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Pedro Barreiros, organizador da exposição sobre o grande poeta
“Camilo Pessanha é um poeta de Macau”
Num texto que escreveu disse que Macau seria sempre um estado de espírito e que em Camilo Pessanha encontrava essa memória. Nasci em Macau e sou filho de uma família macaense. A minha mãe foi aluna de Camilo Pessanha; e foi com o meu avô José Vicente Jorge que Pessanha traduziu as “Elegias Chinesas”. Ele faz parte de toda a minha infância e de toda a minha adolescência. Fui, infelizmente, muito novo para Lisboa.
“Camilo Pessanha é um poeta de Macau”
Num texto que escreveu disse que Macau seria sempre um estado de espírito e que em Camilo Pessanha encontrava essa memória. Nasci em Macau e sou filho de uma família macaense. A minha mãe foi aluna de Camilo Pessanha; e foi com o meu avô José Vicente Jorge que Pessanha traduziu as “Elegias Chinesas”. Ele faz parte de toda a minha infância e de toda a minha adolescência. Fui, infelizmente, muito novo para Lisboa.
E de barco.
Demorámos dois meses e meio a chegar. Fomos dos primeiros macaenses a ir a seguir à Guerra. Na minha casa vivia-se muito o ambiente de Macau, era o imaginário da família, o comparativo máximo. Eu e o meu irmão chamávamos ao Rossio o Macau das Pombinhas, era um sítio em que havia mais pombas e aparentemente felizes. Fui embalado pelos poemas de Pessanha que, desde cedo, soube de cor.
A pintura foi um acto reflexo?
Fiz o meu primeiro retrato de Camilo Pessanha quando tinha 16 anos. Tenho-o em Lisboa para oferecer à minha mãe. Quando lia ou recitava os poemas via imagens sucessivas. A dada altura tentei fixá-las na pintura e daí nasceram uma série de 25 de quadros sobre “Clepsidra” que, aliás, expus em Macau, nos anos 90. Em 1995 fiz uma edição de “Elegias Chinesas” ilustrada com quadros a óleo. Embora traduções são poemas de beleza notável.
É assim que lê poesia?
Depois de Pessanha fui sempre pondo os poetas que me são queridos em pintura: Fernando Pessoa, Cesário Verde, Garcia Lorca e agora estou a pintar o grande poeta chinês Li Po. Comecei a fazer este trabalho seguindo uma frase do “Tratado da Pintura” de Leonardo da Vinci em que ele diz “a poesia é pintura que se ouve e a pintura é a poesia que se vê.
Há também a música.
A poesia de Pessanha tem muito que ver com o simbolismo em que ele se enquadrava: “De la musique avant toute chose”. Em Lisboa em paralelo à exposição que hoje se estreia em Macau temos outra com o nome feliz “Camilo Pessanha – diálogo entre mundos”. Representa o exímio poeta da língua portuguesa tradutor de poesia chinesa e o diálogo entre os poemas e a música: vamos ter um fundo sonoro com poemas declamados e instrumentos chineses.
Camilo Pessanha é poeta de Portugal ou de Macau?
É de Macau. Chegou aqui com vinte e tal anos, viveu aqui toda a sua vida de homem. A cultura de Pessanha é sobretudo macaense.
Há outros que dizem que o poeta deixou de escrever quando chegou aqui. Apoiam-se numa frase em que ele terá tido que tinha um poema por concluir há 20 anos. Escreveram-se muitas coisas sobre Camilo Pessanha. Há muitos poemas que só podiam ter sido feitos depois de ele ter conhecido a realidade chinesa vivida. Um dos melhores poemas, “Branco e Vermelho”, publicado em Macau já depois da morte, foi com certeza concebido cá. Uma das razões para ele ter deixado de escrever foi a enorme admiração que teve pela poesia chinesa. Começou a traduzir febrilmente e talvez essa obsessão o tenha encantado.
