domingo, abril 06, 2008

Glauber, cangaço e vanguarda

Pesquisador Firmino Holanda(Foto: Banco de dados)

ENTREVISTA
Glauber, cangaço e vanguarda
Glauber Rocha é um capítulo à parte no cinema sobre o cangaço. Seus filmes tratam do tema como parte de uma alegoria do Brasil, imerso em uma ditadura. O pesquisador Firmino Holanda analisa o porquê

Antes de assistir ao filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, Firmino Holanda leu e releu o roteiro. As imagens de Glauber, que conheceu mais de dez anos depois do lançamento do filme, não lhe largaram mais.

Vieram as outras obras e o estudo da vida do cineasta, líder do chamado Cinema Novo, movimento responsável pela renovação do cinema nacional a partir da década de 1960. Hoje, professor de cinema da Universidade Federal do Ceará, lecionando na Casa Amarela, Firmino, 53 anos, ainda acha que os filmes de Glauber são a interpretação cinematográfica mais radical já feita da realidade brasileira, particularmente do Nordeste, região onde nasceu e da qual retirou boa parte dos ingredientes para seu caldeirão cultural.

Em sua obra, o cangaço aparece como elemento fundamental na estrutura narrativa de dois de seus principais filmes, Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, integrando a alegoria do País em tempos de ditadura. (Pedro Rocha)

O POVO - Em alguns filmes de Glauber Rocha, o cangaço é mais um dos elementos que compõem a obra. Como o cangaço se integra nessa narrativa?

Firmino Holanda - Ele não tá fazendo um estudo histórico e antropológico do cangaço, ele pega o que há de histórico, de mítico nele e joga ali. Claro, ele mantém certas características do cangaço, mas ele não tá preocupado em fidelidade histórica, antropológica, não, ele inventa gestos, falas. O discurso de Glauber não é um discurso distante: "o Brasil tá ali, e eu tô vendo daqui, através das minhas câmeras". Na verdade, "eu estou dentro dele, eu me jogo nele com todas as contradições". O cangaço é uma linguagem brutalista que representa toda a luta armada desorganizada, não só o cangaço, e o Glauber leva isso ao paroxismo. Na verdade, ele critica o cangaceiro, como ele critica, mais veementemente eu acho, a alienação religiosa, porque também fica difícil criticar o cangaço. Na nossa mitologia, mesmo nós urbanos, o cangaço é uma coisa que paira. Se você, por exemplo, assistir ao filme do Benjamim Abrahão, não sei hoje em dia, mas naquela época e muito recentemente, ele produzia um frisson, a figura de Lampião é emblemática, ele tem uma beleza plástica, aquele chapéu, aquelas estrelas, aquela indumentária é poderosa. O imaginário do cangaço é muito forte, então, às vezes, fica mais difícil reconhecer o quanto o Glauber critica, mas, na verdade, eu vejo mais ele como uma crítica. Nos filmes do Glauber, todos os personagens são ambíguos, e o cangaceiro tá lá do mesmo jeito.

OP - Como o Glauber vai se posicionar em relação às leituras anteriores que se fizeram do cangaço?

Firmino - A postura do Glauber é extremamente radical, o contrário da visão do Lima Barreto, principalmente da forma. Ele é radicalmente oposto tanto ao Carlos Coimbra, quanto ao Lima Barreto. Ele é implacável com O Cangaceiro no Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. Ele adorava filme de cowboy, mas uma coisa é você gostar e outra é fazer. O Glauber se apropria de certos elementos do faroeste e desmonta o faroeste radicalmente. Eu tô falando do faroeste, mas não é só isso, tem (Luis)BuÀuel, (Luchino) Visconti, (Sergei) Eisenstein, (Jean-Luc)Godard, e muito Bertolt Brecht. Esse caldeirão de influências que no fundo vão dar na linguagem glauberiana, que não é imitação de nada, é ele deglutindo essas informações.

OP - Antes dos filmes de Glauber, o olhar lançado ao cangaço é principalmente o olhar sulista. Como o olhar da vivência nordestina de Glauber vai desembocar no cinema dele?

