudantes e interessados nos debates sobre etnicidade.

A iniciativa do Centro de Estudos Afro Orientais da Ufba (Ceao), que vai sediar o evento a partir das 19 horas, coloca à disposição do público baiano uma das mais importantes obras contemporâneas sobre o racismo e seus impactos.

A edição em português de Pele negra, máscaras brancas saiu em 1983. Ela volta agora por meio de um projeto do Ceao, com o apoio do Uniafro, um programa ligado à Secretaria de Ensino Superior do Ministério da Educação (MEC).

Frantz Fanon nasceu na Ilha da Martinica em 1925. Morreu jovem, aos 36 anos, de pneumonia, nos Estados Unidos, à espera de tratamento para leucemia.

Mas a sua curta vida foi extremamente proveitosa: estudou psiquiatria e filosofia na França, dirigiu o Departamento de Psiquiatria do Hospital Blida-Joinville, na Argélia, e participou da Frente de Libertação Nacional.

Foi também membro das forças de resistência na África e na Europa, durante a Segunda Guerra Mundial.

Produção – Além de Pele negra, máscaras brancas, Fanon escreveu mais quatro livros, dentre os quais Os condenados da terra (Les Damnés de la Terre), de 1961.

"Fanon é um intelectual renomado, que escreveu obras de referência para a área de estudos étnicos, filosofia e cultura. Investimos nesta edição pois a primeira já estava esgotada e circulava apenas por xerox", explica o doutor em antropologia e diretor do Ceao, Jocélio Teles.

O autor do prefácio do livro, Lewis R. Gordon, presidente da Associação Filosófica Caribenha, começa seu texto lembrando a época em que abordar a obra de Fanon em uma aula numa universidade era se arriscar a perder o emprego.

O comentário já dá conta da turbulência que seu pensamento produziu nas décadas de 1960 e 1970. A principal crítica de Fanon é a negação do racismo contra o negro na França, o que também acontecia e acontece em grande parte do mundo moderno.

O tema continua atual, principalmente no Brasil, cuja idéia de identidade nacional é sustentada por uma pretensa harmonia entre três raças. Mas não é apenas neste tema, por si só extremamente capaz de dar panos para mangas, que Fanon envereda.

Ele mexe em outros vespeiros, como o de que a negação está presente também em muitas pessoas negras. Ele não considera todo mundo racista, mas examina o problema em seus mais variados níveis além de se debruçar sobre o campo da construção do conhecimento.

“O livro fala por si mesmo, mas também é um livro que fala através de si mesmo e contra si mesmo. Fanon literalmente põe em xeque a maneira como entendemos o mundo e também provoca um desconforto na nossa consciência que aguça ansiosamente o nosso senso crítico”, escreve Lewis R. Gordon.

Com uma linguagem que usa variados recursos – inclusive a poesia –, o livro aborda racismo, colonialismo, linguagem, enfim, um panorama extremamente amplo e questionador.

A linguagem é apontada por Fanon como um aspecto extremamente importante, afinal, ela é fundamental para a construção do pensamento racial.

Como explica Gordon, dominar a linguagem é assumir uma identidade cultural. O problema é que, no caso dos negros, esta legitimidade cultural não se cumpre mesmo com o domínio no idioma.

“Muitos negros acreditam neste fracasso de legitimidade e declaram uma guerra maciça contra a negritude. Este racismo dos negros contra o negro é um exemplo da forma de narcisismo no qual os negros buscam a ilusão dos espelhos que oferecem um reflexo branco. Eles literalmente tentam olhar sem ver, ou ver apenas o que querem ver“, explica o autor do prefácio que, realmente, funciona como uma ótima introdução para o livro.

Tradução cuidadosa – Doutor em antropologia, professor da Ufba e artista plástico, Renato da Silveira foi o responsável pela Tradução do livro e pela construção da capa.

O primeiro desafio foi o de sanar as imperfeições que ele descobriu na edição francesa de 1952, repetidas na edição de 1975, que foram a base para a tradução em português, publicada em 1983.

“Este foi o primeiro trabalho de Fanon e a editora não apostou muito. Não colocou, por exemplo, um editor para fazer uma organização, as citações não têm destaque e estão no corpo da coluna, o que é um recurso para economizar páginas, mas que não ajuda o leitor”, diz.

Silveira destaca que Fanon escreveu seu livro para um público próximo, que tinha as mesmas referências culturais e intelectuais.

O problema é que a obra ganhou repercussão mundial e permanente. Além disso, o livro é marcado por referências multidisciplinares.

O passeio vai pelo campo da literatura, psicanálise, cinema, psiquiatria, dentre outros. Além disso, utiliza latim, inglês e alemão.

“Esta vocação multidisciplinar foi um outro dos grandes desafios para a tradução“, relata Renato da Silveira. Desta forma, o tradutor procurou organizar melhor o livro, sem alterar o conteúdo, dando um melhor tratamento a citações e notas, por exemplo.

Já para a capa, o antropólogo optou por usar imagens que remetiam aos exemplos dados por Fanon ao longo do seu livro. Elas tratam das construções da imagem negra em publicidade, por exemplo, e sua utilização como legitimador do discurso racista.

“Decidi então fazer uma pesquisa e escolhi imagens do negro que aparecem, principalmente, na propaganda comercial francesa, entre 1890 e 1950. São inclusive imagens citadas no texto de Fanon“, diz Silveira.

Lançamento de Pele Negra, Máscaras Brancas De Frantz Fanon Quinta-feira, às 19 horas Ceao (3322-6742) Largo 2 de Julho, 42

FONTE: A Tarde On Line - Salvador,BA,Brazil

Nenhum comentário:

Postar um comentário