“Xingar o Kilamba faz xinguilar!”
Literatura identidade e política
João Pinto
Literatura identidade e política
João Pinto
Kidi kidi, kididi kididi.
“A verdade e o espaço não se confundem”
Filosofia Angolana- Kimbundu
Escrevo o presente texto no âmbito do exercício de cidadania, procurando reflectirmos sobre a nossa sociedade, as nossas makas, kambas e kotas.
Na senda da “insolente” entrevista do Escritor José Eduardo Agualusa, sobre a poesia de Neto, contestado firmemente por Luís Kandjimbo. Ao escritor importa narrar, verdades ou inverdades, mas cabe aos professores, intelectuais ou sábios ensinarem o que é verdadeiro, científico, afastando os embustes, malabarismos; e aos políticos servirem em nome do bem comum.
A escrita serve para depositar, memorizar, informar tudo que acontece, aconteceu e o que pode acontecer.
O escritor é o homem que utiliza a sua pena para relatar ou narrar tudo, atendendo os gostos estéticos; ele pode ultrapassar, exagerar (surrealismo), inventar factos atendendo o seu imaginário.
O escritor é um contador de estórias ou de história, aquela é a invenção que pode ser positiva ou negativa, esta é a discrição do sucedido realmente, mas alterna personagens, datas, sítios ou factos; tem haver com o que ocorreu, sem perjuizo de omissão deste ou daquele facto ou reforço de certos aspectos sobre o sucedido.
O escritor, como homem atento sobre a sua socieadade não se afasta do meio, circunstâncias, sujeitos, paisagens, códigos, símbolos que caracterizam o objecto do seu trabalho e os sujeitos, segundo Horácio (65/8 a.C), na sua Arte Poética; o escritor é alguém que se identifica, conhece, vive, ou viveu, ou informado do que descreve, por isso, o subjectivismo constante, mesmo quando se esforça em distanciar-se, criando personagens, sujeitos que contam o que escreve ou melhor o escritor é um homem do seu tempo, mesmo quando ficciona, escreve atendendo à cronologia, imagens, espaço e pessoas conhecidas.
Eis a razão do escritor ser também escravo do tempo, pessoas e meio, gostos, cheiros e paisagens é um ser de identidades pessoais e de terceiros que dá voz. Mas, ao sê-lo, não pode mentir, ofender a honra dos outros, muito menos impor seus gostos pessoais ou estéticos, mesmo que apresentados; por serem supceptíveis de discussões, críticas, aceitação ou rejeição do povo ou elites, por existirem interesses de vária ordem, naquilo que se pode considerar de ícones, simbólos de uma sociedade é uma questão política e não é meramente estética ou filosofia; é uma questão de interesses da comunidade, é gestão de interesses, ou seja, é política, cidade, tem haver com lideranças dos sujeitos, elites naquilo que é a expressão máxima na estética literária, política, económica ou social.
A escrita não pode servir para humilhar, banalizar, diabolizar os ícones, heróis, mitos, deuses ou divindades; Neto é Kilamba, kituta, kiximbi sendo-o é intérprete das divindades aquáticas do Kwanza, é o antropónino de crianças que nascem com poderes especiais, segundo o antropólogo Virgílio Coelho (1989).
Quando o fazem rompem, revolucionam, atacam dando origem aos conflitos ou xinguilamentos, atendendo os interesses espirituais, por razões inerente à religiosidade, nzumbi, kalunga, malunga, ituta, segundo Heli Chatelain (1894:I), senão vejamos, a vexata questio, Helénica, entre Sócrates e Adimanto, sobre a Poesia de Homero, Odisseia, segundo Platão, in República, Diálogos I livro III, que diz :
«__ Tais são__ disse eu__, relativamente aos deuses, os discursos que é preciso fazer e não fazer, desde a infância, a homens que deverão honrar os deuses e os pais e ter em grande conta a sua mútua amizade.
__ E essas conclusões parecem justíssimas.
__ Mas, se devem ser corajosos, não se devem também fazer discursos capazes de os libertar, tanto quanto possível, do medo da morte? Ou achas que é possível ser corajoso tendo em si este medo?
__ Por Zeus! __ respondeu
__, é claro que não acho!
__Mas como! Aquele que acredita no Hades e o imagina como um lugar terrível, achas que não teme a morte e, nos combates, a prefere à derrota e à servidão?