Firmino - A geração do Cinema Novo, onde Glauber é a figura central, é muito da literatura, do romance brasileiro, ele era um profundo leitor, principalmente de José Lins do Rego. Então, ele se embebeu dessa literatura e fez uma viagem pelo interior do Nordeste. Na verdade, ele é nordestino, nasceu no interior nordestino, em Vitória da Conquista, terra de cangaceiro, terra de pistoleiro. Ele já era um homem do interior nordestino, mas se aprofundou ainda mais. Ele era um ávido leitor de romances nordestinos e de literatura em geral, um homem culto. Já devia ter lido também a literatura sociológica sobre o cangaço que tava aflorando na época, destacando Rui Facó, cearense que escreveu Cangaceiros e Fanáticos. Aí, você vê o livro, não vou dizer que ele influenciou diretamente, mas ele trata justamente dos símbolos do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, que são os beatos e os cangaceiros. Glauber também era um crítico dessa estética nascida com Lima Barreto, na década de 50. Lima Barreto pretendia produzir um filme realista, naturalista, copiar a realidade como ela é. E o que ele fez? Ele fez primeiro o filme no interior paulista, com uma vegetação diferente, cangaceiros andando a cavalo, o que não era comum, era raríssimo. Tem um tipo lá do bom cangaceiro que é bem sulista mesmo, já o cangaceiro malvado é bem nordestino. É interessante perceber isso, que o malvadão tem a cara cabocla, ele é um mestiço, muito índio, já o bonzinho tem uma feição européia. Ele trabalha essa tipologia que implica um cinema mais conservador. O Coimbra já filma no Ceará, vem pra região seca do Quixadá, mas a estrutura dramática, narrativa, lingüística e a ideologia que perpassa esses filmes são iguais, a narrativa é a mesma, a do cinema do faroeste americano. Mas a diferença do Glauber não é só as locações, ele poderia fazer esse filme no Rio de Janeiro que ainda seria radicalmente inverso a essa ideologia que perpassa esses filmes. Aliás, O Cangaceiro foi refilmado no Nordeste pelo Aníbal Massaíni (Neto), na última década de 90, e é lamentável, eu não gosto nem um pouco, é pior, é folclorizante.

OP - O que dá a dimensão dessa leitura radical dos filmes de Glauber?

Firmino - Quando o Lima Barreto usa a música, por exemplo, é lamentável... é folclorizante, "olê, mulher rendeira", aquele contra-plano e os cangaceiros andando a cavalo, aquela luz crepuscular, é poético, é folclorizante. O Glauber não, ele usa (Heitor) Villa-Lobos, (Johann Sebastian) Bach, um compositor russo, não sei exatamente qual. Usa a música clássica européia, criando um contraponto com a ambientação rude, e usa também a musicalidade nordestina. Mas, veja bem, quando ele usa o cantador, quem canta é o Sérgio Ricardo, um compositor de Bossa Nova, de voz suave, sofisticadíssimo, para compor melodias a moda nordestina. E ficou uma coisa estranhíssima, ele produz é um distanciamento. Ou seja, quando Lima Barreto usa "olé, mulher rendeira" com aqueles cangaceiros no crepúsculo, ele não provoca estranhamento, ele provoca embevecimento, encantamento. Quando Glauber coloca o Sérgio Ricardo, com a voz limpa, não anasalada, tocando algo que lembra música folclórica nordestina, mas não é, ele já provoca um estranhamento, porque ele não está oferecendo para aquela paisagem, para aqueles personagens, a música "ideal". No Dragão da Maldade, por exemplo, ele mistura a cantoria popular, com samba, tem um momento que toca Carinhoso, de Pixinguinha, e usa as intervenções da música eletroacústica de Marlos Nobre. Na abertura tá lá um som estranhíssimo como se fosse fita invertida. O Glauber coloca música de vanguarda no cangaço.

OP - Você falou em uma linguagem brutalista do cangaço. Essa linguagem também pode servir para pensar a própria estética de Glauber?

Firmino - O cangaço tem seu código, ele é um código de vida que produz seu discurso na sua ação, a realidade é a linguagem. O cangaço tem sua linguagem brutalista, do sangue, da violência. Glauber vai dizer no manifesto Estética da Fome que o colonialismo francês só entendeu que existia o argelino quando apareceu o primeiro colono francês exterminado pelo rebelde argelino. Ou seja, foi um gesto, uma ação, uma linguagem, que detonou a idéia de que existe esse outro que não é visto. É nesse manifesto que ele reivindica um cinema que não se apegue a esse código mais convencional, de menor intervenção que prevalece no cinema do colonizador.

E-MAIS

Glauber decidiu exilar os negativos de seus principais filmes em meados dos anos 1970, precavendo-se de uma possível apreensão pelo regime militar, que apertava o cerco. Ironia do destino, o laboratório francês que abrigava a cópia de O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969) pegou fogo. Mais de três décadas depois, o filme está restaurado e com lançamento nacional previsto para o próximo dia 25. Antes, a cópia restaurada será exibida na Cerimônia de Encerramento do 18º Cine Ceará - Festival Ibero-americano de Cinema. O filme rendeu o prêmio de Melhor Diretor para Glauber no Festival de Cannes.

FONTE (photo include): O POVO Online - CE,Brazil

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