Como poeta escrevia, riscava, rasgava. Talvez isso também justifique a pouca produção. Também se diz que ele era um poeta que não escrevia: só dizia versos. É evidente que ele copiava e corrigia: cada poema é uma filigrana. Esta depuração só é atingida depois de muita reflexão de cada verso.
Ânsia de perfeição pode ter motivado a não publicação?
Ele teria pensado em publicar. Isso está bem patente quer no livro de Carlos Morais José quer no de Paulo Franchetti que encontrou na Biblioteca Nacional [portuguesa] uns manuscritos que revelam a forma como Camilo Pessanha pensou organizar o seu livro de poemas. Não o fez porque Ana de Castro Osório se antecipou e publicou “Clepsidra”, em 1920.
E a ideia do poeta preguiçoso?
Camilo Pessanha é por norma tido como um fumador de ópio que passava o tempo todo enrolado num lençol a dormir. Ora, assim que chegou a Macau dedicou-se profundamente a ler e escrever chinês – não conheço muitos portugueses que o tenham feito. Aprendeu a conhecer a Arte Chinesa e ao nível dos europeus foi o primeiro coleccionador a comprar boa pintura chinesa. Ofereceu a melhor parte da sua colecção ao Museu de Arte Antiga e mais tarde ao Museu Machado Castro.
As peças chegaram alguma vez a ser expostas?
Uma vez, nos anos 60, no museu Machado Castro, mas voltaram a ser encaixotadas. O espólio que ele ofereceu era de grande valor, sobretudo a colecção de pintura que será exposta no futuro Museu do Oriente. As grandes entidades culturais de então viram as peças como exóticas, não arte. Nunca foram cuidadas e penso que se devem ter deteriorado. Ele fez um grande mal: ofereceu, se tivesse vendido talvez dessem valor.
O espólio enquadra-se noutro mito sobre Pessanha: a casa onde viveu, os vícios, as roupas que usava....
Ele consumia ópio. Não morreu, porém, de nenhuma overdose mas de tuberculose que matava famílias inteiras. Vivia com uma senhora chinesa, o que não era bem visto na sociedade de Macau. Agora vem o que toda a gente acha infame: Pessanha terá comprado a mãe da Águia de Prata a um corretor. Ela apareceu-lhe com uma filha que a terá substituído como concubina quando morreu. A grande intriga que se fez foi que João [filho de Pessanha] teria tido uma aproximação a Águia de Prata o que terá provocado a ira do poeta por serem irmãos uterinos. Penso que é mais um dos mitos, exagerou-se. Camilo Pessanha era visita quase diária na casa do meu avô que era um figura muito importante. A minha mãe e as minhas tias, embora católicas e conservadoras, tinham um fascínio muito grande por Camilo Pessanha. Era muito bem recebido.
Também circulava pelas festas no palácio dos governadores.
Era chamado pela autoridade para tudo o que havia de importante. Na recepção aos aviadores que fizeram a primeira viagem Lisboa/Macau fez o discurso de boas vindas. Era um conhecido advogado – dizia-se que causa defendida por Pessanha era causa ganha – e foi como advogado e professor que angariou dinheiro para a colecção de arte chinesa.
Quando o poeta morreu enalteceu-se a decadência. É assim?
Foi essa figura que procuraram. Além disso, houve a inveja de Macau. Alguns gostavam muito de ser poetas e achavam muito bem dizer mal de Camilo Pessanha porque viam na poesia dele uma qualidade que não conseguiam ter. Pensavam: “Poderá escrever bem mas é péssima pessoa”.
É daí que vem o trocadilho Camilo Peçonha?