__De maneira nenhuma.
__Também é preciso, como parece, vigiar os que empreendem é preciso, como parece, vigiar os que empreendem contar fábula e pedir-lhes que não viturperem, de modo simplista, as coisas do Hades, mas antes que as louvem; com efeito, as suas narrativas não são nem verdadeiras nem úteis a futuros guerreiros.
__ Sem dúvida que é preciso__ disse ele.
__ Por conseguinte__ prossegui
__, a apagaremos, a começaar por estes versos, todas as asserções deste tipo: Preferiria, criado de lavoura, estar ao serviço de outro, de um homem pobre e levando vida modesta, do que possuir o império dos mortos...
(...) Pediremos a Homero e aos outros poetas que não levem a mal que apaguemos estas passagens e todas as do mesmo género; não porque lhes falte poesia e não soem bem ao ouvido da maioria: mas, quanto mais poéticas são, menos convém deixar que sejam ouvidas por crianças e homens que devem ser livres e recear a escravatura mais do que a morte. (...)
(...) Se, com efeito, meu caro Adimanto, os nossos jovens tomassem a sério tais discursos, em vez de rirem como de fraquezas indignas dos deuses, ser-lhes-ia difícil, sendo apenas homens, julgá-los indignos de si mesmos e exprobar o que poderiam dizer ou fazer de semelhante; mas, ao mínimo infortúnio, abandonar-se-iam sem vergonha e sem coragem às queixas e lamentações. (...)
(...) __ E, se compete a outros mentir, é aos chefes da cidade, para enganar, no interesse da cidade, os inimigos ou os cidadãos; a mentira está interdita a qualquer outra pessoa e afirmaremos que o particular que mente aos chefes comete um erro da mesma natureza, mas maior, que o doente que não diz a verdade ao médico, que o aluno que esconde ao pedótriba as suas disposições físicas ou que o marinheiro que engana o piloto quanto ao estado do navio e da tripulação, não o informando daquilo que faz, ele ou um dos seus camaradas.
__ É inteiramente verdade__ reconheceu.
__ Por conseguinte, se o chefe surpreender em flagrante delito de mentira um cidadão da classe dos artesãos, seja adivinho, médico ou carpinteiro, castigá-lo-á, como se introduzisse uma prática adequada a virar e a perder tanto uma cidade como navio.
(...)
Transcrevemos o que aconteceu há mais de dois mil e quinhentos anos, na cultura Helénica, os Gregos são os expoentes máximo da cultura ocidental, moldada pelos romanos e posteriormente pelo Cristianismo. Serve para apaziguar a Maka, suscitada pela entrevista “polémica e um tanto quanto provocadora” do escritor Agualusa, o autor de « Nação crioula», ao qualificar Agostinho Neto e «Poeta Medíocre». Parece-nos que a linguagem foi excessiva, pelo facto de ser um ícone ou o autor que foi canonizado como sendo a mais sublime ou expressão máxima da poesia angolana, com a sua «Sagrada Esperança» e «Renúncia Impossível». Ele é, a premissa maior da angolanidade, senão vejamos: ele combateu e denunciou a discriminação, racismo, colonialismo e exploração do homem negro reduzido à zero, recusou ser cúmplice do regime em questão, criou a utopia, vaticinou e seja qual foi a legimidade e meios utilizado proclamou a independência de Angola
__ este homem merece o nosso respeito e estima, seja qual for o nosso gosto estético_ rompeu com o cânone luso, com os gostos estéticos. Quem o ataca, ataca a razão da utopia__ a Independência de Angola.
Todos textos apresentados, contestando ( Quiroz) ou defendendo ( Sousa Jamba) a linguagem utilizada é compreensível, foram só políticos e subjectivos, salvo o escritor Luís Kandjimbo, mostrando destreza e profundidade intelectual, próprio de um aristocrata, cortez e profundo sem ataques subjectivos.
Há uma certa pobreza “intelectual” quando abordamos a nossa sociedade, buscamos sempre paradigmas exógenos, recusamos buscar o que há de positivo entre nós, releva-se o excesso, omite o feito e efeito positivo.
