quinta-feira, abril 24, 2008

Ecometria do Silêncio* - de Alberto Pucheu (Rio de Janeiro, Sette Letras, 1999). - Por Caio Meira

Ecometria do Silêncio*
de Alberto Pucheu (Rio de Janeiro, Sette Letras, 1999).

Por Caio Meira

Ao contrário do que muitos vêm alardeando, não atravessamos um período de estagnação poética. A crítica literária, ainda sob o impacto das obras dos grandes poetas deste século, procura assimilar a ausência de movimentos de grupo e de manifestos poéticos a uma insipidez ou uma debilidade na poesia dos que começaram a publicar a partir dos anos 90. Com freqüência, confunde-se fragmentação e pluralidade de referências literárias com dispersão e fragilidade poéticas. A tese reinante é a de que, na impossibilidade de encontrar uma tendência definida e válida para o conjunto da geração atual, deva-se considerar qualquer poesia como experimentalismo técnico, negociação ou articulação - Ezra Pound diria diluição - das conquistas poéticas do século XX. É nesse cenário depauperado que se funda uma crítica culturalista, tendendo a valorizar a poesia como expressão de uma determinada família ou tribo em detrimento do que está na raiz do fazer poético, a criação.
Há sim uma nova poesia sendo produzida no Brasil, ainda que falte um pensamento crítico capaz de identificá-la. A recente aparição de Ecometria do Silêncio (Sette Letras, 1999, incluindo um vigoroso ensaio do poeta Antonio Cícero), quarto livro de poemas de Alberto Pucheu, está aí para prová-lo: mergulhado na fragmentação da linguagem, do sujeito e do próprio ato de escrever, distante dos grupos literários e dos circuitos que envolvem mídia e grandes editoras, Pucheu vem construindo uma obra que, além de apresentar desdobramentos poéticos maduros e sólidos, tem sobretudo a característica de trilhar seu próprio caminho.
Escrevo o poema de uma nova geração: esse é um dos motivos perseguidos em Ecometria do Silêncio. Entenda-se geração no sentido de gerar, dar origem, criar. E justamente por originar algo de novo, cria-se e define-se uma nova linhagem poética. Sem se contentar em ser uma versão experimental de alguma poética precedente, Pucheu funda suas próprias bases. Seu percurso, fugindo da apatia pós-moderna, constitui-se essencialmente da procura das tensões, entre homem e cidade (o corpo manuseado pela rebelião sísmica da cidade), entre palavra e silêncio (Tudo já foi dito. Tudo, ainda por dizer. Arde o segredo do indizível), entre presença e ausência (descanso, enfim, no exílio inexistente da caverna), entre tudo o que produz inquietação (Conquisto a cada dia uma espécie de permanência, de confiança, na perplexidade que o mundo oferece [...] Vivo a instabilidade das propensões, submetido aos ditames do provisório). Há no livro uma busca incessante da intimidade com o que é instável, com o que advém de uma fronteira desguarnecida. Essa intimidade é sobretudo desencavada, desentranhada, obtida através da desestabilização da relação com a vida e com o mundo.
Assim como Drummond, que ao ver seus amigos taciturnos, não quis ser o poeta de um mundo caduco, Alberto Pucheu, sem promover utopias nem abandonar-se a saudosismos, quer descobrir sua matéria no tempo presente (Meu desespero é pelo agora). Quem teve a oportunidade de acompanhar seu percurso sabe que Ecometria do Silêncio é a conquista de uma maturidade poética, representando um desenvolvimento pleno para o que foi posto à prova nos livros anteriores. Desde Na cidade aberta (1993), passando por Escritos da freqüentação (1995) e por A fronteira desguarnecida (1997) - sem esquecer a organização do livro de ensaios Poesia e Filosofia, por poetas-filósofos em atuação no Brasil (1998) -, ele teve o mérito de não se apoiar demasiadamente nos poetas do seu tempo, mantendo sua aposta na gestação de um movimento poético independente (recusar filiações não foi o que fizeram os grandes poetas?). Sua poesia não é a expressão de seu tempo. Ao contrário, ela constrói uma região própria, colocando-se em ruptura com o que a precedeu. Essa é sua maturidade. E justamente por estar intimamente ligada com o que é instável - e por conseguinte com o desconhecido -, inclusive em suas próprias conquistas, ficamos na expectativa do que virá a seguir.
*Publicado em O Globo / Prosa e Verso / 02/01/2000
FONTE: http://www.caiomeira.kit.net/

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