Arranjar defeitos é uma forma de ultrapassar a inveja. Pessanha não era muito social. Frequentava as tertúlias do Martinho do Rossio, gostava dos sons da sua poesia que declamava em voz alta nas ruas da Baixa. Há uma história em que Pessanha fica muito comovido com a morte a que assistiu de um toureiro no Campo Pequeno. Não era só o eremita que pairava a 10 palmos da terra. Como professor diziam que era desleixado. Tenho em minha casa um caderninho em que ele escreveu com muito cuidado os temas que ia falar nas aulas – feito pouco tempo antes de morrer, não estava tão tropo como isso. Era genial: também tive um professor que nunca passava do Egipto, o que é muito mais interessante do que saber de cor os nomes dos imperadores romanos.
Sobre o génio do poeta. Emprestou um livro a um chefe de gabinete do governador que o devolveu com anotações à margem. Camilo Pessanha terá chamado o cão Armindo para ler as notas.
Tenho um livro de psiquiatria, “Almas dolorosas” escrito por Luís Cebola, que pertenceu à biblioteca do poeta. Camilo ofereceu o livro a um médico de Macau para lhe pagar a consulta. Há lá uma anotação que revela uma coisa de que se fala pouco, o humor de Pessanha. Na última página do livro fez o seguinte resumo: “Este doutor Cebola é um grande alho”, assinado C. P. e entre parênteses Camilo Pessanha.
Tinha interesse pelos fenómenos da mente, seguia o esoterismo maçónico?
Não, era um racionalista. Pertencia ao Grande Lusitano Oriente Unido e foi importante. Chegou muito rapidamente ao 18º grau. Não tenho muitos documentos sobre a militância política como republicano. Não se sabe muito bem que participação tinha. A nata da maçonaria é mais ou menos aquela que vem na fotografia publicada pelo meu pai em “O testamento de Camilo Pessanha”.
Quem foi Danilo Barreiros?
Uma pessoa muito interessante. O meu pai chegou a Macau com 23 anos, depois de uma vida aventurosa, e rapidamente conseguiu retirar o que era importante. Escreveu “As Marcas da Porcelana Chinesa”; escreveu, penso, a primeira colectânea sobre o dialecto português de Macau; “A paixão chinesa de Wenceslau de Morais” e depois “O testamento de Camilo Pessanha”. São grandes coisas de interesse intelectual da época. Quero ver se em 2010 faço uma publicação da biografia e uma colectânea da produção literária do meu pai.
Pessanha e Wenceslau de Morais foram amigos?
Foram os dois do primeiro grupo de professores do recém-criado Liceu. Há muitas cartas em que Wenceslau de Morais se refere a Pessanha, mas não se encontram cartas directas a Camilo Pessanha: as que recebeu devem ter ido parar ao lixo. Não sei o que a viúva e o filho fizeram a muitas das coisas. Venderam peças numa loja de bricabraque, por exemplo. Mas há uma história mais grave. Uma pessoa (não digo quem) recebeu cartas de Pessanha em que ele descrevia as suas relações com o ópio. Queimou-as. Achou que era a melhor forma de não manchar a memória do poeta.
Tem muito peso nas costas, muitos nomes a honrar.
Quando herdamos património devemos distribuí-lo. É uma obrigação de cidadão. Em 2004, comemorei os 150 anos Wenceslau de Morais e agora aproveitei os 140 de Camilo Pessanha. Há ainda José Vicente Jorge, completamente esquecido. Devia ter tido melhor memória. Não sei se terei tempo. Sou um cidadão de Macau que vive em Portugal porque não tive outro remédio: queria estudar medicina. A minha casa é um canto de Macau que vive em Lisboa.
Fala cantonense?
Eu e o meu irmão éramos tidos como uns tipos exóticos na escola primária. Prometemos um ao outro que nunca mais falaríamos cantonense entre nós para não sermos gozados. Esquecemo-nos. Só sei o nome de comidas e palavrões. Tenho muito pena de ter esquecido a minha primeira língua.
Que balanço faz dos dois anos como presidente da Associação Wenceslau de Morais?
Tem sido bastante positivo. Publicaram-se imensos livros, fizeram-se imensas exposições e passeios em Lisboa. Os livreiros pediram obras que já esgotaram às editoras. Pena é que estas comemorações não tenham eco nos órgãos que deviam ter.