Acho que, o autor de “Nação Crioula”, utilizou uma linguagem subjectiva, mas também provocou um debate, falou de coisas positivas sobre a Cultura Angolana e Brasileira, mas generalizou em relação à Neto, Kilamba; Poesia é a expressão estética que procura moldar a palavra ou poesis Grega, é o canto, escrito com uma cadência que segue um método específico; a Poesia, designa-se Muimbo, Nkembo, Tchissungo em Kimbundu, Kikongo e Umbundo respectivamente.
A expressão medíocre, é o sinónimo de médio, comum, vulgar, ordinário. Se este foi o propósito do escritor acima identificado, foi razoável, médio, comum ou medíocre ao qualificar Neto como sendo a expressão do pensamento mediano do ponto de vista estético, ou seja, Neto interpretou bem a sua condição de escritor ou Poeta, fazendo ecoar a Voz do Deserto, Cantando no caminho do Mato, renunciando o bem-estar, de assimilado e educado como português africano, médico e casado com uma portuguesa, que estaria na classe dos superiores, optando por exteriorizar a voz de seu povo, acreditando na utopia, quando a realidade era garantida, até há coincidência com a qualificação que o Regulamento do Imposto do indigina (Diploma legislativo 23, de 26 de Maio de 1931), no seu artigo 10º § I, que definia em relação ao indigina:
«Homem de raça negra ou que dele descende que não se distingue do comum daquela raça». Agualusa, não foge da qualificação racista e colonial que se fazia sobre os “negros, pretos” ou seus descendentes mestiços ou mulatos, bem como a exclusãoo de brancos que utilizassem o linguajar da terra os usos e costumes, eram vistos por vulgares.
Exige-se respeito, veração, solenidade aos heróis, escritores mesmo quando os gostos estéticos diferem. É uma questão de temor reverencial, seja sobre Neto ou qualquer outro escritor que retrata da nossa identidade, exige-se solidariedade, sem prejuizo da crítica objectiva, resultante do pluralismo, liberdade e responsabilidade.
Quando se afirma livremente, devemos admitir também que haja quem não aceite o nosso ponto de vista, ser livre é ser responsável segundo Stuarte Mill; o texto da entrevista de Agualusa, no Jornal Angolense de 15 a 22 de Março de 2008, e no seu Artigo de defesa no Semanário a “Capital”, de 29 de Março a 5 de Abril de 2008, mostra um arrazoado intelectual de uma elite que a todo custo quer ser livre e fazer o que lhe apetece sem ser respondido! São democratas quando xingam os outros, quando dizem qualquer baboseira e ainda por cima se agradece! Que tamanha liberdade, que ética defendemos, que humanismo! Que educação, que conhecimento manifestamos, onde está afinal a cultural...
A literatura não pode tratar de questões que não têm haver com o seu tempo e espaço, mesmo a ficção, é escrita num local, por alguém, por isso, a política faz parte dos homens, é cultura ou identidade. Há nexo entre Literatura Identidade e Política. Se os Gregos exclamam por Zeus, eu clamo por Kalunga! Ilumine-nos, sobre as nossass makas, kambas e kotas, senão xingalamos...
Acho mesmo que, deve haver responsabilidade criminal e civil por estarem reunidos todos requisitos do ultraje à moral pública(ofendeu a moral cultural ou intelectual dos angolanos), previsto e punido no Artigo 420º do Código Penal.
É preciso moralizar, sob pena de banalizar a figura mais importância da nossa memória colectiva contemporânea. Eles (Neto, Jacinto e Cardoso), foram os transmissores da nossa razão de sermos livres, não se pode deixar isto, sob pena de ridicularizar a razão da angolanidade, desrespeito pela dignidade e liberdade cultural, impondo-se uma identidade que com a qual não nos identificanos ex vi artigo 5º da Carta Cultural Africana, aprovada pela Resolução da Assembleia do Povo Nº 8/84, de 18 de Julho.
A liberdade, termina aí onde começa a memória colectiva, que a razão suprema de toda liberdade angolana. Honra, respeito e dignidade aos heróis...
* Jurista, Ensina Ciência Política e Direito Público, na UnIA e Faculdade de Letras e Ciências Sociais, da UAN.
FONTE: Jornal de Angola - Luanda,Luanda,Angola
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