Refere-se Ministério da Cultura português?
E a outras associações culturais... A Fundação Oriente colaborou na elaboração dos cartazes, mas com certa timidez. Se não fosse o apoio do Instituto Internacional de Macau todos os contactos que fiz para trazer a exposição em Macau tinham sido demorados. Não sei porque que é há um tão grande desinteresse por figuras tão importantes para a cultura em Portugal. No caso de Wenceslau de Morais não houve nenhum português que tivesse escrito tanto e tão bem sobre o povo japonês. E só por uma questão de obrigatoriedade é que não podemos chamar a Camilo Pessanha o primeiro poeta português.
Tirava o título a Camões?
Por mim, tirava. Nem antes nem depois de Pessanha a poesia atingiu tanta qualidade. É conhecida a frase de Eugénio de Andrade. Ele gostava de três poetas: Camões, Cesário Verde e Pessoa. Mas o único a que chamava mestre era Pessanha. Poderá ser classificado com simbolista e foi encontrado pelos modernistas.
Pessoa convidou-o para escrever na Orpheu.
É extraordinário: temos a transição da mesma pessoa do século XIX para o XX. A atracção de Pessanha sobre a poesia oriental estava tão avançada em relação aquilo que se escrevia em Portugal! Pureza, conceitos abstractos. Não é uma poesia personalizada em que o namorado fala para a namorada.
Mas há aquele poema-declaração à rapariga de Coimbra, Madalena.
Há quem diga que era uma prima. Camilo teve duas irmãs com esse nome. Só ele sabe quem está no poema. Não é importante, o poema ultrapassa a dedicatória.
Quem foi a mulher que o poeta amou?
Ana de Castro Osório. Foi quem marcou toda a vida sentimental de Camilo Pessanha e julgo que foi ela quem o obrigou a tomar a decisão para vir até Macau. O pedido de noivado foi recusado, ela já estava comprometida. Mesmo assim, marcou um encontro para se despedira. A publicação de “Clepsidra” foi um acto de respeito. No filme, falamos um pouco sobre esta mulher: tinha de ser uma pessoa de grande qualidade para ser a escolhida de Pessanha. Era também da maçonaria e foi uma mulher de vanguarda: distribuía às mulheres das fábricas papeis em que as incitava a amamentar os seus próprios bebés. Está quase esquecida em Portugal, França conhece-a melhor.
O filho dela teve também relevo em Pessanha?
Foi o autor da segunda edição. Teve o defeito – como muitos dos que se dedicaram ao estudo de Pessanha – de se sentir dono da figura.
Como foi o funeral?
Vem descrito no livro do meu pai. Foi com muita gente e com gente que sentiu muito a falta dele. Não era católico — também eu tenho um rosário da minha mãe e não tenho nada a ver com o catolicismo — e quando passava a procissão só se vestia da cintura para cima. Era o que se via da rua... Exigiu um enterro laico e não queria a banda dos alunos do colégio católico. A única pessoa que lhe levou flores foi a minha tia Amália. A primeira menina de Macau que foi estudar medicina para Lisboa e foi com uma bolsa de Camilo Pessanha. Foi quase freira e tinha enorme pela figura de Pessanha.
O nome do poeta está na memória colectiva?
Tem-se feito alguma coisa. Wenceslau de Morais esteve cinco anos em Macau, Camilo Pessanha quase trinta. A nota de um era de 500 patacas, a de outro de 100. Wenscelau de Morais saiu zangado, cortou com a Marinha, escreveu muito pouco sobre Macau, esteve ligado à supervisão do ópio e tem avenida, uma rua, uma travessa e uma praceta. É um milagre termos um poeta — que foi juiz — como Pessanha a escrever em português e tem uma travessa. A memória é isso: as pessoas são homenageadas de acordo com os ventos da época.
FONTE: Hoje Macau - China
http://www.hojemacau.com/

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